25 de dezembro de 2017
A psicoterapia de Albert Ellis
Fonte: Albert Ellis & Robert Harper, A Guide to Rational Living, 3a edição, 1997, Wilshire Book Co., Woodland Hills, CA, EUA.
20 de novembro de 2017
Breve introdução à fenomenologia
1. O que Husserl entende por fenômeno? Antes de tudo, fenômeno não significa os estados mentais, esses estados reais que constituem meu psiquismo. Também não se trata de fenômenos no sentido de que sejam o aparente de uma coisa que está para além de sua própria aparência. Para Husserl, fenômeno é simplesmente o que é manifesto enquanto é manifesto. Em virtude disso, todo fenômeno envolve necessariamente aquele diante do qual é fenômeno; todo “manifestar-se” é necessariamente manifestar-se para alguém. Desde já é claro para Husserl que fenômeno e consciência são dois termos correlativos: toda consciência é consciência de algo, e este algo é o fenômeno que se dá naquela consciência. Pois bem: o ego, quando fica a sós consigo mesmo, reduz toda realidade à condição de fenômeno.
2. Como se trata de uma redução de tudo a puro fenômeno, Husserl a chama de redução fenomenológica.
a. A posição de Husserl é clara: a redução atua sobre a totalidade do mundo enquanto tal. Para o homem que vive em atitude natural, mundo é a totalidade das coisas reais dentro das quais eu mesmo me encontro como uma realidade entre elas. A vida natural, portanto, é suportada por uma “protocrença” na realidade de tudo; toda crença ulterior está montada sobre a protocrença. Pois bem: a redução opera sobre essa protocrença, quer dizer, sobre o mundo inteiro, e consiste em deixá-la em suspenso.
b. Não se trata de abandonar pura e simplesmente esse mundo real – quer dizer, não se trata de crer que ele não tem existência. Trata-se, pelo contrário, de continuar a vivê-lo e a viver nele, mas de adotar, enquanto o vivo, uma atitude especial: pôr em suspenso a validez da crença em sua realidade. Não abandono, portanto, a vida real; permaneço nela, em toda a sua riqueza e detalhe, nas variedades de cada vivência. Mas sem crer em sua realidade. A redução consiste, portanto, em reduzir o mundo real inteiro a algo que não é a realidade; por essa operação, tenho um mundo reduzido. Não perco nada do que é real: perco apenas seu caráter de realidade. A que, então, o mundo fica reduzido? Justamente a ser apenas aquilo que aparece em minha consciência e enquanto me aparece – quer dizer, fica reduzido a puro fenômeno. A redução, portanto, é fenomenológica.
Essa redução tem duas dimensões. Em primeiro lugar, em vez do puro fato, temos o eîdos. Se neste vermelho de fato prescindo de que seja “de fato” vermelho, fico apenas com “o” vermelho. Este eîdos não é pura e simplesmente um “conceito” geral. Não entremos, neste momento, na exposição do que seja a concepção husserliana de eîdos e de sua visão. Basta o já dito para dar a entender que a redução fenomenológica é, antes de tudo e sobretudo, uma redução eidética – uma redução do fáctido ao eidético.
Mas não é só isso. O mais importante é que a realidade é reduzida em seu próprio caráter de realidade. Com isso, o mundo reduzido a fenômeno se mostra perfeitamente irreal. Mas irreal não significa fictício ou coisa parecida. Significa apenas que prescinde, por epoché, de toda alusão à realidade. Para Husserl, isso não é uma perda, e sim, como veremos a seguir, um conseguimento definitivo, porque sabendo o que é “o” vermelho em si mesmo, irrealmente, tenho com isso o “metro” segundo o qual são, não são ou são em parte vermelhas todas as coisas vermelhas que há ou pode haver no mundo. Nesta dimensão, a redução não é apenas eidética, mas é transcendental. E isso em duplo sentido. Em primeiro lugar, aquele metro da realidade se manifesta apenas em e por uma consciência subjetiva. Enquanto é esta subjetividade o que constitui as condições das coisas, é uma subjetividade transcendental. Em segundo lugar, a redução é transcendental porque desde os tempos mais remotos se chama transcendental àquilo que constitui a “propriedade” em que tudo coincide pelo mero fato de ser. Pois bem: pela redução, tudo é e somente é fenômeno. Daí que a fenomenalidade seja o caráter transcendental supremo.
