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11 de janeiro de 2018

Os princípios de uma vida de oração



As correntes que escravizam o homem se tornaram tão comuns, tão “normais”, que já nem mais nos damos conta delas. As paixões se tornaram inimigos tão familiares e banais que o homem já não sabe mais quais são os traços característicos desses inimigos, sua natureza opressora, e daí os passa a tratar como amigos. O inimigo, que trava uma guerra incessante contra o homem, passa a fazer “parte da estrutura” e portanto já não é mais detectado; sua existência passa a ser até mesmo negada, a ser “racionalizada” em um contexto psicológico de maneira que se torna algo irreal, distante, remoto. Desta maneira, a batalha espiritual se transforma em uma não-batalha, ou seja, em derrota; ora, se não admitimos nosso estado então não nos preparamos para a luta com a devida seriedade e vigor – e eis que nossas paixões triunfam, o pecado triunfa, e o pleito do diabo torna-se cada vez mais fundamentado.

A tarefa que temos pela frente é grande: olhar para dentro, para as profundezas de nosso coração, e aí descobrir as âncoras que nos mantêm preso às partes mais profundas do mar, e pela graça de Cristo lutar contra elas. Somos chamados a trabalhar, mediante o poder redentor do Senhor encarnado, para derrotar aquilo que busca nossa destruição.

O mundo porém nos chama a uma tarefa radicalmente diferente, pois o mantra da sociedade é o da autossatisfação. Esse chamado assume diferentes formas no mundo moderno, mas em essência pode ser reduzido a duas. A primeira seria a crença simplista de que se pode, e se deve, ser o que se quiser ser, do jeito que se quiser ser, desde que o próximo não saia prejudicado.

Existe uma forma mais sutil e refinada, que é encontrada nos vários movimentos tipo “new age”e de “autoajuda”. Frequentemente esses movimentos implicam chamados a uma mudança, a uma transformação – até mesmo uma transformação do eu. Tais movimentos defendem uma distinção: a distinção entre o amor próprio falso e o amor próprio verdadeiro, sendo o falso vinculado a problemas e imperfeições, e o verdadeiro sendo autêntico e elevado.

No entanto, o “verdadeiro eu” que se ambiciona descobrir e amar ainda é auto-definido pela vontade e pelos desejos da própria pessoa. Como é grande essa tentação, e como é penetrante e universal essa visão de mundo!

O Cristianismo é a vida enraizada na vida do próprio Cristo. O fardo da vida não é vivê-la para o eu, mas para Cristo; e seu objetivo não é satisfação, mas transformação. O cristão é chamado para tornar-se, para entrar em uma vida nova, que é a de outroa vida de Cristo. Ele tem de descobrir o “eu” de sua existência atual exatamente para que possa transformá-lo em uma vida que não seja definida por sua vontade, mas definida e tornada real por outro – pelo próprio Deus.

O cristão ouve dois chamados: o de Deus e o do mundo. A tentação mais persistente é a de responder a ambos, como se tivessem igual valor, ou como se tivessem valores que pudessem andar lado a lado; mas isso seria ignorar as palavras do Senhor. Deixa os mortos sepultar os seus mortos não foi uma frase pronunciada por Cristo com o objetivo de rejeitar o mundo de maneira fria e despreocupada, mas com o objetivo de ensinar a Seus discípulos que o chamado de um mundo que leva à morte deve ser deixado por si mesmo. O chamado do Reino deve ser o único foco do coração cristão.

Ora, então como deveríamos responder de maneira autêntica ao chamado celestial da Santíssima Trindade? Como devemos proceder? A única maneira é por meio da renovação em nós mesmos da visão ascética a nós transmitida pela Igreja, e por meio da nossa conformação à vida que nos vincula à fonte da vida, ou seja, a Jesus Cristo. Em termos práticos, isso tudo pode ser realizado mediante a renovação da atenção aos contornos verdadeiras da batalha ascética: em primeiro lugar, devemos reconcentrar nossa visão no Reino. Em segundo lugar, devemos redesenvolver em nós a consciência a respeito de nossos inimigos: o diabo e os demônios. Em terceiro lugar, devemos entender de maneira mais direta a natureza das paixões. Em quarto lugar, devemos reaprender continuamente a natureza e a prática da obediência. E em quinto lugar, devemos trabalhar para prestarmos um testemunho melhor e mais forte perante o mundo.

Reconcentrando nossa visão no Reino de Deus

Embora os cristãos reconheçam a existência do Reino, e talvez até manifestem verbalmente a necessidade de obtê-lo, qual seria sua natureza etc., o fato é que o Reino de Deus frequentemente é visto como uma espécie de “pano de fundo” através do qual se possa dar um certo aroma cristão à vida cotidiana. “Eu deveria fazer isso e isso, porque este é um ato de amor e o Reino de Deus é um reino de amor”. Ou, “Eu deveria buscar este bem, e não aquele, porque o Reino de Deus tem a ver com esse tipo de coisa”. Não que não haja alguma nobreza em tais reflexões (sem dúvida são melhores do que uma visão que absolutamente não leve em conta o Reino); mas a vida cristã exige muito mais do que isso. Cristo não disse “Quando vocês refletirem sobre esta vida, lembrem-se do Reino e então deixe que ele tome parte naquilo que estiverem buscando”; ao invés disso, Ele disse: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça. Somente depois de haver fornecido este foco único e primaz ao esforço cristão, Ele acrescenta: e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

O chamado de Cristo não é para que o homem de vez em quando se lembre do Reino ao qual ambiciona, e que essa lembrança dê forma à sua vida cotidiana. Seu chamado é para que o homem seja totalmente moldado e formado pela busca do Reino. O foco de cada deliberação, de cada ação, de cada pensamento, de cada movimento do coração, é a justiça de Deus, a qual anuncia e torna acessível este Reino. Como ensina São João Crisóstomo: “A vocês as coisas mais importantes não são estas que estão aqui presentes. Portanto, visto que as coisas aqui são secundárias a nosso labor, que sejam elas também secundárias em suas orações”.

