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6 de fevereiro de 2014

Luto


Ninguém me disse que o luto se parecia tanto com o medo. Não estou com medo, mas a sensação é a mesma. [...] Quando falo do medo, quero referir-me ao medo puramente animal, ao recuo do organismo diante da possível destruição, ao sentimento asfixiante, à sensação de ser um rato numa ratoeira. Esse sentimento é intrasferível. A mente pode até compreender; já o corpo menos. (p. 29 e 37).

No momento seguinte [ao golpe repentino de lembranças acaloradas], passa-se às lágrimas e à autopiedade. Lágrimas piegas. Quase prefiro os momentos de agonia. Pelo menos, eles são puros e honestos; mas o banho de autopiedade, o afundar-se nela, o prazer repugnante de entregar-se a ela – isso me enoja. Se eu der rédea solta e esse estado de espírito, em poucos minutos terei substituído a mulher real [Joy Davidman, a recém-falecida esposa de C. S. Lewis] por uma simples boneca pela qual vou chorar desesperadamente. (p. 30).

Enquanto isso, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor, você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente?

Não que eu esteja (suponho) correndo o risco de deixar de acreditar em Deus. O perigo real é o de vir a acreditar em coisas tão horríveis sobre Ele. A conclusão a que tenho horror de chegar não é “então, apesar de tudo, Deus não existe”, mas “então é assim que Deus é realmente. Não se iluda”. (p. 31-32).

É difícil ter paciência com pessoas que dizem: “A morte não existe”, ou “A morte não importa”. A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece tem consequências, e tanto a morte quanto as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto. Em todos os tempos e espaços, se me fosse dado sondá-los, não encontraria em lugar algum o rosto dela, sua voz, seu toque. Ela morreu. Está morta. Será que a palavra é tão difícil de se aprender?

Não tenho nenhuma boa fotografia dela. Não posso sequer lhe ver o rosto claramente em minha imaginação. Não resta dúvida: a explicação é por demais simples. Vimos o rosto dos que mais conhecemos de modo tão variado, de tantos ângulos, sob tantas luzes, com expressões tão diversas – acordando, dormindo, rindo, chorando, comendo, conversando, pensando –, que todas as impressões preenchem nossa memória ao mesmo tempo e se anulam num simples borrão; mas sua voz ainda é vívida. A voz lembrada – que é capaz de transformar-me a qualquer momento num menino chorão. (p.39).

Fala-me acerca da verdade da religião e ouvirei de bom grado. Fale-me acerca do dever da religião e ouvirei resignadamente; mas não me venha falar sobre as formas de consolo que a religião fornece, caso contrário desconfiarei que você não sabe do que está falando.

A não ser, claro, que você seja daqueles que acreditam literalmente em tudo que se diz nas reuniões típicas de família a respeito “do outro lado do rio”, retratando uma perspectiva completamente irreal e terrena; mas nada disso é bíblico e não passa de hinos e litografias ruins. Não há na Bíblia uma palavra sequer sobre o mundo vindouro. Além disso, soa falso. Sabemos que não poderia ser assim. A realidade nunca se repete. Não existe nada que seja tirado de nós e, depois, é-nos devolvido do mesmo jeito que se apresentava. Como os espíritas sabem fisgar as pessoas! “As coisas deste lado não são tão diferentes, afinal de contas”. Há charutos no Céu. Pois é isso que todos nós apreciaremos. Um passado feliz reconquistado.

E é por isso, só por isso, que grito, enlouquecido, no meio da madrugada, lançando súplicas vazias no ar.

E o pobre C. [um conhecido de Lewis] faz-me a seguinte citação: “(...) não se entristeçam como os outros que não têm esperança.” (I Ts 4:13). Espanta-me o modo pelo qual somos convidados a pôr em prática palavras endereçadas de maneira tão óbvia aos que são superiores a nós. O que o Apóstolo Paulo diz só pode consolar os que amam a Deus mais do que aos mortos, e aos mortos mais do que a si mesmos. Se uma mãe se lamenta não por aquilo que ela perdeu, mas por aquilo que seu filho morto perdeu, é um consolo acreditar que o filho não perdeu o objetivo para o qual foi criado. E é um consolo acreditar que ela mesma, ao perder sua principal ou única felicidade natural, não perdeu algo maior – que ela ainda pode esperar “glorificar a Deus e usufruí-lo para sempre”. Um consolo para o espírito voltado para Deus, espírito eterno que há dentro dela. Mas não para sua condição de mãe. A felicidade propriamente materna deve ser anulada. Nunca, em nenhum lugar, em tempo algum, ela terá o filho em seu colo, nem lhe dará um banho, nem lhe contará uma história, nem fará planos para o seu futuro, tampouco verá o filho de seu filho.

Dizem-me que H. [Joy Davidman] agora é feliz, que está em paz. O que faz essas pessoas terem tanta certeza disso? Como essas pessoas têm tanta certeza de que toda a angústia termina com a morte? Mais da metade do mundo cristão e milhões no Oriente têm uma crença diferente. Como podem saber que ela está agora “descansando”? Por que deveria a separação (se nada mais o puder), que tanto angustia a pessoa que ama e ficou para trás, ser indolor para a pessoa a quem amou e agora parte?

“Porque ela está nas mãos de Deus”; mas, se assim for, ela estava nas mãos de Deus durante todo o tempo, e vi o que lhe fizeram aqui. Será que de repente as pessoas se tornam mais gentis conosco no momento em que deixamos o corpo? E, se for dessa maneira, por quê? Se a bondade de Deus não é coerente com o ato de nos ferir, então, ou Deus não é bom, ou não há Deus algum: pois, na única vida que O conhecemos, Ele nos fere de um modo tal, além de nossos piores pavores, acima de tudo o que podemos imaginar. Se essa bondade for condizente com o ato de nos ferir, então Ele pode muito bem fazer isso depois da morte de maneira tão intolerável quanto antes dela. (p. 47-50).

Sentimentos, e sentimentos e sentimentos. Em vez disso, vamos tentar pensar. Do ponto de vista racional, que novo fato a morte de H. trouxe ao problema do universo? Que bases me concedeu para duvidar de tudo aquilo que acredito? Eu já sabia que essas coisas, e coisas piores, aconteciam diariamente. Eu teria dito que as havia levado em consideração. Eu fora alertado – eu alertara a mim mesmo – quanto a não contar com a felicidade terrena. Tínhamos, até mesmo, a promessa de sofrimentos. Eles faziam parte do programa. Até mesmo nos disseram: “Bem-aventurados os que choram...”,  e eu aceitava isso. Não há nada que eu não tivesse considerado. É claro que é diferente quando as coisas acontecem conosco, não com os outros, e na realidade, não na imaginação. Sim, mas deveria, para um homem são, fazer tanta diferença assim? Não, e não faria para um homem cuja fé houvesse sido a fé verdadeira, e cuja preocupação com as tristezas dos outros fosse preocupação real. O caso é muito comum. Se meu castelo ruiu com uma tacada, é porque era um castelo de cartas. A fé que “levou essas coisas em consideração” não era fé, mas imaginação. Levá-las em conta não era compaixão verdadeira. Se houvesse realmente me preocupado, como achei que havia, com as tristezas do mundo, não deveria estar tão assoberbado quando minha própria tristeza chegou. Foi uma fé imaginária, que jogava com fichas inofensivas, rotuladas de “Doença”, “Dor”, “Morte” e “Solidão”. Achei que havia confiado na corda até que se tornou importante saber se ela suportaria o meu peso. Agora que isso importa percebo que não confiava nela.

Jogadores de bridge explicam-me que deve haver um pouco de dinheiro no jogo “ou, então, as pessoas não vão levá-lo a sério”. Aparentemente é assim. Sua aposta – Deus ou nenhum Deus, um bom Deus ou o Sádico Cósmico, a vida eterna ou a não-entidade – não vai ser levada a sério se nela nada de valor estiver em jogo. E você nunca perceberá como ela era séria enquanto as apostas não estiverem muitíssimo altas, enquanto você não descobrir que está jogando não pelas fichas, nem pelos seis centavos, mas por todo centavo que há no mundo. Nada menos que isso abalará um homem – ou, pelo menos, um homem como eu – e seu pensamento puramente verbal e suas crenças meramente conceituais. O homem deve ficar fora do ar antes que recobre os sentidos. Só a tortura trará a verdade à luz. Só sob tortura é que o homem a descobrirá. (p. 58-59).

Quanto mais acreditamos que Deus fere apenas para curar, menos nos é dado crer que haja alguma utilidade em suplicar por ternura. Um homem cruel pode ser subornado – pode cansar-se de seu esporte imoral – pode ter um acesso temporário de bondade, como os alcoólatras têm acessos de sobriedade; mas suponha que aquilo com que você se bate seja um cirurgião cujas intenções são inteiramente boas. Quanto mais gentil e consciente ele for, mais impiedosamente prosseguirá cortando. Se ele desistir diante de suas súplicas, se ele se detiver antes que a operação chegue ao fim, toda a dor até àquele ponto terá sido inútil; porém é crível que semelhantes extremos de tortura sejam necessários? Bem, faça sua escolha. As torturas ocorrem. Se elas são desnecessárias, então não há Deus nenhum, tampouco um Deus mau. Se há um Deus bom, então essas torturas são necessárias. Pois nenhum Ser que fosse bom, mesmo de maneira comedida, provavelmente seria capaz de infligi-las ou de permiti-las caso elas não fossem necessárias.

Seja o que for, não há como escapar.