A metafísica clássica tinha falado até a exaustão de transcendência. Mas entendia que transcender é ir da realidade do mundo a uma causa transcendente que o explique. Pois bem: essa causa transcendente, se algo havemos de saber dela, precisaria se manifestar em uma consciência. E, ainda que fosse assim, a função da fenomenologia não consiste em “explicar” o mundo com essa causa, mas tão somente em “compreender” o que é. A fenomenologia não explica nada pela simples razão de que toda explicação é interna ao mundo, e a fenomenologia transcende o mundo inteiro não para sair dele, senão justamente o contrário, para permanecer nele, mas de outra maneira: vendo como ele se manifesta para nós.
A nova atitude que Husserl defende se traduz, portanto, em um único conceito: redução a fenômeno puro. Reduzido o mundo inteiro a mero fenômeno, qual é o campo de investigação filosófica que essa atitude nos abre, quer dizer, em que consiste mais precisamente o objeto da filosofia?
3. Consideremos esta pasta verde. Naturalmente, sempre é discutível se esta pasta é verde ou até que ponto não é. Já não sabemos se a pasta é verde. Ficamos somente com o fenômeno “verde”. O que é que sabemos então? Não sabemos se a pasta é verde, mas sabemos o que é o verde, o que é ser verde. Pois bem: o que desde o tempo dos primeiros gregos até nossos dias constitui o “que” de algo é que se chamou de sua “essência”. E a essência é aquilo que uma coisa “é”. Essência é o ser das coisas. Por isso o resultado da redução fenomenológica é a descoberta da essência do ser. Em sua dupla dimensão eidética e transcendental, o fenômeno puro é essência, é ser: ser homem, ser pedra, ser cavalo, ser astro, ser verde, etc. Em troca de haver colocado entre parênteses a realidade das coisas sustentada pela crença fundamental, o que ganhamos é nada menos que o próprio ser das coisas: sua essência. E este é o objeto da filosofia.
O possível caráter alucinatório ou real do objeto da percepção é perfeitamente indiferente. O que “é” o verde é indiferente a que a coisa seja ou não realmente verde. A consciência em redução basta a si mesma; é o único ente que não precisa de nenhum outro para ser. É, portanto, o único ser absoluto.
Mas isto é ainda uma afirmação vaga. Ter descoberto esse objeto absoluto que é a essência ainda não é o mesmo que ter demonstrado como é possível um saber absoluto a respeito dela.
4. Consequentemente, a primeira coisa que Husserl nos há dizer é o que ele entende por isso que chama de consciência.
Antes de tudo: não se trata da consciência no sentido da psicologia. Para a psicologia, a consciência é uma atividade mental que tem seus momentos e mecanismos próprios. A atividade mental quer, pensa, sente, recorda, percebe, tem paixões, emoções etc. Esses mecanismos envolvem também componentes somáticos da mais diversa ordem: receptores, como hoje diríamos, processos cerebrais etc. Tudo isso, com efeito, são os “mecanismos” da consciência, mas não a própria consciência. O que é a consciência que com esses mecanismos consegui ter é algo que a psicologia como ciência natural sempre eludiu. Pois bem: sejam quais forem os mecanismos psicofisiológicos que produzem a consciência, esta é, em sua pureza primária, um mero “dar-se conta”, precisamente enquanto puro dar-se conta de algo. Daí o erro fundamental que neste ponto Husserl reprocha ao psicologismo: a naturalização da consciência, o haver transformado o simples momento de me dar conta de algo em um sistema de mecanismos que no máximo poderão explicar como chego a me dar conta. Reduzida a atividade mental a esse momento de puro dar-me conta, encontro-me instalado na consciência pura.
5. A consciência pura, a “consciência-de”, é algo que só é consciência enquanto o é “de” algo. Toda consciência está dirigida para algo. E esse “dirigir-se para algo” é o que desde tempos imemoriais se vinha chamando de intencionalidade.
a. Antes de tudo, a intencionalidade é esse momento segundo o qual a consciência é algo que só o é “de” outro algo. Neste aspecto, a consciência é uma intentio, ou, como diz Husserl, é uma noese. Não se trata de que a consciência como intentio seja algo concluso como ato meu que é, e que depois se estabelecesse uma relação com algo que não é ela mesma, e que está para além dela, relação que se expressaria no “de”. Dito em outras palavras: o “de” não é uma relação da intentio ao objeto, mas a própria estrutura da intentio.
