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7 de fevereiro de 2011

Platão na Igreja

O conhecimento que a inteligência possui, o conhecimento do bem e do mal, é apenas uma parte do conhecimento inato do homem. O homem nasce com um vasto tesouro de conhecimentos que pertencem ao mundo criado como um todo e a Deus. Este conhecimento é chamado de "conhecimento natural" (physiké gnosis). Platão sabia da existência deste conhecimento e tentou explicá-lo através da teoria da pré-existência da alma. Os Padres gregos rejeitaram a teoria da pré-existência e explicaram este conhecimento referindo-se à doutrina bíblica de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Em Deus estão contidas as razões, idéias ou arquétipos de todas as coisas. Por isso, diz-se que Deus é a perfeita Sabedoria. Ao contrário de Platão, que hesitou em alocar as idéias ou arquétipos na Mente Divina, tornando-os um fator metafísico independente, os Santos Padres negavam-lhes toda e qualquer existência independente, sustentando que seu ser estava inserido na Mente Divina. Ora, dado que o homem foi criado à imagem de Deus, ele tem de refletir em si Deus e, portanto, todas estas idéias.
Dr. Constantine Cavarnos, Orthodoxy and Philosophy, p. 194-195.
O anátema a seguir [do Quinto Concílio Ecumênico] deixa claro quais são os limites aceitáveis da educação filosófica:
"Aos que perseguem o saber helênico e são formados por ele, não apenas como disciplina educacional, mas seguem suas opiniões vazias e crêem que elas sejam verdadeiras, e portanto envolvem-se nelas como se possuíssem certeza, de maneira que iniciam outros nelas, seja secretamente ou abertamente, e as ensinam como sendo indubitáveis: Anátema!"
As reminiscências da condenação ao origenismo deixam claro que esta condenação deveu-se em parte à recrudescência de um antigo antagonismo entre a herança da filosofia clássica e a tradição do evangelho. Porém, é importante notar que este antagonismo é bem menos evidente do que parece. Os anátemas têm em mente uma forma específica de platonismo, e chegam a fazer mênção a ela. João Mauropous, mestre de Miguel Pselo, ficou famoso entre outras coisas pelos poemas que suplicavam a Deus para que tivesse misericórdia de Platão (e Plutarco), pois "ambos aderem estreitamente em palavras e em caráter às Tuas leis". Mas não eram apenas os representantes da "sabedoria exterior" como Mauropous que reverenciavam Platão: Santo Atanásio o chamava de "o grande entre os gregos", e em uma obra atribuída ao abade do século VII do Sinai, Anastácio, consta a história de um cristão erudito que habitualmente praguejava contra Platão, até que um dia o próprio Platão apareceu a ele dizendo: "Ó homem, pára de me amaldiçoar, pois assim fazes mal apenas a ti mesmo. Não nego que era um pecador, mas, quando o Cristo desceu ao inferno, ninguém acreditou nEle antes do que eu".

O afresco acima é do Mosteiro Sucevita, Romênia, e representa Platão ao lado de outros onze filósofos pagãos que, juntos, rodeiam Jessé em alusão à "Árvore de Jessé", ou seja, a todos aqueles que profetizaram ou anteciparam a Encarnação de Jesus Cristo: Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará (Isaías 11:1). O texto de Platão parece ser uma variação de um texto semelhante encontrado em um prato de ouro no interior de um caixão (do próprio Platão, segundo a tradição), aberto em Constantinopla nos tempos de Constantino e Helena. Esta história foi contada, por exemplo, por Tomás de Aquino e Paulo Diácono, segundo Brian Rowlands. O pergaminho diz o seguinte: "Cristo nascerá de Maria Mãe de Deus, e eu creio nEle. Ó Sol, nos tempos de Constatino e Helena, Tu me verás novamente".