O que as pessoas querem dizer quando afirmam: “Não tenho medo de Deus porque sei que Ele é bom”? Será que nunca foram ao dentista? (p. 63-64).

Pode um mortal fazer perguntas que Deus não considera passíveis de resposta? Absolutamente, sim. Todas as perguntas sem sentido não são passíveis de resposta. Quantas horas há num quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? Provavelmente, metade das perguntas que fazemos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – pertencem a essa categoria. (p.85).

Fonte: A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação (A Grief Observed) – C. S. Lewis – Editora Vida – 2006 – São Paulo.

28 de janeiro de 2014

O adeus ao mundo


Esta é a famosa carta de Eugene (Pe. Seraphim) Rose a seus pais na qual comunica que abandonará a vida acadêmica para abraçar as coisas do Alto. É o testemunho contemporâneo de um ato exercido milhares e milhares de vezes no passado: homens que, respondendo ao chamado do Cristo, deixam para trás a glória e os prazeres ilusórios do mundo para abraçar a vida sublime e grandiosa do esforço ascético rumo à união com Deus.

A carta é de 14 de junho de 1961.

* * *

Liebe Eltern,

Faz calor hoje – parece até verão aqui em San Francisco. Finalmente consegui terminar minha dissertação de mestrado. Entreguei-a na sexta-feira passada, mas a nota só vai ser divulgada em setembro, não sei exatamente por quê. Enquanto isso, continuo me envolvendo com coisas chinesas. Nesse momento, estou ajudando meu ex-professor de chinês a traduzir (do chinês) um artigo sobre filosofia chinesa para publicação em um jornal de filosofia.  A hipocrisia do mundo acadêmico é algo que se vê com muita clareza no caso dele. Ele provavelmente sabe mais de filosofia chinesa do que qualquer pessoa do país, estudou com filósofos e sábios chineses de verdade, na China, mas não consegue arrumar emprego em nenhuma faculdade porque ele não tem diplomas de faculdades americanas, e também porque ele não fala com muita fluência – ou seja, ele é autêntico demais.

Foi-se o tempo em que eu escolhia a vida acadêmica acima de tudo, pois Deus havia me dado inteligência para servi-Lo, e o mundo acadêmico seria em princípio o lugar onde a inteligência deveria ser utilizada. Mas, depois de oito ou nove anos, sei muito bem o que se passa nas universidades. A inteligência é respeitada somente por alguns poucos professores “das antigas”, os quais muito em breve estarão fora de combate. Quanto aos demais, a vida acadêmica é um trampolim para juntar dinheiro, conseguir um emprego estável e para usar a inteligência como se fosse um brinquedinho útil para fazer alguns truques e serem pagos por isso. Em suma, são palhaços de circo. O amor à verdade simplesmente desapareceu deles; as pessoas que têm alguma inteligência são obrigadas a se prostituírem para viver a vida. Quanto a mim, acho isso tudo difícil de aceitar, pois meu amor à verdade é muito grande. O mundo acadêmico não passa de um emprego para mim, mas não vou me deixar escravizar a ele. Não estou servindo a Deus no mundo acadêmico. Tenho um pouco de dinheiro guardado e mais algum está a caminho quando eu terminar um pequeno serviço, então eu acho que vou conseguir viver frugalmente por um ano fazendo o que minha consciência está me mandando fazer: escrever um livro sobre as condições espirituais do homem contemporâneo, sobre as quais, pela graça de Deus, tenho algum conhecimento. O livro provavelmente não vai vender nada, pois as pessoas preferem se esquecer das coisas sobre as quais versarei; elas preferem ganhar dinheiro do que adorar a Deus.

Sim, é verdade que esta é uma geração confusa. A única coisa de errado comigo é que não estou confuso. Sei muito bem qual o dever do homem: adorar a Deus e Seu Filho e preparar-se para a vida do século futuro sem explorar o próximo só para ter uma vida feliz e confortável e esquecer-se de Deus e Seu Reino.

Se Cristo estivesse por aqui, no mundo contemporâneo, sabem o que aconteceria com Ele? Seria internado num hospital psiquiátrico e lhe submeteriam a sessões de psicoterapia. Os santos não ficariam por menos. O mundo crucificaria o Cristo exatamente como há 2000 anos, pois esse mundo nada aprendeu, exceto formas mais sofisticadas de hipocrisia. E se eu dissesse a meus alunos que todo o conhecimento deste mundo não tem nenhuma importância, que o importante mesmo é adorar a Deus, aceitar o Deus-homem que morreu por nossos pecados e preparar-se para a vida do século futuro? Eles provavelmente ririam de mim, e os diretores da universidade, se descobrissem, me demitiriam – pois é contra a lei pregar a Verdade nas universidades. Dizem que vivemos numa sociedade cristã, mas é mentira: a sociedade atual é mais pagã, mais anticristã, do que a sociedade na qual Cristo nasceu. Recentemente, um padre católico da UCLA teve a audácia de dizer que o ambiente da UCLA era pagão. Os diretores da universidade o chamaram de “fanático” e “insano”. Mas o que ele disse era verdade; mas os homens odeiam a verdade, e é por isso que eles crucificariam Cristo de novo se Ele retornasse.

Sou cristão, e tentarei viver como um autêntico cristão. Cristo ensinou-nos a dar todo o dinheiro que tivéssemos e segui-Lo. Estou longe, muito longe, de fazer isso. Mas vou tentar não angariar mais dinheiro do que preciso para viver; se conseguir fazer isso trabalhando um ou dois anos na universidade, tudo bem. Mas no restante do meu tempo vou tentar servir a Deus com os talentos que Ele me deu. Neste ano terei a chance de fazer isso, então é isso que vou fazer. Meu professor, que é russo (a amor a Deus parece estar mais bem enraizado nos russos do que em outros povos), não tentou me convencer a abandonar minhas ideias; ele sabe muito bem que o amor à verdade, o amor a Deus, é infinitamente mais importante do que o amor à estabilidade, ao dinheiro e à fama.

Sou obrigado a seguir minha consciência. Não posso enganar a mim mesmo. E sei que estou fazendo a coisa certa. Se o que vou fazer parece tolice aos olhos do mundo, resta-me responder ao mundo com as palavras de São Paulo: Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Eis algo que esquecemos muito facilmente.

Bem, deixem-me voltar à minha tradução de chinês. Mandem lembranças a Eileen [irmã de Eugene].

Liebe,

Eugene

Foto: Eugene Rose em foto oficial de graduação na Pomona College, 1956.

Fonte: Cathy Scott, Seraphim Rose: The True Story and Private Letters, Regina Orthodox Press, 2000.

10 de janeiro de 2014

Partidas são sempre iguais; é a chegada ao destino que coroa o viajante


Há uma opinião que tem ganhado cada vez mais fama e que é extremamente plausível. Diz-se que místicos das mais diversas origens religiosas deparam-se com as mesmas coisas. Tais coisas têm pouco ou nada a ver com as doutrinas professadas por suas respectivas religiões – Cristianismo, Hinduísmo, Budismo, Neoplatonismo etc. Portanto, segue o argumento, o misticismo, por evidência empírica, é o único contato real que o homem já teve com o invisível. O fato dos exploradores concordarem em seus relatos é prova de que todos estiveram em contato com algo objetivo. É portanto a religião única e verdadeira. O que chamamos de “religião” nada mais é do que ilusões ou, na melhor das hipóteses, os diversos pórticos através das quais se pode adentrar à realidade transcendente.

Bem, tenho sérias dúvidas quanto a essas premissas. Teriam Plotino, Juliana de Norwich e São João da Cruz realmente deparado-se com “as mesmas coisas”? Mesmo que admitamos alguma similaridade. O que é comum a todos os misticismos é a interrupção temporária da consciência ordinária espaço-temporal e da razão discursiva. O valor da experiência negativa deve depender da natureza da positiva, seja ela qual for, a qual engendrou. Ora, mas a experiência negativa não deveria mesmo ser sentida sempre da mesma forma? Se os copos de vinho tivessem consciência suponho que estar vazio seria a mesma experiência a todos, mesmo que alguns já estivessem vazios, alguns cheios de veneno e outros quebrados no chão. Todo mundo que parte em uma viagem pelo mar vai “deparar-se com as mesmas coisas” – a terra sumindo no horizonte, o rastro de água atrás da embarcação, a brisa com aroma salgado. Turistas, comerciantes, pescadores, piratas, missionários – todos passam por isso. Mas essa experiência idêntica não confere absolutamente nada à utilidade, à legitimidade ou à finalidade de suas jornadas. A utilidade, a legitimidade e a finalidade da jornada mística em nada dependem do fato de ser mística – ou seja, do fato de ser uma partida --, mas dos motivos, técnicas e experiências do viajante, e da graça de Deus. Partidas são sempre iguais; é a chegada ao destino que coroa o viajante. O santo, por ser santo, prova que seu misticismo (se ele for místico; nem todos os santos o são) o levou ao destino certo; o fato de ter praticado o misticismo em nada prova sua santidade.

* * *

A nossa dificuldade em rezar é em boa parte explicada pelos pecados, conforme qualquer bom professor dirá; pela inevitável imersão nas coisas do mundo, pelo desprezo à disciplina mental. E pelo pior tipo de “temor a Deus”. Intimidamo-nos ante a perspectiva de um contato íntimo, pois tememos as exigências que nos serão impostas. Como dizia um velho escritor, tem muito cristão por aí que reza baixinho “para que Deus não o ouça, coisa que, coitado, não era mesmo sua intenção”. Mas os pecados – os pecados individuais e reais– talvez não sejam a única causa do fracasso na oração.