Ao invés de enxergarmos o contexto de nossos comportamentos, ações e decisões como sendo a vida eterna do Reino permanente de Deus, o enxergamos como o curto espaço desta vida e ajustamos nossa percepção e visão de mundo de acordo com ele.

Quando fazemos planos para o futuro, é muito comum que miremos os anos da velhice. Almejamos coisas e ações saudáveis que possam alongar, nem que seja por alguns dias, nossa vida, pois na realidade consideramos a morte como o fim de tudo. Mesmo que reconheçamos – talvez – a existência do Reino, o fazemos de tal maneira que o estabelecemos como uma “segunda coisa”, depois dos afazeres e negócios da era presente.

Ora, nesse sentido a renúncia autêntica, o verdadeiro asceticismo, auto-humilhação e o verdadeiro sacrifício não “fazem sentido”, pois não se conformam a uma visão de mundo primordialmente voltada à vida presente.

Redesenvolvendo a consciência a respeito de nossos inimigos

Que existe o diabo, que existem demônios, e que esses seres travam guerra constante contra a humanidade e sua salvação é um testemunho tão fundamental da Igreja que é chocante que isso tenha de ser explicado a cristãos. A obra de  Cristo neste mundo, durante o período de sua primeira estadia  como homem (pois Ele verá novamente como homem para julgar os vivos e os mortos), centrou-se no combate a Satanás e suas forças demoníacas. Ora, se esta é a obra de Cristo na vida humana, será que a obra dos cristãos deveria ser outra?

Se, e quando, a existência do diabo é admitida, ela o é como uma personificação genérica do mal, mas raramente se confessa que ele é um ser com identidade, vontade, intenção e que se ocupa ativamente das vidas dos seres humanos.

Eles são ativos na batalha espiritual, travam verdadeiras guerras contra aqueles que levam a vida cristã a sério. É impossível entrar na guerra se não reconhecemos a existência do inimigo. Portanto, nossa escolha não é entre “lutar e não lutar”, ou entre admitir ou não admitir sua realidade; nossa é entre lutar ou ser derrotado.

Entendendo a natureza das paixões

A orientação correta em direção ao Reino de Deus não apenas permite que o coração enxergue mais diretamente seu adversário – ou seja, o reino espiritual externo que trava batalhas contra  os justos – mas também fornece a perspectiva que permite entender suas próprias batalhas interiores.

A alma vem a ser dominada por experiências que podem, de outras formas, ter um aspecto positivo (como o amor, que pode ser divino; ou a raiva, que pode ser justa).

No entanto, “paixão” se refere especificamente à dominação passiva da pessoa pelos impulsos mal dirigidos do corpo e da alma. O pecado opera de maneira destrutiva exatamente mediante o mau uso daquilo que é bom. É o entregar-se ao domínio das nossas potências emocionais, aliado a seu mau uso, que é o mal, que é aquilo que deve ser combatido. Na visão cristão do homem, aquilo que o mundo frequentemente chama de “bom” em seu estado emocional são na verdade os engodos, armadilhas e ciladas da batalha espiritual.

Ao sucumbir aos desejos sensuais, ao invés de reinar sobre os domínios de Deus, o coração do homem se “distrai” de sua verdadeira orientação a Deus e Seu Reino. Então aquilo que parece como sendo a condição natural do homem nesta vida é, na verdade, seu estado passional: a “norma” é a dominação, a escravização, o aviltamento. A Igreja entende que esta condição “normal” da existência passional permeia-se facilmente exatamente por causa de sua aparente normalidade. No dia a dia o homem mal nota suas paixões de tão acostumado a elas que está. Isso começa a mudar quando ele começa a levar sua vida espiritual a sério. Quanto mais a sério levar esta vida, esta batalha, tanto mais as paixões serão despertas.

Nesta ascese, nesta batalha, as paixões deixam de fazer parte de um contexto completamente familiares e, portanto, praticamente despercebido, e passam a manifestações específicas da rebelião da alma e do corpo. O fato de o homem passar a focar-se no Reino tem por efeito a correspondente concentração de suas paixões. Mas isso também é condicionado pelo inimigo do  homem, o qual faz uso dessa concentração das paixões que surge em função de levar a sério a batalha espiritual como fundação a partir da qual constrói novos obstáculos ao crescimento autêntico.

Reaprendendo a natureza e a prática da obediência

Dado que o estado passional do homem é fruto da rebelião, então um guia seguro e indubitável é necessário se o homem quiser ser salvo de seu estado triste e pesaroso e renascer na vida da Santíssima Trindade.

Como as paixões são perversões dos impulsos naturais, é compreensível que tenham uma raiz nítida. Os Padres identificam esta raiz como sendo uma perversão específica da vontade: arrogância, orgulho. As demais paixões que reinam tão livremente sobre o coração humano têm sua fonte aqui. E eis por que os Padres também identificam a virtude principal para o combate desta paixão principal: a obediência, que por sua vez engendra a humildade que conquista o orgulho.

A obediência é a virtude de uma vida na qual a vontade própria é sacrificado no altar da Cruz, e a pessoa humana une-se à vontade de Deus. A vontade voluntariamente entrega-se à vontade da Igreja (que é a vontade de Cristo) por meio de suas doutrinas, pastores, professores e pais espirituais, de maneira que a pessoa possa crescer acostumando-se à obediência que a une à verdadeira Fonte da Vida.