23 de janeiro de 2011

Filosofia bizantina I


Por que raramente ouvimos falar da filosofia bizantina? Há várias explicações. A primeira é o desprezo com que o Império Bizantino é tratado pela historiografia ocidental. Embora este viés esteja sendo lentamente revertido nas últimas duas décadas, não deixa de ser espantoso que a civilização mais duradoura da história humana, aquela em que a doutrina cristã desenvolveu-se mais intensamente e tantos santos místicos e sábios tenham nascido, vivido e morrido, seja menosprezada, quando não completamente suprimida, de livros de história, teologia e filosofia. A segunda explicação é o papel que a filosofia desempenhava entre os bizantinos, um tanto estranho entre nós. Como veremos neste primeiro artigo de uma série de cinco sobre a filosofia bizantina, o espaço destinado à filosofia era mais estreito e modesto do que o que estamos acostumados atualmente (ver também A filosofia esotérica). Em terceiro lugar, a filosofia patrística e a filosofia bizantina se sobrepõem em muitos pontos; há séculos em que ambas são simplesmente idênticas. Filósofos importantes como João Filipono e Miguel Pselo ficam naturalmente ofuscados por figuras como São João Damasceno e São Fócio, o Grande. Em quarto lugar, a influência do neoplatonismo foi freqüentemente mal-compreendida e exagerada pelos estudiosos dos santos bizantinos, o que os rebaixa de cristãos a meros neoplatônicos.

Neste primeiro artigo, vamos examinar Christian Philosophy in the Patristic and Byzantine Tradition, de Basil N. Tatakis. Trata-se de uma obra composta por ensaios que não foram previamente pensados para formarem um livro. Embora um tanto confuso e às vezes repetitivo, seu caráter introdutório vem a calhar para quem deseja abordar o assunto pela primeira vez.

Tatakis nega a opinião de que não existe filosofia cristã porque não haveria relação entre fé e filosofia – opinião tipicamente racionalista –, assim como nega a redução da fé à própria filosofia – neotomismo – e também nega a idéia de que a fé seja algo totalmente sublimado em relação à filosofia – agostinianismo. Para ele, Étienne Gilson estava certo: uma simples avaliação histórica basta para provar que o Cristianismo influenciou profundamente filósofos como Descartes, Leibniz e Kant, os quais seriam impensáveis sem as noções cristãs de livre arbítrio, graça etc. Em outras palavras, se os filósofos modernos bem ou mal tiveram de levar em consideração os filósofos bizantino, deduz-se daí que o que fizeram foi efetivamente filosofia, e não outra coisa.

Metafísica cristã

Tatakis explica que o estoicismo, as filosofias de Platão, Sócrates, Plotino etc. buscam a contemplação – a união com Deus – mediante a razão, a qual por sua vez provocaria uma mudança análoga na vontade. O Cristianismo introduz a fé como o elemento que realmente efetivará esta união. O êxtase plotiniano é uma condição passiva; o êxtase cristão é ativo, é a energia divina que torna o santo instrumento da vontade divina. A filosofia chama os poucos gênios de eleitos; o Cristianismo afirma que todos são eleitos pela fé. A filosofia pretende alterar a vontade pela razão; o Cristianismo pretende alterar a vontade pela fé, que é algo mais amplo e profundo do que a razão.

Tudo o que havia de verdadeiro entre os pagãos se devia a (1) o fato dos gregos serem “ladrões de Escrituras” (Clemente de Alexandria) e (2) as criaturas naturalmente denotarem a existência do Criador (São Paulo).

A revelação natural é capaz de condenar e salvar o pagão. São os “cristãos antes de Cristo”, nas palavras de São Justino, Filósofo e Mártir. São as sementes do Logos. O Cristianismo é a filosofia perfeita, completa e verdadeira. A revelação completa a filosofia.

O espírito cristão inverte a fórmula filosófica de que a razão impregnada pela fé se tornaria irracional. A razão sem fé é que permanece irracional, pois se constrói sobre areia, sem os princípios dados pela fé. É isso que Santo Agostinho conclui em De Utilitate Credendi.

O filósofo cristão, embora possa versar sobre todos os assuntos que os demais filósofos versam, interessa-se, por inclinação, às questões ligadas à alma, fé, experiência e união com Deus. Leôncio Byzantius (séc. VI) afirma que se dedicar a outros assuntos – “tecnologizar”, ou seja, prosseguir na subdivisão dos seres – é ocupação de céticos, de quem se dedica a buscas infrutíferas e sem-fim. Como esse tipo de busca não tem fim, conclui-se forçosamente que também não faz sentido.

Os primeiros séculos

O cientista formula uma lei ou reage a partir da detecção da causa de um fenômeno. Mas uma criação espiritual, que é um conjunto organizado e complexo que preenche a alma, não admite explicação (exegesis), mas interpretação (hermeneia). Isso abre a possibilidade para múltiplas interpretações. As noções essenciais do Cristianismo não se esgotam. A tarefa dos mestres cristãos é, portanto, estabelecer os limites dentro dos quais pelo menos a essência da religião se mantenha.