Pela própria constituição que a mente humana hoje possui – não importa como era quando Deus a concebeu – é difícil concentrar-se em algo que não é nem sensível (como batatas) nem abstrato (como números). Aquilo que é concreto mas imaterial só pode ser mentalmente concebido com muita dificuldade. (p. 114).


Fonte: C. S. Lewis, Letters to Malcolm, Harcourt, Inc., 1963, Orlando, EUA.

30 de maio de 2013

Oração antes da leitura espiritual


São João Crisóstomo

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo: Ó Senhor Jesus Cristo, abre meu coração para que possa ouvir e entender Tua palavra e fazer Tua vontade, pois sou um residente temporário nesta terra. Não oculte Teus mandamentos de mim, mas abre meus olhos para que possa compreender as maravilhas de Tua lei. Dizei-me as coisas ocultas e secretas de Tua sabedoria. Em Ti deposito minha esperança, ó Deus meu, de que Tu iluminarás minha mente e meu entendimento com a luz de Tua sabedoria, não apenas para cultivar as coisas que estão escritas, mas para cumpri-las, para que não peque ao ler as vidas, obras e provérbios dos santos, mas para que sirvam à  minha restauração, iluminação e santificação, para a salvação da minha alma e herança da vida eterna. Pois Tu és a luz daqueles que residem nas trevas, e de Ti vem toda boa obra e dádiva. Amém.

15 de janeiro de 2013

Carta a um convertido



Prezado “João”,

Pelo que eu entendi, você está prestes a se tornar ortodoxo. Não sei nada sobre você a não ser o fato de que é inglês.

Antes de mais nada, há um ponto que eu gostaria de deixar claro. Não me disseram por que você quer se converter, mas eu lhe garanto que não faz o menor sentido se sua conversão for motivada por razões negativas. Você vai encontrar tantas coisas “erradas” (se não mais) na Ortodoxia quanto na Igreja Anglicana ou na Igreja Romana.

Portanto, o ponto principal aqui é: você está preparado para encarar mentiras, hipocrisias, maledicências etc. na Ortodoxia tanto quanto nas demais religiões ou denominações? Você está achando que vai encontrar uma espécie de paraíso na Terra, cheio de incensos e do tipo certo de música? Você acha que vai direto para o céu só porque faz o sinal da Cruz lentamente, com o devido cuidado e correção? Você tem um livro de culinária com todas as receitas dos autênticos pratos russos de Páscoa? Você já é um especialista em beijar três vezes em todas as ocasiões possíveis ou impróprias? Você consegue se prostrar com elegância, sem deixar cair papéis dos bolsos?

OU.....

Você leu os Evangelhos? Você já encarou o Cristo crucificado? Você esteve em espírito na Última Ceia – o sentido da Santa Comunhão?

E.....

Você está preparado, com toda a humildade, para entender que você nunca, jamais, nesta vida, saberá nada para além da Fé; que a Fé significa aceitar a Verdade sem prova. Fé e conhecimento são o píncaro da contradição – e a absorção última uma na outra. A Ortodoxia viva baseia-se no paradoxo, o qual é transmitido na adoração – pública e privada. Conhecemos porque cremos, cremos porque conhecemos.

Acima de tudo isso, você está preparado para aceitar que todas as coisas vêm de Deus?

Se o que importa é “ser feliz”, então por que a Crucificação? Você está preparado, não importa o que aconteça, a acreditar que de alguma forma, em algum lugar, isso faça sentido? Isso não significa aguentar as coisas passivamente, mas a eterna vigilância; acima de tudo, Amor.

Pobres, velhos, doentes, até nosso último suspiro, conseguimos amar. Não essa bobagem sentimental que chamam de amor, mas o amor sacrificial – a crucificação interior da ganância, da inveja, do orgulho.

E nunca confunda amor com sentimentalismo.

E nunca confunda adoração com afetação.

Seja humilde – ame, mesmo que seja difícil. Não essa coisa sentimental que chamam de amor. E não faça da adoração na igreja um jogo de cena!

Espero que alguma coisa do que disse faça sentido.

Atenciosamente,

Madre Tecla


Foto: Madre Tecla com seu filho espiritual, o compositor britânico Sir John Tavener.

9 de outubro de 2012

A vida do ego



Pe. Damascene Christensen

Antes de versarmos sobre a vida espiritual do homem, é necessário que compreendamos o que é, afinal, o espírito humano. Não é necessária nenhuma revelação divina para entendermos isso. É perfeitamente possível, pelo menos em parte, que saibamos o que é o espírito humano mediante a simples observação atenta e silenciosa de nosso próprio ser interior. Portanto, ninguém deve se surpreender ao perceber que a antiga doutrina cristã sobre o espírito humano encontra paralelos idênticos com a doutrina dos seguidores chineses de Lao Tsé.

O espírito humano não é um pedaço do Espírito do Criador, mas uma imagem dEle: é a parte mais pessoal do homem, o princípio de sua consciência e liberdade. Poderíamos dizer que o espírito é o trono ou centro da pessoa humana, o qual contém em si a totalidade da natureza humana.

O espírito é aquilo que constitui a “imagem de Deus” em nós. Se Deus é Luz, então o espírito humano também é luz. Por ter sido soprado pelo próprio Deus em nós, o espírito busca a Deus, conhece a Deus, e somente nEle encontra seu devido repouso. [1]

Dado que a criação veio a existir através do Verbo – o Tao/Logos –, ela agora é guiada e sustentada por Ele, ou seja, é como que informada pelo Verbo. O espírito é precisamente a faculdade capaz de “ouvir” a voz silenciosa do Verbo falando em nós.

Tanto o Cristo quanto Lao Tsé chamavam o espírito humano de “luz”. [2] Com o tempo, os seguidores da doutrina de Lao Tsé passaram a chamá-lo de “espírito original” (yüan-shen) e os antigos ascetas cristãos passaram a chamá-lo de nous, uma palavra grega que poderia ser traduzida como “espírito” ou “mente superior”. [*]

Na vida do homem caído e irregenerado, o espírito encontra-se como que escondido atrás da consciência inferior dos pensamentos, fantasias e emoções. Na terminologia cristã tradicional essa consciência inferior é conhecida como o aspecto inferior da “alma”. Os seguidores chineses de Lao Tsé a chamam de “espírito consciente” ou “espírito do conhecimento” (shih-shen). [3]

Potencialmente falando, o espírito (nous ou yüan-shen) é uma consciência pura, informe, desprovida de imagens, incondicionada e incomposta, cujo objetivo e desígnio é aproximar-se o mais que possível de Deus, unindo-se a seu Criador. Desde que purificado, o espírito é capaz de conhecer a Deus e as essências interiores das coisas criadas mediante a percepção intuitiva direta. Entre as criaturas visíveis, somente o homem possui um espírito.

A alma inferior (shih-shen), por outro lado, é moldada e condicionada por aspectos culturais e pessoais. Ela reage ao ambiente em que está inserida, a exemplo dos animais, ocupando-se das necessidades temporais e terrenas do homem. Desde o tempo em que o homem afastou-se do Caminho, a alma inferior tornou-se uma massa de emoções, memórias e pensamentos compostos, buscando conhecer as coisas mediante a imaginação e a dedução abstrata. Na sua porção mais inferior, a alma inferior assemelha-se à alma de um animal, já que os animais também possuem emoções, memória e imaginação. [4]

Em última instância, a distinção entre espírito e alma inferior é mera analogia. Em outras palavras, isso significa que não existem dois seres em nós, ou seja, o espírito e a alma inferior são como que dois aspectos diferentes de nosso ser interior. O espírito é o lado oculto de nosso ser interior, a parte mais pura da alma. [5] Os antigos mestres cristãos chamavam o espírito de “olho da alma”, pois ele é o “órgão” que percebe a Divindade.

O grande autor místico Máximo, o Confessor, (+ 662 d.C.) ensinou o seguinte a respeito da alma: “A alma possui três faculdades: primeiro, a faculdade da nutrição e crescimento; segundo, a da imaginação e instinto; terceiro, da inteligência superior (logikos) e do espírito (nous). As plantas apresentam apenas a primeira dessas faculdades; os animais a primeira e a segunda; os homens possuem as três. As primeiras duas faculdades são perecíveis; a terceira é evidentemente imperecível e imortal”. [6]

Portanto, o homem é composto de corpo e alma, sendo o espírito a parte mais superior da alma, o que nos permite chamá-lo de “alma superior”. Lao Tsé fez precisamente isso no capítulo 10 do Tao Te Ching, referindo-se à “alma superior” e à “alma inferior” ou “animal”. [**]

Na vida interior do homem, o espírito foi designado para ser o mestre, enquanto a alma inferior deveria ser a serva e o corpo o servo de ambos. “O verdadeiro governante”, ensinou São Máximo, “é aquele que governa a si próprio, sujeitando a alma e o corpo ao espírito”. [7]

São Teófano, o Recluso, (+ 1894), que foi um dos maiores professores modernos da antiga sabedoria, ensinou também: “Segundo seu desígnio natural, o homem deve viver no espírito, subordinar tudo ao espírito, viver penetrado pelo espírito em tudo aquilo que é da alma e mais ainda em tudo aquilo que é físico – além disso, também nas coisas exteriores, ou seja, na vida familiar e social. Esta é a norma!” [8]

Quando esta hierarquia for devidamente respeitada, não mais depositaremos nossa confiança em pensamentos, fantasias e raciocínios. Mesmo em nossos afazeres cotidianos, condicionados que são pela cultura e pelo entorno, a alma continuamente retornará ao conhecimento intuitivo direto do espírito. Conforme ensina Lao Tsé: “Use sua luz para retornar à luz da intuição”. [9] A alma conhece a Verdade através da sua conexão inquebrantável com o espírito e a respectiva subordinação a ele, enquanto o espírito conhece a Verdade através de sua conexão e subordinação a seu Criador, o Tao/Logos.