Até que o coração venha a treinar sua vontade a conformar-se à vontade de Cristo, seus confortos definem as ações e crenças que considerarão aceitáveis. Seus pensamentos sobre verdade e sentido definem sua realidade.

Tal escravidão à vontade, no mistério da profundeza e extensão do pecado, faz do homem um demônio para si mesmo.

Quando a obediência não forma a vontade, a vontade transforma-se em ídolo de si mesma, e daí tiraniza o homem à maneira dos demônios. Se às vezes os demônios parecerem distantes, inativos, frequentemente é porque já internalizamos sua obra por meio da escravidão passional de nossas vidas. Há pouca coisa que necessitam fazer para que sua obra se cumpra.

Antes de tudo, a obediência molda-se e desenvolve-se mediante a correta relação do cristão com o ciclo litúrgico dos ofícios divinos. Depois, a Igreja promove a obediência por meio da aderência do cristão a seus cânones: confissão, comunhão, ações e posturas físicas, orações e comemorações. Frequentemente os tomamos como meras orientações” das quais extraímos aquilo que nos parece mais palatável e razoável. Mas evidentemente não é assim que o cânones terão espaço na transfiguração de nossos corações. Em terceiro lugar, a Igreja promove a obediência mediante a relação do cristão com seu pai espiritual.

Testemunho para o mundo

A batalha cristã é travada no coração. Assim que qualquer batalha que procure cristianizar o cosmos, se não começar no coração humano, opera com coisas secundárias, não primárias. Tal ação é análoga àquela que tenta consertar uma casa desmoronada reformando o madeiramento externo, enquanto suas fundações permanecem em estado de decomposição.

É exatamente mediante nossa atenção e dedicação a esta batalha e seus sadios contornos, que temos o poder de falar ao mundo a mensagem verdadeira de Cristo, do Espírito, e do Pai.

Viver a missão cristã no mundo exige uma ousadia renovada. É necessário ousadia para viver autenticamente a Vida em Cristo em um mundo que não exatamente a combate, mas a ridiculariza. É necessário ousadia para pensar, falar, agir, e orientar sua própria vida ao Reino, para reconhecer a realidade dos demônios, para buscar e proclamar a obediência.

Fonte: Archimandrite Irenei, The Beginnings of a Life of Prayer, St. Herman of Alaska Brotherhood, 2012, Platina, CA, EUA.

28 de dezembro de 2017

A morte de Aleksey Khomyakov




O famoso escritor de assuntos religiosos, Aleksey Stepanovich Khomyakov, faleceu em 25 de setembro de 1860, de cólera, longe de sua família, em sua quinta em Ryazan, Rússia. No entanto, há um interessante relato de sua morte deixado por um proprietário rural vizinho chamado Leonid Matveyevich Murometsev. Eis um trecho de seu relato. Quando Murometsev entrou na casa de Khomyakov e lhe perguntou o que estava acontecendo, este lhe repondeu: “Oh, nada especial, é hora de morrer. Isso é muito ruim. Que coisa estranha! Quantas pessoas curei mas eu mesmo sou incapaz de curar-me”. Segundo as palavras de Murometsev não se detectava em sua voz absolutamente nenhum pesar ou medo, mas uma profunda convicção de que não havia saída. “À uma hora da tarde mais ou menos, percebendo que as forças do doente lhe estavam deixando, eu”, diz Murometsev, “perguntei-lhe se queria receber as últimas unções. Ele aceitou minha oferta com um sorriso cheio de alegria e disse ‘Eu ficaria muito, muito grato’. Durante todo o tempo que durou o sacramento ele segurou em suas mãos uma vela, e aos sussurros orava e fazia o sinal da cruz”. Logo em seguida pareceu a Murometsev que Khomyakov se sentia melhor, fato este que desejava transmitir a sua. Faites vous responsable de cette bonne nouvelle; je n'en prend pas la responsabilité [*], disse Khomyakov a Murometsev, em tom quase jocoso. “É claro que você está melhor, veja como está mais quente e seus olhos agora brilham”, observou Murometsev. “E amanhã brilharão ainda mais!” respondeu Khomyakov. “Essas foram suas últimas palavras”, disse Murometsev. “Ele viu com muita clareza que todos aqueles sinais de aparente recuperação nada mais eram que os últimos esforços de sua vida. Alguns segundos antes de seu fim ele persignou-se com firmeza e de plena consciência. Aleksey Stepanovich Khomyakov morreu em paz”. Ele morreu assim porque seu coração sentiu o toque vivo do poder divino ao qual ambicionava – o toque do poder que vence a morte, que dá às pessoas a certeza de uma vida futura rejubilante e pessoal. E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, disse o Salvador do mundo.

[*] Seja responsável por esta boa notícia; eu não me responsabilizo.

Fonte: Mitrofan Lodyzhensky, Light Invisible, Holy Trinity Publications, Jordanville, NY, EUA, 2011. pág. 177.

São Justino, o Filósofo




Antes de sua conversão, Justino (+165) era um proeminente acadêmico. Ao estudar as escolas modernas de filosofia – estoicos, pitagóricos entre outros – deteve-se no neoplatonismo, cuja filosofia supostamente percebia a Divindade. Porém esta filosofia tampouco o satisfez. Foi então que interessou-se pelo Cristianismo. As acusações que os pagãos lançavam contra o Cristianismo nas quais em princípio ele acreditava provaram ser meras calúnias, enquanto os cristãos morriam tão corajosamente por sua fé. E eis que nesta época, exatamente quando despertava em Justino uma simpatia pelo Cristianismo perseguido, ele encontrou por acaso, à beira-mar, um mestre cristão – um ancião – cuja conversa influenciou sua decisão em converter-se ao Cristianismo. A conversa com o ancião foi longa, e sua substância foi puramente filosófica. Citaremos aqui apenas os momentos mais marcantes para Justino.