Duas escolas interpretativas se formaram:

1)      Alexandria (fim do séc. II). Clemente de Alexandria e Orígenes delinearam os princípios da escola: (a) liberdade de investigação; (b) elevação, ou transformação, da fé em conhecimento, com a ajuda da filosofia; (c) emprego do método alegórico de interpretação. Os principais expoentes desta escola foram Eusébio de Cesaréia, Santo Atanásio, o Grande, São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, São Cirilo de Alexandria, entre outros. Apenas um herege se destacou nesta escola, Orígenes, que ensinava, entre outras coisas, que o mundo é eterno, a alma pré-existe ao corpo, a restauração final de todas as coisas e a inexistência da ressurreição dos corpos. Esta escola salvou a fonte mística da religião, adotando o racionalismo somente no que tangia a explicação do dogma, a qual, em sua essência, sempre permanecia mística e misteriosa. Esta escola é inimiga do antropomorfismo, pois reconhece que há uma distância incomensurável entre Deus e as criaturas.

2)      Antioquia (meados do séc. III). Fundada por São Luciano de Antioquia (não confundir com Luciano de Samósata), mestre de Ário. Esta escola faz uso do método histórico-literário, em voga até hoje. O criador deste método é Teodoro de Mopsuéstia, que rejeitava as alegorias como sendo “histórias para velhinhas” e voltava-se apenas para o sentido gramatical das passagens. A consequência negativa desta escola é rebaixa as Escrituras Sagradas ao nível de um texto qualquer. Suas tendências racionalistas criaram as principais heresias: arianismo, nestorianismo, pelagianismo (Teodoro de Mopsuéstia)

Teodoreto de Ciro procurou sintetizar as duas escolas. Tatakis entende que, por causa disso, sua obra deveria ser mais bem estudada e valorizada.

Introdução ao pensamento bizantino

O Império Bizantino não é mais visto pelos estudiosos como o império que simplesmente obteve a custódia da cultura grega. Em verdade, o Império Bizantino foi um império profundamente original e criativo. No entanto, essa criatividade só pode ser captada por aqueles que investigam os verdadeiros anseios da alma bizantina. A alma bizantina, desde o imperador até o mais baixo dos súditos, buscava ardentemente sua salvação. O anseio de viver os mistérios do Cristianismo, aliado à localização geográfica que os tornaram herdeiros da antiga cultura grega, explicam a união simbiótica entre estes elementos. Os bizantinos tinham a missão de seguir a ordem divina, ou de pelo menos se aproximar dela o mais que possível. A convicção de que o Cristianismo é a verdade plena e íntegra, e não apenas sementes da verdade, guiava as ações e instituições bizantinas.

O Império Bizantino é um fenômeno único: São Gregório de Nissa nunca deixava de se espantar como todos, em toda parte, preocupavam-se e debatiam acerca de questões religiosas.

A civilização e o pensamento bizantinos começaram no fim do século V, quando o Ocidente foi dominado mais profundamente pelos bárbaros e foi se afastando-se e esquecendo-se da cultura grega. Dois perigos sempre rondaram o pensamento bizantino desde então: o apego excessivo à retórica e ao grego ático e o apego às aparências do Cristianismo Ortodoxo – monotelismo e iconoclasmo seriam exemplos deste caso.

O que a Ortodoxia significa

Os grandes teólogos do Império Bizantino faziam uso constante da filosofia antiga. São Máximo, por exemplo, explicou contra os monotelitas que a vontade não é propriedade da pessoa, mas da natureza (physis) ou essência (ousia), sobre a qual a pessoa se funda. A idéia de que duas naturezas implicam em duas vontades é um princípio evidentemente aristotélico.

Assim, podemos dizer que o sentido da Ortodoxia não é discutir ou debater acerca de dogmas. A Ortodoxia parte do princípio, por intuição interior (fé, conhecimento místico) que o dogma simplesmente é. O que a Ortodoxia faz é fornecer uma explicação racional para o dogma. É imprescindível que o estudante do Império Bizantino compreenda isto.

Outro exemplo é o de São João Damasceno. Ele afirma que Deus está para além de toda natureza, de toda razão, de todo silogismo. Deus não é similar a nenhum dos seres que existem (ver p. ex. A doença da religião e sua cura, do Pe. John Romanides). Deus é como um oceano de existência infinita e, portanto, é “indiscutível”. Por isso, o nome que melhor descreve Deus é “Aquele Que É”. Deus é o único ser cuja essência é existência. Deus concede existência a todas as criaturas. A tarefa do pensamento cristão, portanto, não é entender a essência de Deus, mas buscar a salvação da existência do homem. O homem foi criado do nada, como todas as criaturas, mas deseja permanecer constante no ser. Assim, o temor causado pela morte é a perda do ser.