São Teófano ensina ainda: “Quando o espírito reina supremo no homem, embora seja seu caráter e postura exclusivos, ele não erra. Isso acontece porque, em primeiro lugar, a espiritualidade é a norma na vida humana, e por isso, sendo espiritual, o homem é uma pessoa real, enquanto o homem intelectual ou carnal não é uma pessoa real. Em segundo lugar, a despeito do grau de sua espiritualidade, o homem obrigatoriamente tem de colocar o intelectual e o carnal no seu devido lugar; ele guarda apenas um pouco deles, ambos subordinados ao espírito. Que a intelectualidade, portanto, não lhe seja tão ampla (em conhecimento cientifico, artístico e demais assuntos) e que a carnalidade lhe seja rigidamente restrita – então ele será uma pessoa real, íntegra. Mas o homem intelectual (o especialista, o connoisseur, o inteligente) – e pior ainda o homem carnal – não é uma pessoa real, a despeito de seu aspecto exterior e de sua reputação”. [10]

Quando a humanidade afastou-se do Caminho, essa hierarquia natural inverteu-se. O corpo e o aspecto inferior da alma passaram a ser os mestres, assumindo, por assim dizer, o controle do ser humano, o qual agora se encontra tomado por pensamentos, imaginações, emoções e ocupações corporais.

A alma do homem caído encontra-se agora sob a ilusão de sua auto-suficiência. Isso significa que ela não se contenta apenas com as necessidades temporais do homem (comida, roupa, abrigo), mas busca também meios para sua própria ascendência e para o prazer sensual. Essa alma tornou-se (ou melhor, apegou-se a) aquilo que hoje chamamos de “ego”. Se o espírito é nosso verdadeiro eu – o trono verdadeiro de nossa pessoalidade – o ego é nosso falso eu, uma entidade ilusoriamente auto-suficiente. Já que ele acha que consegue alcançar seus objetivos e superar os obstáculos mediante seus próprios poderes, podemos chamar o ego de nosso falso “solucionador-de-problemas”.

Apossando-se do homem por meio da ilusão de sua autonomia, o ego faz o que pode para ocultar a existência do espírito. Dessa forma, o espírito não consegue cumprir o desígnio de elevar-se a Deus, obscurecendo sua luz. Não que sua luz tenha se apagado; ela ainda é luz, mas por estar apartada do Criador, essa luz encontra-se como que em trevas. É por isso que o Cristo disse: Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. [11]

Por ter sido escravizado pelo ego no mundo dos sentidos, o espírito caiu doente. A única cura para essa doença é devolver ao espírito o domínio que lhe é devido, resgatando a alma da forma de ego em que se encontra. Quando então a alma inferior for refinada, segundo São Teófano, “a alma crescerá dentro do espírito e nele se permeará”. [12] [***] Lao Tsé descreve esse fenômeno da seguinte forma:

Quando a alma superior e a alma inferior forem unidas em
um mesmo enlace, é possível evitar que se separem. [13]

Quando a alma assume sua posição de serva, alinhando-se com o espírito, então o espírito volta a si e cumpre naturalmente seu verdadeiro propósito, ascendendo ao Criador. São Basílio, o Grande, (+379) descreve esse processo espiritual da seguinte forma: “Quando o espírito [nous] não estiver dedicado a afazeres exteriores nem disperso mundo afora pelos sentidos, ele volta-se para si mesmo e ascende espontaneamente em contemplações a Deus”. [14]

Lao Tsé, ao concentrar seu espírito e não permitir que se dispersasse no mundo sensorial, foi capaz de participar dessa experiência. Diz ele:

As cinco cores cegam os olhos dos homens;
Os cinco tons ensurdecem os ouvidos dos homens;
Os cinco sabores embotam o paladar dos homens;
O galope e a caça desconcertam a mente dos homens.
Artigos raros desviam do curso.
Por causa disso o sábio não considera o olho, mas as coisas interiores. [15]

Por este relato, o espírito de Lao Tsé foi capaz de ascender em contemplação às qualidades do Tao, alinhando-se com o Caminho do Céu.

Agora que o Tao se fez carne, abriu-se a possibilidade de uma conexão muito mais intensa entre o espírito humano – o trono de sua verdadeira pessoalidade – e a Pessoa do Tao. Trata-se de uma conexão que se desenvolve para uma união, ou seja, para uma verdadeira deificação do espírito humano através de uma ação específica do Te Incriado. [O autor entende que o “Te” de Lao Tsé é o mesmo que a “Graça” da espiritualidade cristã – N. do T.] Antes de descrevermos essa condição exaltada do espírito humano, é necessário que versemos em maiores detalhes sobre nossa condição atual e irregenerada, de modo que saibamos o que afinal temos de transcender e superar.

No momento em que desobedeceu ao Caminho pela primeira vez, surgiu no homem um senso de que ele se tornou errado. Esse senso do errado (“o conhecimento do bem e do mal”) marcou o nascimento do ego e, por conseguinte, da autoconsciência. O homem perdeu assim a roupa da Luz Incriada com a qual havia se vestido, tornando-se cônscio de que estava nu (Gênesis 3:10).

Uma vez que o ego humano nasceu a partir da tentativa de tornar-se deus para si próprio (Gênesis 3:5), é da própria natureza do ego tentar tornar-se autônomo. É por isso que o ego reluta em admitir que esteja errado; admitir isso seria admitir que ele não é um deus e que há um padrão acima de si próprio. O medo dessa admissão foi constatado pela primeira vez na tentativa do ego de esconder-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim (Gênesis 3:8).

Mas não é apenas a si próprio que o ego tenta ocultar de Deus; conforme vimos, ele também tenta ocultar o espírito, pois o espírito também transmite ao ego o senso de errado. Dado que é o espírito, e não o ego, que deveria ser o mestre da pessoa, sua própria presença denuncia o ego como falso usurpador, destruindo o próprio fundamento na qual o ego apóia sua existência.

Como é possível que o ego afogue-se em sua própria gratificação ao mesmo tempo em que oculta a realidade onipresente de Deus e do espírito? Ora, de que outra maneira senão pela constante distração em prazeres sensuais, pensamentos, memórias e fantasias? Por conseguinte, a queda do homem na desobediência foi sob certo ponto de vista uma queda na distração, e foi assim que sua consciência chegou a tornar-se composta e fragmentada da maneira como é hoje.

Ao distrair-se para não encarar o senso de errado, o homem busca precisamente aquilo que originalmente o deixou nesse estado: o amor próprio e o prazer sensual. Gratificando-se, o homem volta a se sentir “certo” – apenas temporariamente, claro. Na verdade, ele apenas intensificou seu atual estado, de maneira que precisará de distrações cada vez maiores em doses cada vez maiores para sentir-se “certo” de novo. Passo a passo, o homem avança no caminho de sua autodestruição, tentando superar a queda apelando à própria causa dela.

O ego busca qualquer garantia de que está tudo bem, de que não cometeu erro algum, de que ele é Deus realmente. Nosso eu consciente pode até não admitir que isso esteja acontecendo, mas o objetivo da vida do ego não passa disso: encontrar qualquer coisa que o faça esquecer do verdadeiro eu e esquecer de sua condição hedionda, fazendo-o sentir-se, nem que seja por um instante, como Deus, sentir que ele está no controle, por cima de tudo e de todos, auto-suficiente. Este é o princípio que está por trás do constante desejo de escapar aos prazeres sensuais – comida, sexo, drogas, álcool, cigarro, entretenimento etc – e do desejo de inflar-se mediante o ódio, o julgamento e a condenação alheia.

Para cumprir seu objetivo, o ego (ou o “solucionador-de-problemas”) atua por meio de dois poderes: (1) o poder calculador do cérebro humano, equipado com as faculdades da análise, da criatividade, do planejamento e da fantasia, e (2) o poder do ressentimento. Com a calculadora, o ego tenta conseguir algo, dando a si mesmo a impressão de que está por cima de tudo. Com o ressentimento, o ego tenta automaticamente – por hábito, sem pensar – estar por cima de algo ressentindo ou julgando (condenando) esse algo. Quando o processo do ressentimento é disparado, nenhuma emoção ou mesmo pensamento entra em jogo. O ressentimento é uma espécie de mecanismo do qual o ego lança mão para imediatamente exaltar-se acima de algo ou alguém, sobretudo alguém que o faz se lembrar de que não é um deus, para só depois os pensamentos e as emoções se juntarem a esse ressentimento.

Quando somos verdadeiramente humildes e submissos a Deus, é possível discernir o certo do errado sem julgar ou condenar. Mas quando brincamos de ser Deus, não conseguimos exercer essa distinção; só conseguimos julgar. Mesmo que o julgamento esteja tecnicamente correto, ainda assim ele é essencialmente errado, pois foi elaborado para que nos sintamos mais certos do que a pessoa que julgamos. Trata-se de julgamento ao nível do ego, apartando-nos de Deus, e não de discernimento ao nível do espírito, que vem de Deus. Não julgueis segundo a aparência, ensinou o Cristo, mas julgai segundo a reta justiça. [16] Infelizmente, o sujeito orgulhoso será incapaz de diferenciar entre os dois, mas julgará segundo as aparências pensando estar discernindo. O único fator que os distingue é a humildade.