Mas, apesar de verdadeiro, isso não é suficiente para Husserl. Mais ainda (e isto é o essencial), a consciência é o que faz com que haja objeto intencional para ela; a consciência não só tem um objeto, mas faz com que haja objeto intencional para ela, e o faz a partir dela mesma. Não é que a intentio produza desde si mesma o conteúdo do objeto – seria um subjetivismo que Husserl rechaça energicamente. Mas o que a intentio, e só a intentio, faz é fundar a possibilidade da manifestação do objeto intencional tal como ele é em si mesmo. Esta é a criação de Husserl: a intencionalidade não é apenas “intrínseca” à consciência, mas um a priori com respeito a seu objeto, onde a priori significa que a consciência funda desde si mesma a manifestação de seu objeto. E este fenômeno de intencionalidade é o que tematicamente Husserl chama de vivência.
b. Precisamente porque a consciência é intencionalidade, ela tem como termo seu um objeto que é seu intentum próprio, o que Husserl chama de noema. O noema não é “conteúdo”, mas mero “termo” intencional da consciência, algo que é manifesto nela, mas que não é ela mesma nem parte dela. Esse termo intencional tem três características. Antes de tudo, o que acabamos de dizer: é algo “independente” da consciência. Na consciência, seu noema se manifesta a nós tal como é em si mesmo, quer dizer, com plena objetividade. Objetividade não é realidade: toda realidade ficou entre parênteses em seu caráter de realidade, mas permaneceu intacta no que é em si mesma. Esse permanecer intacto é o que constitui a objetividade. Mas, em segundo lugar, o noema, objetivamente manifesto à noese da consciência, só pode dar-se nela. Posta a realidade entre parênteses, o fenômeno só pode ser o que é como termo objetivo da consciência. Finalmente, como dissemos antes, o noema não só se dá na minha consciência, mas se dá em virtude da própria consciência, fundado nela.
c. Como não se dão um sem o outro, esses dois momentos de noese e noema têm uma unidade intrínseca peculiar. Precisamente porque a consciência é intentio, vai “dirigida” para seu noema, o que constitui, portanto, o “sentido” de tal intenção para mim. A unidade noético-noemática tem, assim, um caráter extremamente preciso: é unidade de “sentido”. A intentio é o que abre a área do sentido objetivo do noema, o qual é, então, o sentido objetivo da intentio. O sentido no noema não depende da consciência, mas do próprio noema. Mas que o objeto seja sentido noemático, isso se deve à consciência. A unidade de sentido objetivo do noema é justamente o que, segundo Husserl, é o “ser”. Ao dizermos que o que nos é manifesto é de uma maneira ou de outra, o que estamos dizendo é que esse e não outro é seu sentido objetivo. Ser é unidade de sentido objetivo. Vimos antes que o noema, o puro fenômeno, é ser como essência. Pois bem: a essência da essência é “ser” como sentido objetivo. Como tal, o ser se funda na própria consciência.
Essa é, delineada em traços gerais, a estrutura da consciência pura, segundo Husserl.
6. Mas Husserl não pode por deter-se aqui: ele precisa buscar nessa consciência pura a possibilidade de um saber absoluto. Para isso, precisa entrar nos modos de consciência em que se pode constituir esse saber. Há intenções muito diferentes. Há intenções vazias, intenções em que seu objeto não está dado presentemente à consciência; por exemplo, o simples “mencionar” um objeto ou aludir a ele. Outras vezes, o objeto está presentemente dado à consciência, mas pode estar de diversas maneiras. Se reconheço um amigo em uma fotografia, tenho presentemente dado o amigo. Mas, neste caso, o termo do “de” é “mediato”: minha intenção vai in modo recto ao amigo, mas através da própria fotografia. Outras vezes, o objeto está “imediatamente” presente – por exemplo, quando recordo um objeto que vi antes. Mas essa imediatez não é o fundamental. Há vezes, de fato, em que o objeto está imediatamente dado, mas “originalmente”; é o objeto presente “em carne e osso” por assim dizer. Pois bem, a intenção de um objeto imediata e originalmente dado à consciência é o que Husserl chama de intuição.
Mas para Husserl não se trata da intuição como simpatia ou simbiose da consciência com as coisas. Para Husserl, essa intuição seria “mundanal”, porque é a simpatia real com objetos igualmente reais. Husserl pôs “entre parênteses” todo o mundo real. A intenção é então pura e simplesmente o ver o manifesto originalmente manifestado, e tão somente enquanto manifestado, quer dizer, como mero correlato intencional da consciência pura.
Como fato mundano, a visão de um amigo me dá apenas esse amigo. Mas, reduzida a fenômeno, essa visão me dá algo mais: dá-me a visão, por exemplo, do humano, assim como a visão desta cor vermelha, reduzida a fenômeno, me dá não apenas “este” vermelho, mas o vermelho, etc. É uma intuição “ideacional”, porque me dá o eîdos do objeto. Essa intuição é imediata. É verdade que para isso preciso também intuir “esta” cor vermelha, mas nela vejo não só “este” vermelho, mas também o vermelho.