Observamos neste exemplo como os bizantinos faziam uso intenso da lógica dialética de Aristóteles (Organon), ao mesmo tempo em que rejeitavam a metafísica aristotélica.

Leôncio Byzantius concluía que os hereges não apreendiam a plenitude da natureza do Cristo por causa dos termos que utilizavam. Eles não se preocupavam em definir o significado dos termos fundamentais. Os termos podem ser usados em sentido absoluto ou relativo. Por exemplo, o numeral “dois” não deve ser visto como quantidade de pessoas. Cristo é dois em natureza, mas um em pessoa. Cada número é verdadeiro segundo pontos de vista distintos.

Por um lado, os termos não devem ser afetados pelo tempo e pelo espaço; por outro lado, os termos referem-se àquilo que está presente agora, e não àquilo que estará presente daqui a alguns instantes, no futuro. Assim, nenhum objeto admite um termo que descreva sua essência de maneira absoluta. Nenhum objeto deste mundo é constante em essência, pois tudo está em devir.

O princípio metafísico basilar do Cristianismo é justamente “Tu és o mesmo em Ti”, somente Deus é existência, somente Ele é ser. Assim, Leôncio redefine, segundo princípios metafísicos cristãos, termos como essência, natureza, gênero, espécie, distinção, propriedade, acidente, hipóstase etc.

A razão é usada por São João Damasceno para refutar crenças supersticiosas, como a idéia de que as estrelas e os céus têm almas, e por João Filipono para refutar a astrologia, pois ela anularia o livre arbítrio humano.

A diferença entre neoplatonismo e Cristianismo é que o neoplatonismo é uma teoria filosófica fundada sobre um tema racional, buscando o conhecimento do ser, enquanto o Cristianismo busca a salvação do ser. As heresias se interessam mais pela articulação e coerência racional do que pela percepção da nova racionalidade do Evangelho. O Cristianismo corre o risco de se transformar em uma filosofia precisamente no momento em que procura sintetizar uma doutrina do Logos. O Cristianismo beneficiou-se do neoplatonismo, assim como da lógica aristotélica, mas graças a São Máximo e outros Padres, escapou do idealismo da filosofia grega e do fatalismo engendrado pela necessidade natural e eterna do neoplatonismo.

Misticismo bizantino

Há, na opinião de Tatakis, duas grandes correntes coexistentes de misticismo:

1)      A forma exterior, popular, de orientação mais “oriental”. Formada principalmente no deserto do Egito, cujo objetivo principal era a “luta contra a carne”. O tema principal são as virtudes e seus vícios correspondentes. O maior expoente é São João Clímaco. Sua “Escada da Ascese Divina” foi a obra mais popular entre monges e leigos ao longo do Império Bizantino. As principais virtudes são a fé, a esperança e o amor, sendo que a maior de todas é o amor, ainda segundo São João Clímaco. O apego erótico da alma a Deus enriquece a vida emotiva, e é daí que o idealismo moderno se deriva. O sentido cristão de pecado, aliado à idealização da mulher na figura da Virgem Maria, dá o tom do eros a Cristo, culminando no casamento místico com Deus. A impassibilidade é alcançada, mas não à maneira dos estóicos, que a vêem como o objetivo ascético, mas como etapa penúltima, antes da deificação.

2)      A forma interior, mais completa, superior, de orientação mais “grega”. Os principais expoentes são São Máximo, o Confessor e, mais tarde, São Simeão, o Novo Teólogo. Há dois tipos de verdade, segundo São Máximo: (a) a verdade que se obtém com a razão, fruto de silogismos; os mundos sensível e inteligível se correspondem mediante alegorias e símbolos; cada mundo é uma alegoria e um símbolo do outro: as espécies do mundo sensível são símbolos do mundo inteligível, enquanto os conceitos e silogismos organizam o mundo sensível no inteligível em padrões racionais; (b) a verdade que se obtém pela intuição do noûs, que une o homem com Deus; neste caso, é necessário um processo ascético que adquira as virtudes do amor, da prudência e da oração: o amor pacifica a potência irascível da alma, a prudência aplaca a potência apetitiva e a oração separa a mente dos pensamentos, apresentando-a nua para Deus; os pensamentos são percepções de seres existentes, não importando se sensíveis ou inteligíveis, que ocupam a mente com conceitos deles derivados; a oração desconecta o noûs desses conceitos, reconectando-o a Deus; o amor é fundamental para que nos tornemos um com Deus, da mesma forma que, por amor, Cristo se tornou homem; a oração efetivará seu objetivo quando o homem, enfim, perceber que ser é superior a conhecer.