Quando uma injustiça recai sobre a pessoa humilde, ela não reagirá internamente; ela discernirá a injustiça sem ressentir-se dela. Quando a mesma injustiça recair sobre a pessoa que tem um ego, ela imediatamente reagirá com ressentimento. Em ambos os casos, isso acontece sem nenhum pensamento. Quando o ressentimento transforma-se em pensamento, temos o que chamamos de julgamento.

Se a vontade da pessoa estiver subconscientemente inclinada a desejar estar por cima de tudo e se fazer de Deus, sua consciência atrairá para si todo tipo de pensamento através dos quais ela poderá cultivar, saborear e talvez até cumprir seu desejo: pensamentos de aceitação e admiração, pensamentos julgamentais, pensamentos sensuais e materiais etc. Se a pessoa continuar brincando com esses pensamentos, as emoções surgirão e se agregarão a eles. “Emoção” significa literalmente e-moção, ou seja, “mover-se de, afastar-se”; é por meio das emoções que a pessoa se afasta de seu verdadeiro eu, de seu espírito.

Ocorre que, apegando-se a esses pensamentos, as emoções despertam ainda mais pensamentos. A pessoa acaba afogando-se em um caldeirão de pensamentos e sentimentos, vivendo assim em uma espécie de realidade virtual, sem saber que pode sair dela se quiser. As deliberações dessa pessoa tornam-se compulsivas, deixando-se inflamar pelo trinômio pensamento-desejo-emoção, o qual chamamos de “paixão”. Eis a vida do ego. O espírito humano passa a ser guiado exclusivamente pelas paixões, afastando-se cada vez mais de seu Criador.

[*] A palavra nous [alguns dicionários em português trazem a palavra assim mesmo, “noûs” – N. do T.] normalmente é traduzida como “intelecto”, a exemplo do que foi feita na edição em língua inglesa da Filocalia. Essa tradução, no entanto, pode ser muito enganosa, pois modernamente usamos “intelecto” com a conotação de razão abstrata ou dedutiva, da qual o noûs deve ser cuidadosamente distinguido. Optamos por traduzir noûs como “espírito”, pois entendemos que essa palavra porta melhor o sentido original da palavra.

[**] P´o (“alma inferior”, “alma animal”, “alma do corpo”) e ying, o qual, segundo Gi-ming Shien, é o mesmo que hun (“alma superior”, “alma do sopro”, “alma do espírito”). Na antiga concepção chinesa, o hun passa para o outro mundo quando o corpo morre. De maneira similar, a antiga tradição cristã ensina que somente o noûs passa para a vida futura no momento da morte, enquanto os poderes inferiores da alma deixam de existir. (Cf. Fr. Dumitru Staniloae, Orthodox Spirituality, p. 86-87, 96-97).

[***] Sobre a união da alma com o espírito, cf. Santo Isaías, o Solitário, On Guarding the Intellect, The Philokalia, vol. 1, p. 26.

[1] Lossky, Mystical Theology, p. 201; St. Theophan the Recluse, The Spiritual Life, p. 61-62.

[2] Lucas 11:35; Tao Te Ching, cap. 52.

[3] Lü Tung-pin [Lü Yen], The Secret of the Golden Flower, Thomas Cleary, trans., p. 13-15, 138-139.

[4] St. Theophan, The Spiritual Lifei, p. 61.

[5] Pomazansky, Orthodox Dogmatic Theology, p. 135. St. John Damascene, "Orthodox Faith", p. 236.

[6] The Philokalia, vol. 2, p. 88.

[7] Ibid., p. 308.

[8] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 75.

[9] Tao Te Ching, cap. 52 (Rose and Mair, trans.).

[10] St. Theophan, The Spiritual Life, p. 74-75.

[11] Lucas 11:35.

[12] St. Theophan, The Path to Salvation, p. 260.

[13] Tao Te Ching, cap. 10 (Rose trans.).

[14] St. Basil, letter 2, p. 7.

[15] Tao Te Ching, cap. 12 (Gi-ming Shien, trans.).

[16] João 7:24.

Fonte: Christ the Eternal Tao, p. 276-285.

20 de setembro de 2012

A trajetória espiritual de Konstantin Leontiev




O conhecimento que não for contido pelo temor a Deus resultará em arrogância.
São Máximo, o Confessor

A leitura da vida dos santos, de seus feitos e conquistas espirituais, sempre nos provoca admiração. Ocorre que emular esses "anjos na Terra" -- que é o que realmente deveríamos fazer -- parece frustrante. Ou são destinados à santidade desde pequenos, ou, no caso dos grandes pecadores, suas conversões são tão radicais, seus arrependimentos tão plenos, que eles rapidamente galgam até os últimos degraus da escada da perfeição cristã. Sentimo-nos inferiorizados, nós que mal alcançamos o primeiro degrau da escada. Embora estejam próximos de nós, até em função de seu amor pelos homens, fato é que a experiência desses santos está muito longe da nossa. Seria muito mais encorajador se encontrássemos homens e mulheres "comuns" com os quais pudéssemos nos identificar -- encontrar pessoas que, como nós, vivem entre a atração dos prazeres terrenos e o desejo de adentrar no Reido dos Céu.

Konstantin Leontiev certamente não era um homem "comum": diplomata, médico, filósofo, Leontiev era um homem muito culto. No entanto, sua trajetória espiritual -- os contornos gerais dela, pelo menos -- é familiar a quase todo mundo, sobretudo aos convertidos, e observar seu progresso poderá ajudar em nosso próprio progresso. O relato abaixo foi parcialmente extraído de um capítulo do livro "O Mosteiro de Optina e Sua Era", de I.M. Kontzevitch [*], e também de uma pesquisa empreendida pela Monja Natália, cujo artigo "A Salvação da Alma ou os Bens Terrenos", publicado recentemente pela revista Orthodox Life (versão russa), em homenagem ao centenário da morte de Leontiev.

O início da jornada espiritual consciente de Leontiev deu-se com sua conversão na aurora de sua vida adulta. Como ele mesmo relatou em carta a um amigo, em julho de 1871, Leontiev encontrava-se em Tessalônica naquele verão quando subitamente adoeceu de cólera. A doença progrediu a ponto de tornar-se terminal. "Àquela altura eu nem pensava na salvação da minha alma (a fé num Deus pessoal era algo mais fácil de aceitar do que a fé na minha imortalidade); e eu, que em geral não sou de ficar com medo, fiquei simplesmente aterrorizado com a perspectiva de morrer". Um monge do Monte Atos havia lhe trazido um ícone na Mãe de Deus. Ao observá-lo, conta Leontiev, "subitamente, naquele instante, acreditei na existência e no poder dessa Mãe de Deus, acreditei tão intensamente, tão concretamente, que é como se aquela mulher estivesse ali, viva e presente, diante de mim, afável e poderosíssima, e exclamei: 'Mãe de Deus! É cedo demais para eu morrer! Eu ainda não fiz nada de digno com meus talentos, eu tenho levado uma vida promíscua e pecaminosa no sentido mais estrito da palavra. Ergue-me deste meu leito de morte. Eu irei ao Monte Atos, prostrar-me-ei diante dos anciãos e implorar-lhes-ei para que me façam um ortodoxo simples e autêntico, alguém que acredite nas quartas e sextas-feiras [os intelectuais, em geral, menosprezam os jejuns às quartas e sextas-feiras] e nos milagres; até mesmo um monge me tornarei'".

Em outra carta, Leontiev conta: "Pela primeira vez senti uma mão sobre mim vinda do Alto, e quis submeter-me a essa mão justa e encontrar nela apoio para levar adiante a violenta tempestade que se dava em meu interior; buscava somente as maneiras para entrar em comunhão com Deus. Fui ao Monte Atos e tentei transformar-me num verdadeiro cristão ortodoxo para que os anciãos mais rigorosos me ensinassem a fé. Estava preparado para submeter-lhes meu intelecto, minha vontade".

Após sua milagrosa recuperação, Leontiev cumpriu sua promessa à Mãe de Deus e foi ao Monte Atos. Porém, os anciãos Pe. Jerônimo e Pe. Macário não concordaram em tonsurá-lo monge, julgando-o muito imaturo. É evidente que eles previram que, depois que a chama da conversão aferrecesse, Leontiev teria muita dificuldade em submeter-se aos rigores da disciplina monástica. Esteta confesso, Leontiev havia sido até então um homem do mundo, o que significa que ainda havia uma longa e árdua estrada a percorrer até que se livrasse das amarras que o mantinham preso ao mundo.

A batalha de Leontiev deu-se em dois fronts. Em ambos a batalha foi duríssima, já que os hábitos pecaminosos tiveram tempo suficiente para se enraizarem e amadurecerem. Em prmeiro lugar, ele teve de lutar contra "a luxúria da carne e a luxúria dos olhos". Como ele mesmo admitira, sua vida era imoral em todos os campos, chegando a ponto de tornar-se "um verdadeiro libertino, um libertino requintado". Em segundo lugar, e esta batalha foi a mais difícil, Leontiev teve de lutar contra o orgulho intelectual. Kontzevitch descreve Leontiev como sendo "um homem de inteligência profunda e brilhante", citando outro autor que julgava Leontiev como um sujeito de "mente extraordinariamente independente, uma das mentes mais independentes da Rússia; ele não se apegava a nada".