Eis como tudo aconteceu. Um dia, Justino, que vivia em uma cidade próxima ao mar (provavelmente Éfeso), estando ocupado na ocasião com pensamentos e questões sérias, saiu para caminhar em uma campina não muito distante da costa a fim de entregar-se às suas reflexões em solidão. Ele queria ficar a sós com seus pensamentos, mas conforme vagueava à beira-mar, notou que estava sendo seguido por um velho desconhecido, muito belo, que portava-se de maneira majestosa. Surpreso, Justino olhou em torno e, de maneira um tanto suspeitosa, fitou-lhe os olhos.

“Você me conhece?”, perguntou de repente o velho a Justino.

“Não”, respondeu Justino.

“Então por que você está olhando para mim?”

“Não esperava encontrar alguém aqui neste lugar quieto e tranquilo”, respondeu Justino.

Após estas palavras iniciais, travou-se uma conversa entre ambos. E esta conversa versou sobre questões filosóficas.

“Diga-me”, perguntou o velho a Justino a certa altura da conversa, “o que é filosofia e no que consiste sua felicidade?”

“A filosofia”, respondeu Justino, “é o entendimento de tudo o que existe e o conhecimento da verdade; a felicidade transmitida pela filosofia consiste na posse deste entendimento”.

Observe que o pagão Justino, o Filósofo, em essência disse exatamente a mesma coisa que encontramos hoje nos livros de nossa intelligentsia. Notamos que nada mudou nestas definições ao longo dos últimos dezoito séculos. A mente filosófica inquisitiva, naqueles tempos bem como hoje, encontram a felicidade no conhecimento. Todavia, o coração cristão, conforme aprendemos na Philokalia e na vida de Serafim de Sarov, encontra a felicidade antes de tudo na aquisição do Espírito Santo. E o conhecimento surge apenas depois, em função da consecução deste objetivo principal.

Bem, retornemos à conversa de Justino com o ancião cristão. Da filosofia o assunto da conversa mudou para o entendimento da Divindade, e eis que lhe pergunta o ancião a Justino: “Como podem seus filósofos helênicos raciocinarem corretamente acerca de Deus e afirmarem alguma verdade a Seu respeito se eles nunca viram a Deus, nunca ouviram a Deus e, portanto, nunca obtiveram conhecimento algum acerca dEle?”

Respondeu Justino: “O poder da Divindade não é visto com os olhos corporais. . . . Somente com a mente pode-se perceber a Deus. É isto o que ensina Platão, a cujos ensinamentos eu sigo”.

Dizendo isso, Justino foi levado por este assunto tão interessante. Ele começou a desenvolver perante o ancião a explicação de como, segundo a doutrina de Platão, a Divindade é percebida. Por fim, o ancião asseverou a Justino: “A mente do homem, se não for dirigida pelo Espírito Santo e iluminada pela fé (isto é, se não adquirir o Espírito Santo), é totalmente incapaz de conhecer e entender a Deus”.

E eis que o ancião começou a falar-lhe sobre o Espírito Santo, sobre o Salvador do mundo, sobre os profetas; e assim concluiu sua dissertação: “Em primeiro lugar, reze diligentemente ao Deus verdadeiro para que Ele lhe abra as portas da luz, pois somente aquele a quem o próprio Deus considerou digno de revelação pode contemplar e entender as coisas divinas; e Ele abre a todos que buscam a Ele em oração e dEle se aproximam com amor”. Dito isto, o ancião partiu.

Justino foi deixado a sós à beira-mar com seus pensamentos. Nunca mais encontraria o ancião, mas as palavras do ancião muito impressionaram ao filósofo. Justino expressou os sentimentos da ocasião desta forma:

“Uma espécie de chama explodiu dentro de mim, inflamando minha alma a esforçar-se em busca de Deus e aumentando em mim o amor pelo santos profetas e pelos amigos de Cristo. Ao ponderar sobre as palavras do [ancião], dei-me conta que a filosofia proclamada por ele era a única verdade; comecei então a ler os livros dos profetas e apóstolos e a partir daí tornei-me um verdadeiro filósofo, ou seja, uma verdadeiro cristão.”

Contudo, Justino só pôde ser tocado pelas palavras do mestre cristão porque seu coração já estava próximo de sentir a Deus. A razão superior de Justino, apesar de sua vida pagã, não estava completamente sufocada. O instinto desta razão foi despertado pelas inspiradoras palavras do ancião.

Fonte: Mitrofan Lodyzhensky, Light Invisible, Holy Trinity Publications, Jordanville, NY, EUA, 2011. Pág. 107-109. Trechos selecionados.

6 de fevereiro de 2017

A vida após a morte


1. A parábola do homem rico e Lázaro

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. (Lucas 16:19-31).