Todas essas intenções não se encontram apenas justapostas. Pois as intenções que não são intuitivas podem, no entanto, ser preenchidas com uma intuição. É o ato que Husserl chama de “repleção”. Pois bem: a repleção de uma intenção intuitiva com a intuição correspondente é justamente a “evidência”. E, justamente por isso, o correlato intencional da evidência é a verdade: na intenção intuitivamente evidenciada, o ser e a intenção coincidem. A evidência não é para Husserl – como não tinha sido para o racionalismo – uma propriedade exclusiva dos atos “lógicos”; não é apenas a inclusão de um predicado em um sujeito. A evidência é a repleção de uma intenção em seu objeto intuitivamente dado. A evidência lógica é apenas um minúsculo caso particular da evidência intencional. Todo ato de consciência, da índole que seja, se está repleto por uma intuição, é evidente; há assim uma evidência dos valores, etc. A evidência é um momento estrutural da consciência e não apenas do pensamento lógico.
Suposto isto, Husserl já tem nas mãos todos os elementos de que necessita para chegar a uma ciência estrita e rigorosa da essência, isto é, do ser das coisas – essa ciência é o saber absoluto em que consiste a filosofia para Husserl.
7. Pois bem, a filosofia não é uma intuição passiva do que tenho dado em um momento na consciência. Muito pelo contrário, é esforço ativíssimo. Precisamente porque a intuição recai sobre objetos não transcendentes, mas intencionalmente imanentes à consciência pura, “eu posso” sempre executar livremente sobre eles toda classe de atos; posso variá-los intencionalmente. Toda consciência, além de manifestar seu objeto, é um “eu posso” torná-lo mais manifesto. A consciência não apenas manifesta, mas faz manifestar-se o objeto. Esse “poder” é de índole intencional. Não é o poder ter intenções, mas o ter a intenção de poder tê-las. O “poder” intencional é essencial ao eu; todo eu é não apenas um “eu intuo”, mas um “eu posso intuir”. É que todo objeto, além de nos dar o que atualmente nos dá, é algo que por sua própria índole prefixa suas possíveis manifestações ulteriores. Dito em outras palavras: junto às intenções “atuais”, há as intenções “potenciais”, que prefixam os sentidos implícitos que competem a cada tipo de objeto determinado. A intenção potencial não é a possibilidade de uma intenção qualquer, mas a intenção de possibilidades determinadas pela índole do objeto. Cada intenção atual prefixa as intenções possíveis, e por sua vez cada intenção possível prefixa o curso de sua repleção em ulteriores intenções atuais. Dessa maneira, cada intenção e cada intuição é ao mesmo tempo o correlato de um “eu posso”. O correlato objetivo do “eu posso” é o que Husserl chama de horizonte. Todo objeto, além de nos dar o que nos dá em um momento, abre um horizonte próprio de possibilidades de manifestação. Com isso, abre-se diante de nossa consciência um campo infinito de investigação, de esforço intuitivo ativo. E, como, dentro desse horizonte, se prefixa o âmbito das ulteriores intenções atuais do próprio objeto, sucede que as intenções constituem um sistema e não um caos arbitrário. O caráter sistemático das vivências intencionais tem como correlato objetivo a estrutura sistemática do objeto e de sua conexão com outros objetos. E esse sistema objetivo é o que propriamente constitui a essência, o ser do objeto.
Dessa maneira, abre-se diante de mim um campo infinito de saber absoluto, em que vou adquirindo progressiva e dificultosamente a versão de toda intenção à sua forma intuitiva e ao enriquecimento da própria intuição. O conseguimento de evidências absolutas e cada vez mais adequadas é um esforço penoso. É uma verdadeira experiência: a experiência fenomenológica.
Nela consiste a filosofia. A filosofia não é um sistema racional e lógico de proposições e demonstrações: é evidenciação intuitiva, uma evidenciação que não se fundamenta em pontos de vista pessoais, mas em um apelo objetivo à intuição, no qual nosso saber encontra sua última e estrita verdade absoluta. Esta ciência absoluta dos fenômenos em seu sistema é a filosofia. A filosofia é sempre e apenas “fenomenologia transcendental”. Aí está o que Husserl buscava.
Fonte: Xavier Zubiri, Cinco Lições de Filosofia, É Realizações, São Paulo, 2012.pág. 213-230, trechos selecionados.