O meio cultural de Leontiev, ou seja, a elite intelectual da Rússia do século XIX, encontrava-se francamente divorciado da liderança espiritual ortodoxa. Ocorre que Leontiev havia descoberto que a inteligência superior não precisa ser uma pedra de tropeço que bloqueie a fé. "Muitos", dizia ele, "nem mesmo concediam a hipótese de que um intelectual pudesse também ser um homem de fé viva e sincera, algo que só seria cabível às massas ignorantes. Mas isso é um grande erro. A pessoa culta, depois de certo ponto, está melhor capacitada a crer com profundidade e sinceridade do que uma pessoa comum que crê por hábito (pois segue os exemplos dos outros) ou que crê porque sua fé nunca é desafiada por ideias opostas. Não há nada que a pessoa comum tenha de conquistar, não há batalhas intelectuais as quais se dedicar. Ele não precisa conquistar nada na arena intelectual, mas apenas as paixões, sentimentos, hábitos, raiva, rudeza, malícia, inveja, ganância, gula, depravação, preguiça etc. Para o intelectual, a batalha é bem mais difícil e complexa. Ele também tem de derrotar as paixões e hábitos que perturbam a pessoa comum, mas além disso tem de derrotar seu orgulho intelectual e conscientemente subjugar sua mente aos ensinamentos da Igreja. Quando esta barreira mística tiver sido transposta, que é precisamente o 'ponto' que mencionei acima, então a erudição se tornará um impulso adicional ao fortalecimento da fé".

Para combater o orgulho, os Santos Padres recomendavam a virtude que lhe é oposta: a humildade. Porém, o orgulho intelectual é extremamente teimoso. Ao recordar de sua conversão, Lentiev escreveu: "Naqueles tempos eu simplesmente não sofria. Eu não tinha um pingo de humildade; eu acreditava em mim mesmo. Eu era mais feliz naqueles tempos do que na minha juventude; eu estava totalmente satisfeito comigo mesmo".

Se a estrada da humildade lhe estava temporariamente fechada, de quais meios Leontiev lançou mão para empreender tão dura batalha? Ele tinha boa vontade e os conselhos divinos do Ancião Ambrósio, pois o desejo sincero pelo Reino de Deus levou-o ao famoso Mosteiro de Optina, o qual já havia atraído a seus domínios grandes intelectuais como Gogol, Kireyevsky e Dostoyevsky. Ele admitira também ter sido ajudado "por uma antiga antipatia filosófica pelas formas e pelo espírito da nova vida europeia e, por outro lado, por uma espécie de atração estética e ingênua pelas formas exteriores da Ortodoxia". Mas o principal aliado de Leontiev nessa arena espiritual foi, sem dúvida, o temor a Deus.

Assim como há város tipos de amor, e vários graus de amor, há também vários tipos de temores. A jornada espiritual de Leontiev iniciou-se com o medo da morte. Ao refletir sobre sua conversão, escreveu ele: "O inesperado momento chegou quando finalmente eu, que sempre fora tão ousado, senti um terror incomum, não um mero medo. Esse terror era ao mesmo tempo medo do pecado e medo de morrer. Nunca antes eu experimentei algo assim... Comecei a temer a Deus e a Igreja. Com o tempo o medo físico foi desaparecendo, ficando em seu lugar um crescente temor genuinamente espiritual". Na opinião de Leontiev, segundo a Monja Natália, somente o temor genuíno -- não o medo físico, corporal, não o medo de perder bens temporais, mas o medo da destruição da alma, da aniquilação total, do desaparecimento, da não-existência -- somente esse tipo de temor pode conduzir um intelectual à fé.

Os críticos de Leontiev acusavam-no de enfatizar demais o temor às custas do amor, distorcendo assim o verdadeiro ensinamento cristão. Contudo, segundo os Santos Padres, ninguém vai ao amor senão pelo temor. "O temor", ensinava Santo Isaque, o Sírio, "leva-nos a bordo do barco do arrependimento, conduz-nos ao outro lado do mar fétido da vida, guiando-nos até as praias divinas do amor". E São João Clímaco dizia: "A ascensão do temor é o princípio do amor". Leontiev superara o medo primitivo da morte e progrediu à fé e ao temor a Deus, do medo da retribuição divina ao temor de ofender a Deus -- por amor a Deus. "O fiel teme a Deus", explica o filósofo russo Príncipe Trubetskoy, "não apenas quando reconhece que transgrediu Sua verdade, mas quando se submete a Ele com fé e amor. Pois o temor a Deus é melhor revelado na obediência, na humildade e na oração do que nos tormentos da consciência. O fruto do temor a Deus é o amor".

Mais tarde, Leontiev torna-se monge, com o Ancião Ambrósio tonsurando-o em 1891 com o nome de Clemente, indubitavelmente em memória a seu caro amigo Pe. Clemente Sederholm, monge de Optina. Ciente de que seu filho espiritual não se adaptaria aos rigores da vida ascética em Optina, o Ancião Ambrósio decidiu enviá-lo à Lavra da Santíssima Trindade-São Sérgio. Em parte, o ancião consolou Leontiev dizendo-lhe: "Em breve nos veremos". De fato, o ancião repousou no dia 10 de outubro de 1891 e Leontiev repousou um mê depois, em 12 de novembro, juntando-se a ele no além-túmulo. Leontiev morrera de pneumonia.

Só Deus sabe o quanto Leontiev progrediu nesse temor perfeito que, segundo os Santos Padres, "é igual em poder ao amor perfeito". Leontiev esperava que os outros intelectuais, ao lerem a história de sua conversão, "também não perdessem a esperança de encontrar o caminho certo". Ele mesmo apontara o caminho. Conforme escreveu o Arquimandrita Constantino (Zaitsev): "O feito maior de Leontiev reside no fato de que ele dissera  algo como 'afasta-te daqueles que portam palavras de amor nos lábios mas que o desviam da Igreja, e aprende em vez disso o temor, isto é, renuncia a assertividade, reflete acerca da morte e do que lhe aguarda após a morte e, sem filosofias engenhosas, entrega-te livre e alegremente ao guiamento da Igreja. Somente dessa forma tu alcançarás a salvação; somente dessa forma tu aprenderás o verdadeiro amor'".

[*] Um capítulo deste livro encontra-se traduzido aqui.

25 de dezembro de 2011

Pensamentos do ouvido interior


Arquimandrita Touma (Bitar)

19/jul/2009

A raiva era uma coisa sagrada no Paraíso. O Senhor Deus implantou a raiva no homem para que ele possuísse um instrumento que fosse capaz de rejeitar dentro de si todas as artimanhas que o diabo armasse para separar o homem do verdadeiro Deus e para remover do homem sua fé em Deus. O diabo enganou Adão e Eva, e eles não fizeram uso dessa faculdade incensiva (ou irascível) para detê-lo. Se tivessem feito isso teriam escapado dessa artimanha do diabo e, portanto, teriam sido poupados dos sofrimentos que daí se seguiram. Quando a artimanha do diabo se lhes apresentou, caíram no mesmo erro que o diabo caíra – a autoadoração. O homem, ao aceitar as insinuações do diabo, deixou a esfera de Deus para entrar na esfera do diabo. Desde então, o homem tem se comportado, mesmo que de maneira espontânea, à maneira do diabo. Quanto à raiva, a partir do estado ao qual Adão e Eva chegaram, ela se tornou mais e mais um instrumento de opressão e destruição, no sentido do homem exercer poder sobre outros homens e sobre a morte. É assim que a autoadoração do homem começou a se expressar. A raiva tornou-se a faculdade destruidora da criação de Deus depois de ter sido a faculdade para preservá-la. Não mais ela é mais o instrumento para a defesa da verdade. Ao invés disso, tornou-se uma arma da falsidade.

A natureza humana de Jesus Cristo é a natureza do homem no Paraíso, antes da Queda. É por isso que a parte irascível foi implantada em prol do zelo a Deus. Quando Ele entrou no templo e viu aquelas pessoas fazendo comércio, transformando a casa de Deus em um bazar, ficou furioso por zelo à Verdade. Ele tomou de um chicote e bateu naquelas pessoas, virando mesas e cadeiras, dizendo-lhes: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões. (Mateus 21:13).

Para que os homens voltem a adorar Deus em espírito e em verdade mediante o cumprimento dos mandamentos divinos, não lhes é permitido que recorram à violência. O conselho para eles é: sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas. (Mateus 10:16). Para que os homens alcancem a humildade desejada pelo Senhor Deus, devemos imitá-Lo nisso. A parte irascível dos homens não retornou ao estado original e ela não recobrou o papel divino de defender a verdade e de preservar a criação de Deus. Até a Queda, a violência era uma arma exclusivamente diabólica. O clímax das artimanhas de Satanás foi trazer o homem ao campo da violência, fazendo-o matar em nome de Deus. Jesus Cristo alertou para este fato quando disse a Seus discípulos: Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim. (João 16:2-3).

***

O diabo às vezes fala a verdade. Ele falou a verdade, por exemplo, quando chamou o Senhor de Jesus, Filho de Deus (Mateus 8:29). Nem tudo o que o diabo fala é mentira. Dito isto, ele continua sendo o enganador e o pai da mentira (João 8:44) porque seu objetivo é enganar os povos de todos os tempos e todos os lugares, seja falando a verdade ou falando mentiras. Seu objetivo principal não é testemunhar a verdade, mas lançar o homem ao erro. Ele sempre se moverá dentro do espírito da falsidade. Portanto, quando fala a verdade, ele o faz a serviço da falsidade. Se ele não falasse mentiras, ninguém acreditaria nele e todos se afastariam dele. É por isso que ele mistura mentira com verdade. É impossível que o homem conheça a verdadeira natureza do diabo exteriormente. Ele somente pode ser plenamento exposto através do Espírito de Deus.