  • A parábola é sobre o estado intermediário das almas, e não após a Segunda Vinda.
  • A morte -- separação da alma do corpo -- existe na vida humana.
  • Enquanto anjos tomaram Lázaro, demônios tomaram o homem rico. Os Santos Padres falam dos telônios, isto é, de demônios que tentam as almas. Como as almas pecadoras não têm mais o corpo para satisfazerem suas paixões, tornam-se enfurecidas. Portanto, depende das condições da alma se ela será tomada por anjos ou demônios.
  • O nome do homem rico não é mencionado porque ele não é uma pessoa em relação a Deus, já que não possui a graça do Espírito em si. O noûs do homem rico atraiu-se pelo mundo material, por coisas.
  • O seio de Abraão (Deus), atrás do peito, é o coração, o amor, que constitui-se de comunhão e união, isto é, Lázaro está unido a Deus. Lázaro não se importa com o rido porque, vivendo na Luz Incriada, esquece-se do mundo.
  • O fogo no qual o rico queima é a Luz Incriada, a mesma de Lázaro. Mas como ele não morreu curado, arrependido, a Luz é experienciada como uma energia cáustica. O grau de cura ou doença determina se a pessoa recebe a Luz como luz ou fogo. Mas todos verão a Luz. 
  • Os santos ouvem as orações dos pecadores.
  • O abismo é intransponível porque os pecadores veem a Luz como fogo. Eles não têm obras espirituais (cf. a iconografia da Segunda Vinda).
  • O homem carnal é incapaz de se arrepender, não importa o milagre que lhe seja mostrado. Ele não se deixa persuadir pelos santos, e não se deixará pelos milagres.
  • Para ser curado, deve-se ouvir os profetas, isto é, os teólogos e guias espirituais. Quem não se associa a um homem deificado não poderá ser salvo (um possível substituto são os escritos dos profetas, para que aprendamos o que é o Reino dos Céus e como chegar lá).

2. A separação da alma e do corpo

  • Definição de alma. São Gregório de Nissa ensina que a alma é criada, feita por Deus, um ser vivo e noético que, com a ajuda e a energia de Deus, transmite vida ao corpo.
  • Criação da alma. A alma é criada por Deus juntamente com a gênese do corpo, e se revela e se expressa à medida que o corpo cresce.
  • Morte e pecado ancestral. A causa  da morte não é Deus, mas o pecado que o primeiro homem criado cometeu no Paraíso, por livre escolha. Deus permitiu a morte por amor e filantropia, já que dá ao homem a chance de arrepender-se e seguir uma vida espiritual. Portanto, a morte concede ao homem a chance de não morrer para sempre.
  • O mistério da separação da alma e do corpo. A morte é um mistério porque coisas misteriosas ocorrem sem que a razão humana consiga entender. A violência com que o liame alma-corpo é rompido constitui esse mistério, deixando a alma aterrorizada. São Theognostos ensina que a morte é um novo nascimento, sugerindo que, ao mesmo tempo que devemos estar alegres e esperançosos, devemos também estar vigilantes e atentos por causa dos demônios. Enquanto Deus permite que os santos vejam outros santos (visões divinas), os pecadores têm visões demoníacas. Os santos, ainda em vida, reconhecem os falecidos, isto é, eles veem suas almas, uma prova de que a hipóstase (pessoa) não se destrói com a partida da alma.
  • A taxação de almas. A alma do recém-falecido sente a presença de demônios ("demônios alfandegários"). A alma se aterroriza, mas esses demônios não têm autoridade sobre os justos (ver João 14:30).  No Velho Testamento há trechos sobre os telônios aéreos: Salmo 7:1-2, Jeremias 20:9-10. Mas importante: a alma dos que não se arrependeram estará sujeita a ação dos demônios e de suas próprias paixões. Para se livrar disso, o pecador deve confessar ps seus pecados completamente, amar os homens, pensar em Deus e Sua justiça etc. Assim, os anjos que transportam a alma poderão "muni-la" de boas obras, livrando-a dos demônios. Os Santos Padres não cogitam acerca dessas coisas, mas as conhecem por experiência iluminada. São eles que oram para que sejamos livres da "morte súbita". Por causa do liame corpo-alma, há também uma estreita relação entre paixões da alma e do corpo. Quando a alma se separa do corpo, ela não consegue satisfazer suas paixões. Tais paixões insatisfeitas produzem uma dor intolerável. É por isso que os Santos Padres urgem para que nos livremos das paixões nesta vida a fim de que nos atraiamos somente por Deus. Portanto, o importante não são os demônios alfandegários, mas curar a alma das paixões, participando assim da Luz Incriada, tudo isso em vida, para que nossa partida seja alegre e bem-sucedida. A doutrina patrística dos telônios deve ser assim interpretada: (1) a linguagem da Bíblia requer a interpretação ortodoxa adequada, (2) os demônios são pessoas e, portanto, têm liberdade e fazem mau uso da liberdade humana e os dominam, (3) os demônios não têm autoridade sobre os justos e santos, que, portanto, não passarão pelos telônios e (4) os demônios agem por maior das paixões humanas.
  • Estado intermediário. É o estado entre a partida da alma e a Segunda Vinda de Cristo. Não é um estado natural da alma, pois ela vive afastada do corpo. Os justos e pecadores aqui obtêm somente uma prefiguração do Paraíso e do Inferno. São Marcos Eugênico ensina que os justos e pecadores estão "em seus locais apropriados". Há uma distinção entre Paraíso e Reino dos Céus e entre Hades e Inferno (antes e depois da ressurreição dos corpos). Os santos, em princípio, não conseguem nos enxergar e ouvir, porque estão sem seus corpos. Mas, pela graça, como estão unidos a Deus, eles nos ouvem e recebem nossas orações, embora não estejam em seu estado natural. São Nicetas Stethatos ensina que os santos, após a morte, são carregados por anjos "até a luz principal", isto é, até o Deus Trinitário e, depois, para a luz secundária (anjos e justos) que participam da luz principal. Santo André de Creta menciona que até mesmo os santos devem descer ao Hades, a fim de que sejam iniciados na economia divina, isto é, a descida de Cristo ao Hades e Sua vitória sobre o Hades e a morte. Em suma, o estado intermediário é um estado de espera. É por isso que as orações aos mortos são importantes, já que eles mesmos não podem se ajudar. E peçamos também aos santos, já que eles têm grande liberdade junto a Deus, pois estão em Sua Luz Incriada.
  • A morte de bebês. São Gregório de Nissa explica passo-a-passo: (1) Para que na Terra não falte o elemento noético, Deus criou o homem com parte sensível e noética; (2) É o elemento noético o responsável pela comunhão com Deus; (3) A questão da morte das crianças não deve ser avaliada em função da "justiça", mas do estado natural da saúde ou doença da natureza humana. Quando nasce, o homem experimenta iluminação do noûs e, portanto, podem ter oração noética, proporcional à sua idade. As crianças, como os santos, também veem anjos. (4) As crianças podem estar sendo poupadas pela Providência de coisas futuras malignas. Deus remove a crianças do banqueta da vida, sabendo que ela fará mal uso do mundo. (5) Alguns maus não morrem facilmente, cuja razão cabe somente a Deus saber. Alguns benefícios dessas pessoas más podem ser deduzidos.