3 de novembro de 2017
Kant e o caráter ambivalente da metafísica
Para saber se uma série de saberes efetivamente empreendeu “a
marcha segura…o real caminho de uma ciência”, basta prestar atenção a seu
conteúdo e aos resultados alcançados. Será ciencia: 1°, se existe verdade nos
resultados obtidos; 2°, se existem não apenas resultados verdadeiros, mas
também, além disso, uma direção fixa, um método, na investigação da verdade;
3°, se cada verdade assim conquistada aumenta o saber anterior, e não
simplesmente o destrói, isto é, se a marcha, de acordó com aquele método, é
realmente progressiva. Certamente poderá haver oscilações, poderá haver saberes
duvidosos, poderá haver retificações parciais, às vezes muito profundas; mas,
definitivamente, tomada em seu conjunto, a ciencia vai se compondo de verdades
já estabelecidas. Verdade, método e progresso firme: essas são as
características daquilo que chamamos de ciêmcia.
A lógica entrou exemplarmente no real caminho da ciencia. Em
segundo lugar, a matemática. Em linha reta, por assim dizer, de Galileu a
Newton, a física se constitui em um corpo de doutrina sólidamente estabelecida
e que progride com firmeza. Kant insinua que, em sua época, a mesma coisa
começou a acontecer com a química graças a Stahl.
Apesar de toda sua apodêixis
[argumentação, caráter demonstrativo], o que há na metafísica que não esteja
submetido a discussão sem chegar nunca a clarezas últimas? Qual é o conjunto de
conhecimentos do qual se pode dizer, com rigor, que se trata de algo já
estabelecido, com respeito ao qual todos os filósofos estão de acordo? A
metafísica ofrece o triste espetáculo de ainda não ter entrado no caminho
seguro da ciência.
Compreende-se que, diante dessa situação, Kant nos diga que
a filosofía não entrou ainda no caminho seguro da ciência. No entanto, diz-nos,
“enquanto houver homens no mundo, haverá metafísica”, porque a metafísica é uma
“disposição fundamental” da natureza humana.
Pois bem; um exame atento dos principios da metafísica nos
mostra que todos eles são sintéticos. Assim, por exemplo, “tudo o que acontece
tem uma causa” é um juízo sintético. Pois do conceito de uma “coisa” jamais
sairá por análise o conceito de “outra” coisa que fosse sua causa. A verdade
daquele juízo não se funda em evidencia. Também não se funda em um recurso aos
objetos. A experiência, dizia Kant seguindo Hume, nos mostra que uma coisa vem
depois de outra, mas não mostra jamais que o antecedente seja causa do
consequente. No entanto, esse é um juízo que expressa uma necessidade absoluta
com uma verdade independente de qualquer experiência. É, portanto, um juízo
sintético a priori. Quer dizer, sua
verdade se encontra fundada não no objeto nem na evidência, mas em um principio
diferente.
Definitivamente, o emprego de ciências como a matemática e a
física nos mostrou que o entendimento tem juízos sintéticos a priori. Isso quer dizer que nesses
conhecimentos é o entendimento o que determina de antemão os objetos, por um principio
que não é a evidência nem eperiência, mas um principio diferente. E a análise
dos primeiros juízos metafísicos nos fez ver, igualmente, que sua verdade
também está fundada no fato de que é o entendimento que determina, de uma forma
ou de outra, o objeto. Este é o sentido da revolução copernicana de que Kant
nos fala.
Esta fórmula significa simplesmente que o problema está em
averiguar qual é e como é este principio cuja índole consiste não em que o
entendimento gire em torno dos objetos adequando-se a eles, mas em que os
objetos girem em torno do entendimento e que seja este o que os determine.
Trata-se de um movimento em dois tempos, por assim dizer.
Primeiro, as categorias são descobertas por “regressão” desde o objeto até seus
supostos últimos, isto é, até o “eu penso”. Depois, por “descida”, baixa-se do “eu
penso” até a constituição do objeto enquanto tal. Este é método que Kant chama de método
transcedental.
Para Kant, é isso o que explica o caráter ambivalente do que
é metafísico em orden ao conhecimento. Por um lado, não alcança as coisas tais
como elas são; mas, por outro, é inevitável, porque da própria estrutura da
experiência dos objetos parte o ímpeto pelo qual temos de forjar para nós uma
Ideia da totalidade de objetos de toda possível experiência. E o polo, o farol
que ilumina, orienta e dirige esse ímpeto, é a Ideia – Ideia do Mundo, da Alma,
de Deus. Em contrapartida, pretender que essas Ideias sejam conceitos aplicáveis
a algo dado, ou seja, pretender que elas sirvam para explicar, para entender como são as coisas em si mesmas, na
medida em que constituem uma totalidade última, e além disso uma totalidade
última causada por uma causa primeira, é a tentativa que só conduziu a
antinomias, cuja raíz última está em considerar a totalidade dos objetos como
se fosse mais um magno objeto, submetido, portanto, às condições de
conhecimento dos objetos que fazem parte dessa totalidade. Certamente, eu posso
pensar que a totalidade dos objetos consiste em ser sistemas de coisas em si,
mas esse pensamento não é conhecimento, no sentido estrito que essa palabra tem
para Kant.