Sejamos claros: o diabo tem um único objetivo, qual seja, o de afastar as pessoas de Deus. Para alcançar este objetivo, ele faz com que as pessoas pensem como ele pensa. Seu objetivo não é tanto dominar os homens por fora, mas dominá-los por dentro, implantando-lhes seus pensamentos. Ele nos faz pensar que o que ele quer para nós é exatamente o que nós queremos para nós mesmos. Seu slogan é: “Faça o que você quer”. Ele espalha seus pensamentos nas pessoas e desaparece. Dessa forma, ele nos transforma em demônios e em seus obreiros. A prova de seu sucesso é quando pensamos: “Este pensamento é meu. É assim que eu penso”; ou mesmo quando atingimos um elevado grau de cegueira e achamos que nossos pensamentos, que vêm do diabo, são de Deus.

Pois esta é a lógica da autoadoração e esta é a lógica do perverso poder humano. Quanto mais as pessoas se afastam de Deus, mais elas sujam as mãos com o poder terreno. Jesus Cristo alertou-nos contra a tomada de poder neste mundo, pois é impossível que o façamos sem estarmos sujeitos ao pensamento sobre o qual falamos acima. É impossível que alguém tome o poder de acordo com o mundo sem a presença desse pensamento diabólico. O poder é o primeiro passo da obra do diabo e o campo ideal para a manifestação de seus planos e pensamentos. Depois da Queda, a aquisição de poder tornou-se automaticamente a coisa que a alma mais deseja. O homem nasce com forte inclinação para isso – todos os homens. Por isso, para aqueles que têm fé em Jesus Cristo, há outros ditames, outros mandamentos e outra lógica. Eis o que disse Jesus Cristo: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; e qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. (Marcos 10:42-45).

A grande tentação para as pessoas, não importa se tenham fé em Jesus Cristo ou não, mas sobretudo para os servos de Cristo – pois não temos “líderes” eclesiásticos no sentido estrito da palavra, mas “servos” eclesiásticos – é a tentação do poder. Para os servos de Cristo, essa tentação é ainda maior, pois não apenas estão expostos ao poder deste mundo, mas são chamados a exercer o poder em nome de Deus. Em outras palavras, são chamados a dar ao poder, o qual vem do Espírito Santo, também uma dimensão espiritual. É por este motivo que os servos de Cristo, se não são servos em verdade, são filhos de Satanás e seus servos por excelência, e aqui não importa se saibam disso ou não, pois roubam aquilo que é de Deus, de propósito ou por ignorância, e o cedem ao diabo. Neste contexto, o problema é que eles caem nas artimanhas de Satanás não por causa do que pregam, mas por causa do que dizem e não fazem (Mateus 23:3). Por sua pretensão em ignorar a prática, eles perdem o senso das coisas divinas. O exterior diz que são homens de Deus, mas o interior está firmemente atrelado ao serviço de Satanás. Este é o estado ideal para operar o trabalho do diabo. Eles insistem que estão a serviço de Deus, mas o que fazem é exercer o poder no espírito deste mundo. Eles exortam o amor de Cristo, mas não amam. Sempre têm desculpas. Eles dizem que cuidam do rebanho de Cristo, mas o que cuidam mesmo é de seus próprios interesses e paixões. Eles exortam ao perdão mútuo, mas odeiam e se vingam. Eles dizem que se preocupam com a ovelha perdida, mas afastam todas as ovelhas. Eles exortam a adoração a Deus, mas, no fundo de suas almas, querem mesmo é ser venerados e lisonjeados. Com palavras demonstram zelo pelo Evangelho, mas seus corações interiores têm zelo apenas pelo que é deles. Sua honra está acima da honra de Cristo! Eles não pensam duas vezes em desobedecer aos rituais da Igreja só para ganhar alguma vantagem pessoal, e chamam a isso de cuidado pastoral! Eles presidem os ofícios, mas o que querem mesmo é adorar a si próprios, à sua aparência, sua voz, suas vestes e suas homilias. Preocupam-se para que as pessoas se apeguem a eles, e não a Deus, e para que elas falem bem deles. Quando dizem a verdade, misturam-na com a falsidade que há neles, pois seus corações não são de Deus. Certamente não são!

Esse tipo de tentação satânica, este ambiente interior envenenado que reina em praticamente todas as pessoas da Igreja, sobretudo os pastores, não pode ser neutralizada apenas com conhecimento teórico, mas com o Espírito do Senhor e com exercícios práticos: cumprir os mandamentos divinos e andar em santidade. O ignorante é levado a Deus por quem O conhece, isto é, por quem O ama. Quando o cego guia outro cego, ambos caem no precipício do diabo. Por isso a Igreja tem ao longo da história tomado o cuidado de selecionar para o trabalho pastoral homens santos, ou seja, homens que conhecem a Deus e praticam os princípios da vida espiritual. Ninguém pode dar o que não tem. Somente aquele que teme a Deus pode levar o rebanho de Cristo a temer a Deus. Somente o arrependido pode lever o rebanho de Deus ao arrependimento. Somente quem ama a Deus pode levar o rebanho de Deus a amá-Lo. Somente o servo de Cristo pode liderar o serviço a Cristo. Quem jejua, reza e vigia pode levar o rebanho a jejuar, rezar e vigiar. Quem anda em santidade pode conduzir o rebanho de Deus à santidade. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode conduzir o rebanho ao Espírito do Senhor. Este é o verdadeiro conhecimento prático dos cristãos, esta é a verdadeira filosofia dos cristãos. Teorias e conhecimentos não têm valor em si mesmos, não fazem de ninguém santo, mas servem na melhor das hipóteses como educação preparatória. A experiência mostra que os ignorantes espirituais tendem a depositar grande valor em teorias e aquisição de informações, mas quem tem experiência espritual não dá muito valor a teorias e precisa de pouca formação teórica. A maior parte de seu conhecimento é prático, de maneira que o que aprende vem do Alto. Para os cristãos, aquele que anda em santidade é o verdadeiro inteligente, mesmo que seja analfabeto; por outro lado, quem não anda em santidade não passa de um ignorante, mesmo que tenha memorizado todos os livros do mundo!

Hoje em dia, infelizmente, os padrões mudaram. Santidade não é o ambiente e a escola e a meta da maioria dos cristãos, sejam leigos ou sacerdotes. A santidade não habita mais a consciência dos fiés comuns, mas sim os grandes milagres! Não mais insistimos que nossos pastores sejam santos. De qualquer forma, não há muitos santos mais. A cultura da auto-satisfação não é propícia para a fabricação de santos. Damo-nos por satisfeitos com as pessoas que se comportam normalmente. Raramente investigamos a condição interior dos candidatos a pastores ou mesmo sua vida pregressa. Essa questão é totalmente ignorada quando se trata de selecionar bispos para a Igreja. A possibilidade de errar acaba se tornando enorme, causando constrangimento para a Igreja quando se descobre, depois de algum tempo, que o passado do recém-ordenado bispo é vergonhoso. Em outras ocasiões, bispos da Igreja não pensam duas vezes em ordenar pessoas que obviamente são indignas dessa posição.

O tipo de pastor a que me refiro é ainda mais valorizado hoje em dia se ele tiver algum diploma universitário e/ou alguma formação teológica qualquer, e se for bom de papo. Será ainda mais admirado se for um grande pensador, um orador eloquente, ou mesmo um escritor. Melhor ainda se conhecer línguas estrangeiras, se sua voz for bela e articulada, se tiver “consciência social” e se possuir conhecimentos administrativos e de educação religiosa. Não se exige, de maneira alguma, que seja um homem de oração. Isso é problema dele! Exige-se apenas que cumpra suas obrigações rituais com excelência. Ademais, não se exige que seja um homem que jejue. Isso também é problema dele! A maioria das pessoas, afinal, acha que o jejum na Igreja Ortodoxa é muito rígido mesmo, e que esse tipo de coisa não condiz com a época em que vivemos. Em geral, as pessoas se acostumam a conviver com as tendências impróprias desse pastor, seja ele ganancioso, vaidoso, orgulhoso ou briguento. No que tange as virtudes cristãs, raramente as encontramos nos pastores de hoje em dia – se é que as pessoas sabem quais virtudes são essas. Algumas se alegram ao identificá-las, algumas simplesmente não lhes prestam atenção. De qualquer forma, a maioria das pessoas simplesmente as acham supérfluas. O que importa mesmo é a ética mundana – ou seja, o pastor não pode ser fornicador, ladrão ou assassino. Na ausência de uma criação autenticamente cristã, o que acaba prevalecendo são os padrões humanos e mundanos!