3. Experiências pós-morte


O Pe. Seraphim Rose identificou 3 traços comuns nas experiências descritas pelo Dr. Moody:


(a) As experiências "extra corporais": a alma sai do corpo, retendo sua consciência, sentindo um grande aconchego, vendo as pessoas ao seu redor, mas sem poder se comunicar com elas.

(b) Encontro com outras pessoas: logo após essa solidão de (a), a alma se encontra com outras pessoas (parentes e amigos mortos).

(c) Os "seres de luz": surge uma luz, que aumenta seu brilho, reconhecendo-se nela uma personalidade particular ("Cristo" ou algum "anjo").

Segundo o Pe. Seraphim, estas coisas também ocorrem na Igreja, mas muita confusão é gerada aí. O "Arcebispo" Lázaro sustenta que essas experiências extra-corporais são estados demoníacos. Ele aponta 3 argumentos:

(a) A experiência espiritual do Reino de Deus não pode ocorrer fora do corpo, porque é nele que se encontra o templo do Espírito Santo.

(b) Quem quer que busque a partida da alma do corpo está apenas projetando sua imaginação e suas emoções no mundo dos espíritos demoníacos, que oferecem suas próprias revelações.

(c) As experiências dos Padres da Igreja são noéticas, ou seja, se encontram nas profundezas de seus seres.

No entanto, as explicações do Pe. Seraphim parecem mais ortodoxas, já que o "Arcebispo" Lázaro usa incorretamente citações de São Gregório Palamás (ele falava de êxtase espiritual, e não de experiências extra-corporais).

Discernimento. Ver I João 4:1: Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.

Os Santos Padres ensinam que o discernimento pressupõe conhecimento e vida espirituais. São Máximo diz que a recompensa do autocontrole é a abnegação ("dispassion") e a abnegação engendra discriminação. Os Santos Padres analisam as experiências em profundidade, e não apenas superficialmente. No entanto, há um ponto extremo que pode revelar a natureza da experiência: "pelos seus frutos os conhecereis". Se, após essa visão, paz e calma prevalecerem em seu coração, é um indício que vem de Deus, mas se criar comoção (ou orgulho), vem do diabo. Resumo: a vida subsequente da pessoa indica a natureza da visão. Mesmo durante uma visão, os santos viam sua própria vergonha.


4. A imortalidade da alma


A imortalidade de acordo com a filosofia. (a) A alma não é gerada, pois pertence ao mundo das ideias e é, portanto, incriada. (b) A alma tem um valor muitíssimo maior se comparada ao corpo; na verdade, o corpo é mau, pois aprisiona a alma imortal e incriada na matéria, impedindo que retorne ao mundo de onde veio. (c) A filosofia não admite a ressurreição do corpo, pois, por ser material e criado, jamais almejaria o "retorno"; eis porque o Apóstolo Paulo foi ridicularizado quando falou da resurreição dos corpos na Colina de Marte.

A teologia ortodoxa. A alma é criada, mas imortal, não por natureza ou porque teria sido criada antes do corpo, mas pela graça. A teologia ortodoxa também não separa alma e corpo dialeticamente, pois não há dualidade no homem, que é composto de alma+corpo. Os homens não devem, portanto, se preocupar com a sobrevivência da alma após a morte (pois a alma é imortal pela graça, mesmo a dos pecadores), nem com a ressurreição dos corpos (os corpos dos pecadores também ressuscitarão): o importante mesmo é a vida em Cristo após a morte e após a ressurreição dos corpos (só prolongar a vida de nada adianta).


5. O fogo purificador


Em Ferrara-Florença. Os latinos ensinam 3 lugares de destino da alma, os ortodoxos afirmam apenas 2: paraíso e inferno, mas cada um tem muitas "moradas". No inferno estão as  que pecaram imperdoavelmente e os que pecaram moderadamente, sendo para estes as súplicas, litanias, ofícios fúnebres etc. É por Deus, e não pelo purgatório, que esperamos misericórdia. As duas grandes diferenças são: (1) o purgatório é diferente do fogo eterno do inferno e (2) o purgatório leva à visão da essência de Deus, mas como essência=energia, então o fogo purgatório é criado.

São Marcos de Éfeso

(a) Segundo a parábola de Lázaro, não um terceiro lugar, mas, pelo contrário, um "grande abismo". Como a alma não está com o corpo, não faz sentido o purgatório atormentar corporalmente a alma. O purgatório passa a ideia de que não é necessário lutar nesta vida espiritualmente. 

(b) Não há fogo purificador na Bíblia e nos Santos Padres. Quando os latinos citam os Santos Padres, acabam os interpretando incorretamente.

(c) Argumentos teológicos contra o purgatório:

(1) Se a atração pelo divino purifica as pessoas, porque não o faria após a morte purificando os pequenos pecados?

(2) A bondade de Deus não despreza os pequenos bens nem pune os pequenos pecados.

(3) Como há diferentes prazeres para os justos e diferentes punições para os pecadores, não há necessidade de purgatório.

(4) A visão de Deus se dará a todos, mas a visão depende da profundidade da purificação. Os imperfeitos na purificação não precisam, portanto, de purgatório.