Fonte: Xavier Zubiri, Cinco Lições de Filosofia, É Realizações, São Paulo, 2012.
20 de abril de 2017
Como aprender uma língua estrangeira
Seguem as algumas
notas a respeito do interessante método de aprendizado de línguas estrangeiras
de Gabriel Wyner.
I. INTRODUÇÃO
PRINCÍPIO
1: MEMÓRIAS MEMORÁVEIS
O cérebro é
um filtro sofisticado. Ele descarta informações irrelevantes e absorve
informações significativas. As palavras estrangeiras tendem a cair na categoria
“informação irrelevante” porque soam esquisitas, não parecem com nada que seja
significativo para você e não apresentam nenhuma relação com suas experiências
de vida.
Você pode
escapar desse filtro e fazer com que as palavras estrangeiras sejam lembradas fazendo
três coisas:
- Aprender o sistema sonoro da língua
- Associar esses sons a imagens
- Associar essas imagens com suas experiências pasadas
PRINCÍPIO
2: MAXIMIZANDO A PREGUIÇA
O processo
de repetição é uma coisa chata, enfadonha. Ele simplesmente não funciona como processo
de memorização de longo prazo.
Ao invés
disso, vá pelo caminho da preguiça: estude o conceito até o ponto em que você
seja capaz de repeti-lo sem olhar e então pare. Afinal, preguiça também é sinônimo de “eficiente”.
PRINCÍPIO
3: NÃO REVEJA. RECORDE.
O ato de
recordação faz com que seja disparado uma espécie de “dança química” complexa
no seu cérebro, o que faz com que a capacidade de retenção da memória seja
intensificada.
Para
maximizar essa eficiência, passe a maior parte do seu tempo recordando, e não
revisando.
Você vai
conseguir fazer isso criando flashcards que testem sua capacidade de recordar
uma determinada palavra, pronúncia ou construção gramatical. Quando os
associamos a imagens e conexões pessoais, esses flashcards vão formar os fundamentos
de um poderoso sistema de memorização.
PRINCÍPIO
4: PERAÍ, PERAÍ! NÃO FALA!
Os testes
de memória são mais eficientes quando são desafiadores.
Quanto mais próximo você estiver de esquecer uma palavra, mais enraizada ela
vai ficar quando você enfim conseguir se lembrar dela.
Se você
conseguir se testar no momento exato antes
de se esquecer, você vai conseguir dobrar
a eficácia dos testes.
PRINCÍPIO
5: REESCREVENDO O PASSADO
Toda vez
que você consegue recordar uma determinada memória, você volta a visitar e a reescrever
as experiências anteriores, acrescentando pedaços do seu presente às suas
memórias passadas.
A melhor
maneira de praticar a recordação é tornar suas memórias cada vez mais
memoráveis. Para fazer isso, você deve associar sons, imagens e conexões
pessoais a todas as palavras que você quiser aprender.
Se
acontecer de você esquecer, o feedback imediato vai trazer suas memórias
esquecidas de volta.
TEMPO É
TUDO: O FIM DO ESQUECIMENTO
Os sistemas
de repetição espaçada (SRS) são como flashcards com esteroides. Eles
superalimentam a memorização ao monitorar de maneira automática seu progresso e
usando essa informação para desenvolver uma lista diária e personalizada de
novas palavras para aprender e velhas palavras para revisar.
Recursos:
- Anki.
- Tutorial:
II. PRONÚNCIA
Seu cérebro
foi interconectado de tal forma a ignorar as diferenças entre os sons
estrangeiros. Para reconectá-lo você deve ouvir os pares mínimos da língua que
deseja aprender – são as palavras com sons similares como niece e knees – e se
autotestar até que seu cérebro se adapte a ouvir estes novos sons.
Ao praticar
estes testes você estará se capacitando a reconhecer as palavras quando elas
forem faladas além de facilitar sua memorização.
A impressão
que passamos aos outros é importante, e seu sotaque é a primeira impressão que
você passa. Um bom sotaque faz a diferença entre uma conversa que começa em
francês e termina em inglês e outra que seja completamente em francês.
Melhore seu
sotaque aprendendo os ingredientes básicos – língua, lábios e cordas vocais –
de todos os sons que forem necessários. Essa informação você encontra no International Phonetic Alphabet.
Todo idioma
possui um padrão que relaciona a ortografia com a pronúncia. Se você conseguir
internalizar esse padrão e torná-lo automático você vai economizar muito tempo
e esforço.