Todas estas coisas fazem parte do contexto eclesiástico atual, já que a santidade não é preocupação de ninguém, nem do pastor. O que realmente valorizamos é a Igreja enquanto idéia, enquanto instituição, enquanto organização. Preocupamo-nos com os ofícios, com o coral, com as reuniões sociais e culturais, com grupos de estudo etc. Não que estas questões não sejam importantes. Elas são. Mas o mais importante não é isso. O mais importante é a purificação do coração e a aquisição do Espírito Santo. Eis o desvio fundamental daqueles que se consideram fiéis – sacerdotes e leigos, não importa. Eles não passam de pagãos que se autoadoram, que buscam sua própria glória. Preocupam-se com seu próprio poder, com sua própria reputação, com sua própria honra. Satisfazem-se com a forma exterior da adoração a Deus. O que lhes importa não é a conversão do coração, mas os costumes, as obrigações desprezíveis, os falsos elogios. Ora, não é esta a igreja ideal de Satanás? Não é esta a igreja que ele ama? Uma igreja mundana, ritualística, como um museu, um Cristianismo nominal, sem Cristo, sem santidade, sem verdade, sem Espírito, sem vida nova, cheia de pensamentos mundanos e preocupações mundanas! Não é esta a igreja que a maioria das pessoas recebe e pela qual trabalham? O diabo triunfou ao fazer as pessoas acreditarem que esta é a verdadeira igreja, que está é a igreja ideal, a igreja “moderna”! 

Esta é precisamente a igreja contra o Cristo! E nós, desatentos à santidade, estamos construindo-na alegremente, persistentemente e continuamente! 

Fonte: Notes on Arab Orthodoxy

28 de novembro de 2011

Aprenda a rezar rezando


Pergunta: Se o senhor pudesse e quisesse dar às pessoas um breve conselho sobre como rezar, o que o senhor diria?

Resposta: Se você quiser aprender a nadar, pule na piscina. Esta é a única maneira. Só quem reza descobre o significado, o gosto e a alegria de rezar. Não dá para aprender a rezar sentado numa poltrona macia. Quando estiver pronto para se ajoelhar, para se arrepender com sinceridade, para levantar os olhos e aos mãos para o Céu, então muitas coisas lhe serão reveladas. Você até pode ler livros, ouvir palestras, conversar -- estas coisas também são importantes e ajudam a entender melhor a questão. Mas de que valem essas coisas se você não der o primeiro passo? Se você não começar a rezar?

Fonte: Entrevista com o Pe. Gabriel Bunge.

4 de outubro de 2011

Moralismo vs. Cristianismo


Pe. Stephen Freeman

Eu me lembro bem das minhas primeiras aulas de Teologia Moral. Isso já faz uns 35 anos. Este assunto é essencial para o pensamento ocidental, sobretudo nas tradições católica romana e anglicana. Por diversas vezes as aulas se pareciam mais com aulas de Direito do que Teologia. Aprendíamos métodos e princípios sobre os quais as questões morais eram debatidas e decididas. Mas, no fim das contas, as aulas serviram mesmo é para despertar algumas dúvidas em mim.

O problema central da maior parte da moral está nestas perguntas fundamentais:

  • O que significa agir moralmente?
  • Por que moral é melhor do que imoral?
  • Por que certo é melhor do que errado?

Estas perguntas são respondidas por algumas fórmulas legais clássicas:

  • Agir moralmente é agir em obediência à lei ou aos mandamentos de Deus.
  • Moral é melhor do que imoral porque moral é uma descrição da obediência ao Bom Deus. Ou, moral é a descrição de fazer o bem, ou de fazer o maior bem à maior quantidade de pessoas (depende muito da sua escola de pensamento).
  • Certo é melhor do que errado pelas mesmas razões que moral é melhor do que imoral.

É evidente que todas estas perguntas (certo e errado, moral e imoral) depedem não apenas de um padrão de conduta, mas de alguém que force tal conduta. Assim, certo é melhor do que errado porque Deus vai castigar o errado e recompensar o certo -- se não fosse assim (no contexto deste raciocínio), tudo seria mero exercício acadêmico.

Admitamos desde já que muitos cristãos se sentem perfeitamente à vontade com a idéia de que Deus recompensa e castiga. Admitamos também que há farta evidência bíblica que serve de suporte às pessoas que pensam assim. Todavia, este tipo de raciocínio está longe de ser unânime nas tradições de fé cristã -- e menos ainda na Igreja Oriental.

Que a Escritura ensina essas coisas -- que Deus é castigador e recompansador -- é inegável, mas há mais coisas no âmbito bíblico que precisam ser lidas e entendidas:

E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto [a recusa dos samaritanos em receberem Jesus Cristo], disseram: "Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?" Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: "Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las". E foram para outra aldeia. (Lucas 9:54-56).

Se Tiago e João estavam raciocinando com base no binômio castigo-recompansa -- e obviamente eles estavam --, a repreensão do Cristo pegou-os de surpresa. O mesmo se aplica a vários outros momentos do ministério de Jesus Cristo. A interpretação dada pelos Padres neste e em outros trechos da Escritura é de que o papel de Deus como "castigador" é apenas um aspecto de Seus papel como "terapeuta". As agruras que padecemos não são para nossa destruição e castigo, mas para nossa salvação e cura.

Esta observação faz com que as coisas tomem uma nova direção. Trata-se de uma interpretação aplicada ao Velho Testamento a partir da revelação do Cristo no Novo Testamento. No Cristo vemos com clareza aquilo que era apenas conhecido "em enigmas" na Velha Aliança. Através dEle vemos agora com clareza.

Deus enquanto Cristo é uma realidade que invoca novas perguntas sobre moralidade:

  • O que a encarnação de Deus significa para a moralidae humana?
  • O que está em jogo nas nossas decisões sobre o que é certo e errado?
  • O que significa ser moral?

Os ensinamentos de Santa Atanásio (+373), o grande Padre do Concílio de Nicéia e defensor da fé contra os ataques do arianismo, sobre a natureza do estado aflitivo em que se encontra a humanidade (pecado e redenção) são especialmente importantes. A abordagem que ele faz sobre o assunto, em especial em De Incarnatione, começa com a criação do mundo do nada (ex nihilo). Nossa própria existência é uma coisa boa, que nos é dada e sustentada pela misericórdia e pela graça do Bom Deus. A ruptura de comunhão que ocorreu na Queda (e em todo pecado) é a rejeição da verdadeira existência que nos é dada por Deus. Portanto, o problema do pecado não é de natureza legal, mas de natureza ontológica (uma questão de ser e de verdadeira existência). O sentido da vida, no âmbito cristão, é a união com Deus, é ser participante de Sua vida. O pecado rejeita a verdadeira existência e nos afasta de Deus em uma espiral de não-ser.

Ora, as questões que vivenciamos não são morais em sua natureza, ou seja, não se trata de obedecer certas coisas porque são certas etc., mas são ontológicas em sua natureza. A grande escolha dos homens é entre a união com Deus e Sua vida ou cair no vazio do não-ser. A salvação não é uma questão jurídica, mas ontológica. As grandes promessas do Cristo apontam nesta direção.

Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso noûs, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:1-2).

Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. (II Coríntios 3:18).

Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos; e assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. (II Coríntios 4:6-12).

Há muitos outros versículos que apontam na mesma direção. Eles deixam claro que a salvação é algo que ocorre dentro de nós -- não se trata de uma mudança de nosso status jurídico. Somos exortados a entender que Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2:13). A salvação nada mais é do que conformar-se à imagem de Deus, uma verdadeira comunhão de vida e participação na natureza divina.

As abordagens jurídicas ofuscam a compreensão dessas coisas. A obsessão por modelos jurídicos rapidamente reduz a fé a um tribunal cósmico (ou sistema penal). O grande problema é que as questões morais tendem a ser objetificadas e situadas fora da vida dos fiéis. A superação de todas as questões legais que se interpõem entre nós e Deus não tem nada a ver com o paraíso. O objetivo do cristão ortodoxo é ser transformado na união com Cristo -- ser curado do pecado e renovado. Isto exige uma mudança no homem interior, exige a restauração do "verdadeiro eu" que está "oculto com Cristo em Deus".

Quanto à justiça, trata-se de um mistério. Cristo fala de Deus recompensando um grupo de pessoas que trabalharam somente no fim do dia da mesma forma que recompensou aqueles que trabalharam o dia inteiro. O princípio subjacente aí é diferente do princípio da justiça (é um exemplo usado por Santo Isaque, o Sírio).

O moralismo é uma degeneração da verdadeira doutrina cristã. Como o secularismo (e o universo de dois andares), ela pretende debater questões morais como se Deus não existisse. O moralismo (e todas as suas primas éticas) tornou-se uma "ciência", um exercício abstrato racional baseado em princípios puramente presumidos. A Escritura é clara quando diz que "ninguém há bom, senão Deus", nem pode haver nada que seja bom que não venha de Deus. As únicas "boas ações" são aquelas que nos levam à união profunda com o Cristo. Estas ações começam em Deus, são apoderadas por Deus e levam a Deus. "Moralidade" é uma ficção, pelo menos no sentido em que é versada pelo pensamento moderno.

O pecado que infecta nossas vidas e produz más ações é uma doença mortal (morte). Somente a união com a verdadeira vida no Cristo pode curar esta situação, causando a transformação e o renascimento na verdadeira vida, que é nossa no Cristo.

Conforme disse em várias ocasiões: Cristo não morreu para tornar homens maus em bons - Ele morreu para tornar homens mortos em vivos.

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Abba Lot certa vez visitou Abba José e lhe disse: "Abba, na medida do possível, rezo meu pequeno ofício, jejuo um pouco, rezo e medito, vivo em paz e purifico meus pensamentos o quanto posso. Que mais posso fazer?" O ancião levantou-se e apontou com os braços o céu. Seus dedos se tornaram como dez lâmpadas de fogo e eis que ele respondeu: "Se quiseres, poderás te tornar todo fogo".