(5) São Gregório, o Teólogo: "Não há purificação para além desta morte".

(6) São Gregório, o Teólogo: É melhor buscarmos a purificação aqui porque depois a vida será de "tormentos, e não purificação".

(7) Na parábola de Lázaro não há um terceiro lugar.

(8) A alma sem corpo não pode ser punida corporalmente.

(9)  O Hades não é em forma de fogo e inferno, mas como uma prisão. Após a Segunda Vinda, o inferno começará. Não é necessário, portanto, purgatório aqui e agora.

(10) Os Santos Padres, que foram iniciados por visões, sonhos e maravilhas na vida dos tormentos eternos dos pecadores, como na parábola de Lázaro, nunca jamais mencionaram qualquer purgatório.

(11) O purgatório desencoraja as pessoas a lutarem espiritualmente aqui.

(12) A vontade do homem não pode ser mudada após a morte. Como a integridade da vontade é indispensável para a beatitude, logo o purgatório não poderia contribuir a ela.


6. A Segunda Vinda de Cristo


(a) A vinda do Cristo em glória. A vinda do Cristo é caracterizado como um "dia", um "dia de julgamento". (Cf. 2 Pe 3:10, 1 Cor 1:8, 1 Cor 3:13, 1 Jo 4:17). O dia tem a ver com o sol. Cristo é o Sol da Justiça. Mas esse dia é desconhecido (Mc 13:32). Cristo afirma não saber quando virá, mas Ele disse isso enquanto natureza humana. Por ser uma Pessoa da Trindade, Cristo sabe quando virá. Mas há sinais (Mt 24) que, no entanto, são muito difíceis de detectar: é necessário ser iluminado e ter recebido uma revelação para saber com mais precisão. Assim como a luz das estrelas se extingue com a luz do sol, todas as coisas visíveis darão lugar para o Criador do céu e da terra. Em essência, o julgamento se dá nesta vida; a pessoa que vê a luz está batizada com o Espírito Santo e não leva em conta o dia do julgamento pois, por sua associação com Deus, ele é integralmente um brilhante e radiante dia. Portanto, a Segunda Vinda aparecerá somente aos pecadores, que vivem em paixões e não seguem os mandamentos.

(b) A ressurreição dos mortos. (Cf. Is 27:19, Ez 37:1-14, Jo 11:22-23). As 3 ressurreições engendrados por Cristo são uma prefiguração à ressurreição dos mortos na Segunda Vinda (Cf. Jo 5:28, Jo 11:25, Rom 8:23, 1 Tm 4:15-16, Lc 20:35-36, Fp 3:21, 1  Cor 12-16, 1 Cor 15:35-41, 1 Cor 15:43-44).( Os corpos ressurretos serão incorruptíveis, sem necessidade de alimento, repouso ou sono. Cada pessoa receberá a graça de acordo com sua capacidade; assim todos adquirirão a idade de uma pessoa madura (idade do Cristo) aproximadamente 30 anos.

Há gente que ridiculariza a ressurreição dos mortos, mas acha normal a formação de um embrião. Ambos são possíveis porque ambos foram criados pelo mesmo Deus.

O sono é um indício ou símbolo do mistério da ressurreição dos mortos (sono=morte, estar acordado=ressurreição). O sono é o "irmão da morte".

Cremar o corpo não é aceito pela Igreja, pois dá a entender que o corpo é a prisão da alma, e deve ser queimado para liberá-la.

(c) O julgamento futuro. Cristo é o protótipo do homem; é Ele, portanto, que nos julgará. 2 Cor 6:2 significa que haverá uma comparação dos santos com pecadores. Mt 22:1-14: A veste nupcial são as virtudes, mas são os frutos do Espírito Santo, e não as virtudes humanas superficiais. Os pés e as mãos amarradas são as restrições que o pecado impõe ainda nesta vida. As terras exteriores são o fogo incriado que lhe queimará após, no inferno. Mt 25:31-46): É a caridade o critério de seleção? (a) quem faz caridade é justo, gentil e anda nos caminhos das virtudes. (b) o amor pela humanidade é a virtude que está no topo de todas as virtudes. (c) quem faz caridade tem, por característica, a humildade. São Simeão diz que Cristo estará faminto por sua salvação, mas ele não Lhe dará ouvidos; Ele  foi preso no seu coração, mas ele não quis visitá-Lo. Mt 25:1-13: A virgindade refere-se à "virgindade" da alma: asceticismo, autocontrole, batalha nas virtudes. As mãos são a vida difusa da alma: arrependimento. As lâmpadas acesas são o noûs iluminado. O óleo em grande quantidade é o amor, a maior de todas as virtudes.

Portanto, o julgamento não será um processo legal, mas a revelação de Cristo da condição espiritual interior dos homens. Quem não pecou, mas também não recebeu o Espírito Santo, não terá a vida eterna. A visão da Luz incriada não é, portanto, um luxo, mas a essência e o propósito da vida.

7. Paraíso e Inferno

(a) As Sagradas Escrituras sobre o Paraíso e o Inferno 
  • (Lc 23:42) Reino de Deus e Paraíso são a mesma coisa.
  • (2 Cor 12:3-4). Os 3 céus, segundo São Máximo, são filosofia prática, theoria natural e teologia mística e, desta, o Apóstolo Paulo foi levado ao Paraíso.
  • (Ap 2:7). André de Cesareia diz que a "árvore da vida" é uma referência perifrástica à vida eterna.
  • Inferno: Mt 25:46 e 1 Jo 4:18.