A melhor
maneira de internalizar esse padrão é utilizar um SRS. Crie flashcards para
memorizar todos os padrões de ortografia e pronúncia que precisar.
Recursos
principais:
- Forvo:
- Fluent Forever:
2) Concentre-se nos símbolos do IPA do
seu idioma para usar como “ponte” para o idioma que quer aprender: aqui, aqui e aqui.
3) Familiarizar-se com os símbolos IPA
e sons mais difíceis do idioma que quer aprender: Latin American Spanish (aqui, aqui e aqui), Russian (aqui, aqui e aqui).
4) Entender a pesquisa que fundamentou
os Pronunciation Trainers:
5) Entender como funcionam os Pronunciation
Trainers.
- Wikipedia: IPA for Spanish, IPA for Russian
- Livros: Pronounce it Perfectly in Spanish, Jean Yates; Pronounce it Perfectly inRussian, Thomas Beyer
III. PALAVRAS
BÁSICAS
Usamos
algumas palavras muito mais do que outras. Aprenda essas antes de mais nada. Uma
maneira de fazer isso é encontrar uma lista de frequência com aproximadamente 1000
palavras mais usadas do idioma que quer aprender e memorize-as com imagens, não
com traduções. Este será o fundamento que posteriormente você utilizará para
aprender palavras abstratas e gramática.
Há duas
maneiras para tornar suas palavras mais memoráveis:
- Pesquisando as estórias que elas contam
- Conectando essas estórias com a sua vida
Ao criar
seus flashcards use a melhor ferramenta do mundo para contar estórias: o GoogleImages. Em seguida, encontre uma conexão
entre a palavra e sua própria experiência.
Há muitos
idiomas que atribuem de maneira aleatória um gênero gramatical às suas
palavras, o que causa muita confusão aos iniciantes. Neste caso, você pode
memorizar facilmente esse gênero ao associá-lo a uma ação especialmente vívida
e imaginar cada palavra desempenhando essa ação.
Ao criar os
flashcards, adicione tanta informação pessoal quanto necessário para tornar
aquela palavra mais vívida para você. Por exemplo, acrescente um áudio da
pronúncia, e acrescente também palavras que associem a palavra que está
aprendendo à sua vida pessoal.
Recursos
principais:
- Lista de frequência de Gabriel Wyner. As 625 palavras mais usadas, em ordemalfabética e por temas. Recomenda-se que encontre as traduções em phrase books ou em livros de gramática, mas nunca de sites de tradução tipo Google Translator.
- TheMost Awesome Word Lists You Have Ever Seen. A mesma lista, mas com traduções profissionais e de forma a aumentar ainda mais a memorização.
- Forvo.com, para as pronúncias.
- Wiktionay, para as transcrições fonéticas.
- Google Images, para as figuras (México, Rússia).
- Google Images versão básica, para contextualizar as palavras e suas traduções. (México e Rússia) .
- Livros:
1. Dicionários de frequência: A Frequency Dictionary of Spanish, Mark
Davies, Russian Learner’s Dictionary, Nicholas
Brown.
2. Vocabulário Temático: Mastering Spanish Vocabulary, Jose Maria
Navarro et al., Russian Vocabulary,
Eli Hinkel
3. Livros de Frases (bons para
vocabulário simples): Lonely Planet Latin
American Spanish Phrasebook, Roberto Esposto, Lonely Planet Russian Phrasebook, James Jenkin et al.
IV. GRAMÁTICA
O
aprendizado de línguas se torna mais rápido se você se aproveitar da sua
máquina linguística, que é sua ferramenta mental que absorve os padrões que
ensinam a gramática da sua língua materna. Essa máquina funciona a partir de
dados de entrada compreensíveis, ou seja, de frases que sejam compreensíveis.
Portanto, você deve encontrar uma boa fonte de frases simples e claras com
traduções e explicações.
As
primeiras frases devem vir de um livro de gramática. Essas frases lhe farão um
duplo favor: ensinar todas as regras gramaticais conscientemente enquanto sua
máquina linguística funciona ao fundo montando um entendimento intuitivo e
automático dessa gramática, a qual lhe levará rapidamente à fluência.
Use seu
livro de gramática como fonte de frases e diálogos simples. Escolha seus
exemplos favoritos de cada regra gramatical. Então decomponha estes exemplos em
palavras, formas vocabulares e ordem de palavras. No fim desse processo, você
terá um conjunto de flashcards eficientes e fáceis de aprender.
Os idiomas
estão cheios de regras complexas e difíceis de aprender. Você conseguirá
aprender essas regras com facilidade ao embuti-las em estórias simples e
compreensíveis. Quando encontrar uma tabela de declinações confusa em seu livro
de gramática, pegue a frase-exemplo mais próxima e use-a para gerar estórias
que cubram todas as novas regras que precisar. A ideia, portanto, é que você
transforme essas estórias em flashcards ilustrados – os mesmos flashcards de
palavras/formas vocabulares/ordem de palavras que versamos acima – e você vai
usar esses flashcards para aprender as regras do idioma que está estudando.
Os idiomas
quase sempre apresentam grupos de palavras “irregulares” que seguem regras
similares. Embora você possa aprender facilmente cada uma dessas regras por
meio de estórias ilustradas, você ainda vai precisar saber quais palavras
seguem qual regra. Toda vez que você encontrar uma regra capciosa, escolha uma
pessoa, ação ou objeto para lhe ajudar a lembrar. Para regras verbais, escolha
uma pessoa ou objeto como mnemônico. Para regras ortográficas, escolha uma
pessoa ou uma ação. Os adjetivos combinam bem com objetos, advérbios combinam
bem com ações.
Use a
escrita para testar seus conhecimentos e detectar seus pontos fracos. Use as
frases-exemplo de seu livro de gramática como modelos e escreva sobre seus
interesses. Envie o que escreveu a uma comunidade online. Transforme todas as
correções que receber em flashcards. Fazendo isso você preencherá todas as
falhas gramaticais e vocabulares que porventura possuir.
Recursos
principais:
- Lang-8.com
- Italki.com
- Livros de gramática:
1. Practial Spanish Grammar, Marcial Prado
2. The New Penguin Russian Course, Nicholas Brown
V. FLUÊNCIA
A maneira
mais eficiente de aprender vocabulário é aprender as mil palavras mais usadas
do idioma que deseja aprender. Se seu desejo é atingir um alto grau de
fluência, prossiga até aprender as 1500 a 2000 palavras mais usadas. Uma vez
que este fundamento esteja solidamente consolidado, escolha as palavras mais
usadas do vocabulário específico que necessita. Faça uso dos livros com
vocabulário temático e descubra as palavras mais usadas no contexto que
desejar, seja música, negócios, viagens etc.
Faça uso do
Google Images para encontrar frases e figuras de qualidade para suas palavras.
É rápido, os exemplos são concisos, e as combinações de imagens e palavras são
fáceis de memorizar. Se você tiver problemas, ou se estiver longe do
computador, escreva suas próprias frases e definições de palavras. Mande-as
para correção e use essas correções para aprender gramática e vocabulário. Uma
vez que tenha bastante vocabulário memorizado, compre um dicionário monolíngue.
Fazendo isso você vai conseguir aprender novas palavras na própria língua que
está estudando e, de quebra, vai incrementar seu vocabulário passivo.
Ler sem a
ajuda de dicionários é a maneira mais fácil para incrementar seu vocabulário
passivo. Na média, um único livro lhe ensinará 300 a 500 palavras apenas pelo
contexto. Ao ler um único livro no idioma que está estudando fará com que a
leitura de mais livros fique cada vez mais fácil. Ler em conjunto com um
audiobook vai lhe ajudar a seguir um texto longo além de lhe expor ao ritmo do
idioma que está aprendendo. Isso vai melhorar sua pronúncia, sua capacidade de
ouvir e entender, seu vocabulário, sua gramática, enfim, vai ‘bombar” todos os
aspectos do seu idioma.
A
capacidade de ouvir e entender é uma habilidade necessariamente rápida, o que
pode tornar seu aprimoramento especialmente doloroso. Vá aos poucos, desafie-se
aos poucos, até que seja capaz de ouvir as mídias mais difíceis e rápidas
(rádio, podcasts, TV etc.). Comece com uma série de TV estrangeira interessante
ou uma série de TV americana dublada e sem legenda. Para diminuir um pouco a
dificuldade, leia os resumos dos episódios antes de assisti-los para se
preparar para o vocabulário e para as mudanças repentinas do enredo. Conforme
vá incrementando seu grau de entendimento, livre-se dos resumos e
posteriormente avance para mídias mais difíceis.
Com o
advento da internet e das conexões cada vez mais rápidas, aproveite para praticar
a fala. No entanto, siga a regra de ouro do aprendizado de línguas: jamais fale
inglês. Dessa forma você será capaz de desenvolver sua fluência com o
vocabulário e a gramática que já conhece.
Recursos
principais:
- Lista de frequência.
- Livros com audiobooks. Harry Potter, por exemplo.
- Filmes e TV.
- Verbling.com
- Livemocha.com
Fonte: Gabriel Wyner, Fluent Forever, Harmony Books, Nova York, EUA, 2014.
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