(b) Os Santos Padres sobre Paraíso e Inferno

Paraíso e Inferno não existem segundo o ponto de vista de Deus, mas do homem. Ou seja, Deus é Paraíso para os santos e Inferno para os pecadores; Deus nunca se opõe aos homens, mas os homens é que se opõem a Deus. Santo Isaque, o Sírio, ensina que Paraíso é o amor de Deus, isto é, a energia incriada divina. Portanto, o Inferno é o tormento do amor de Deus; seria absurdo dizer que o Inferno é a ausência de Deus. São Teofilacto: o sol derrete a cera, mas endurece a argila. O fogo tem dois poderes: cáustico e iluminador.

(c) Paraíso e Inferno na vida da Igreja

A comunhão também atua de acordo com a condição espiritual de cada um: se a pessoa é impura, o queima, se está lutando para ser purificado ou está deificado, então o ajuda.

A iconografia da Segunda Vinda mostra que a luz em torno dos santos vem do trono de Deus, e do mesmo trono vem o rio de fogo que queima os pecadores.

8. A restauração de todas as coisas

A teoria da restauração de todas as coisas (palingênese) implica que não há Inferno eterno.

(a) Filosofia e teologia antigas. Orígenes ensinava (séc. III) que as almas em geral precisavam de mais tempo para se purificarem, reencarnando sucessivamente (reciclagem de almas).

Em Atos 3:19-21 aparece a expressão "restauração de todas as coisas", mas deve ser entendido como a renovação da criação quando da Segunda Vinda.

(b) Os intérpretes sobre São Gregório. Não concorda em tudo com Orígenes e, segundo o autor, nem com a restauração de todas as coisas.

(c) Comentários do autor. São Gregório forneceu a forma final do credo sobre o Espírito Santo. Como pode uma teoria rejeitada nos sínodos que participou ser defendida por ele? Ele é o "Padre dos Padres". Sobre a filosofia, São Gregório vê na vida de Moisés um símbolo: a cesta é a educação nas diversas disciplinas que, apesar de não deixá-la afundar, acaba nas margens, a filha do faraó estéril é a filosofia profana. Mas quando subiu a montanha, Moisés se sentiu envergonhado por ser filho de uma mulher estéril. É a vergonha daqueles que atingem a visão de Deus e foram anteriormente chamados de filhos da filosofia. Portanto, São Gregório critica a filosofia, afirma que há algo de estéril e incircuncidado nela. Mesmo que se ocupe com Deus e, portanto, tenha certa piedade, ela é um tanto carnal. Ora, São Gregório não era um filósofo, nem se deixou enredar por filosofias, pois era um santo deificado, além de intelectualmente dotado. Alguns intérpretes entenderam errado São Gregório, que ensinava que, de fato, os deificados serão sucessivamente purificados, incessantemente. Mas isso não vale para aqueles que não se arrependeram. A restauração dos punidos é apenas o despir das vestes da pele da decadência e da mortalidade, a qual os pecadores também passarão. Os santos são entendidos pelos santos. São Marcos de Éfeso explicou que tanto São Gregório quanto São Máximo entendiam o "fogo purificador" como sendo o fogo eterno e a punição eterna. São Máximo acha que São Gregório exagerou ao enfatizar a restauração dos poderes da alma. Isso não é um "erro" propriamente dito. O que São Gregório quis dizer é que os pecadores também adquirirão o conhecimento das coisas boas e se conscientizarão que Deus não é o culpado pelo mal, embora não tenham participação em Deus.

9. Vida eterna

O desenvolvimento no século futuro

(1) O homem foi formado à imagem e semalhança de Deus, sendo que "semelhança" indica movimento em direção a Deus.

(2) O criado move-se em direção ao Incriado, mas nunca o atinge, pois jamais se tornará incriado por natureza.

São Máximo, em oposição a Orígenes, cunhou a expressão "fixidez que sempre se move" e "movimento estacionário".

Orígenes = movimento/devir/fixidez

São Máximo = devir (criação do mundo)/movimento (depois Deus introduziu o movimento-ascese)/fixidez (sempre em movimento)

10. Escatologia diacrônica

  • Na concepção ortodoxa do tempo, vivemos a unidade do passado, presente e futuro, pois nos santos o passado e o futuro são vividos como presente. É por isso que, na Igreja, falamos em escatologia diacrônica (escatologia = últimos dias). 
  • São Gregório Palamás identifica na Bíblia três maneiras nas quais o Reino de Deus se explica: o Reino de Deus está vindo (arrependam-se), o Reino de Deus veio (e está dentro de nós(Lc 17:21)) e o Reino de Deus virá (em sua glória e plenitude). O Reino de Deus é, assim, o próprio Cristo e a graça incriada.
  • O Velho Testamento está cheio de visões de Deus, por deificações. Portanto, havia, sim, deificados no Velho Testamento.
  • Todas as aparições de Deus no Velho Testamento eram o Verbo, e não o Pai, e era pelo Verbo que os profetas tinham comunhão com o Pai. Ver hinos da Igreja e 1 Cor 10:1-4 e Jo 6:31-41.
  • Mesmo assim, como a morte ainda não havia sido abolida, foram levados ao Hades, de onde Cristo os libertou.
  • O Apóstolo Paulo atingiu o terceiro céu: (1º) purificação do coração, (2º) iluminação do noûs e (3º) theosis.
  • 1 Cor 13:12: "conhecer em parte" é a iluminação, o conhecimento parcial, que é a oração noética.


Epílogo

Há duas maneiras de lembrar a morte:

(1) racional = nos leva ao desapego das coisas materiais.

(2) existencial/carismático = fruto da experiência de Deus, um dom espiritual, que nos leva à oração fervorosa, ao esforço ascético intenso.

Fonte: Metropolitan Hierotheos Nafpaktos,  Life After Death, Birth of the Theotokos Monastery, 1996, Levadia, Grécia. anotações pessoais.