No entanto, São Máximo não afirma que o conhecer é ruim ou inútil, pois o conhecer revela os mistérios residentes na raiz das coisas, conferindo o ímpeto para separá-las e estabelecer o homem na razão do ser. Portanto, o conhecimento estimula a superação de si próprio.

A antropologia de São Máximo ensina que o homem tem o dever intenso de voltar a encontrar a condição inicial da natureza humana, de realizar em si a natureza que Deus lhe deu, agindo segundo essa natureza: razão, noûs (imagem) e lei e virtude (semelhança). É a pura autognosia (autoconhecimento) cristã.

São Simeão procura fazer uma síntese de São Máximo e São João Clímaco. Segundo São Simeão, o maior dom de Deus aos homens é a autodeterminação, a capacidade do noûs elevar-se e unir-se a Deus, o Senhor da salvação e da misericórdia. A vontade se estende para além da autodeterminação, alcançando coisas que estão fora do controle humano. Além da vontade, as paixões também restringem a autodeterminação: as paixões naturais (fome, sede, sono etc.) são irremovíveis, mas as paixões da alma (desejo, raiva), que fazem parte da autodeterminação, foram desvirtuadas pela Queda e pelo pecado. A Queda, no entanto, não apagou totalmente a autodeterminação, pois ainda há traços do desejo de ser livre.

O cristão é aquele que tem consciência da “doença inteligente da alma”. Quem ainda não atingiu este estágio não deve a rigor ser chamado de cristão, pois não foi iluminado pelo Sol da justiça. Quando é capaz de dizer a Deus que “o valor da autodeterminação, para mim, era como uma besta irracional quando é libertada de suas correntes”, então o desejo e a raiva estarão sendo usados de maneira apropriada, em busca dos “bens inteligentes” de Deus.

Quanto à oração, há três abordagens: (a) emotiva e imaginativa (falsa, que com o tempo torna-se demoníaca), (b) restrita a leituras, sem prática (melhor que a anterior, mas apenas como a noite de lua cheia é melhor que a noite sem lua), (c) guiada por um pai espiritual, que leve o fiel à união com Deus.

A natureza humana é “mutável e cambiável, exatamente como os hábitos”. O amor do Evangelho é alcançado quando o homem combina a potência racional com a potência natural do amor. A potência natural do amor representa apenas os primeiros passos; depois vem o amor voluntarioso, o amor do Evangelho, quando há uma mutação completa do noûs. É aí que ocorre a visão divina, a audição de palavras inefáveis. Em seguida, o conhecimento divino, a sabedoria do Logos, o abismo dos conceitos e mistérios ocultos do Cristo.

Os silogismos conceituais são movimentos da mente em direção àquilo que está no futuro, em direção a algo que ainda não foi realizado. Isso porque um conceito nada mais é do que uma memória gerada pela mente para algo desejado ou para algo que ainda não ocorreu. Trata-se de visões indiretas. A visão de Deus (theoria) é necessariamente direta, que é objetivo de todos os homens, e não para alguns eleitos, como o êxtase platônico. Teologia é, portanto, uma narrativa daquilo que foi visto; é uma história, e não uma série de silogismos e conceitos.

Segundo São Nicolau Cabasilas, se o homem quiser seguir a lei do espírito, não é necessário que se esforce intensamente, que “transpire”, que abandone o trabalho, que vista roupas estranhas e que viva uma vida esquisita, afastada. O propósito é descrever a graça divina no interior de um cristão comum. São Nicolau não descobre o homem espiritual no monge asceta, mas na natureza humana que Deus nos comunica e chama todo cristão a descobrir. São Nicolau não abandona a razão – é um exímio estudante de astronomia, por exemplo –, mas, pelo contrário, chama os santos de imperfeitos, pois não teriam realizado aquilo que tinham em potência.

Depois de fracassar em seu debate com Gregoras, Barlaão dirige-se a Tessalônica e, em seguida, ao Monte Athos. Chamando os hesicastas de “vigilantes do peito”, Barlaão argumentava que a theoria é, na verdade, a ciência e o conhecimento. A sabedoria exterior, ou seja, o estudo de Pitágoras, Platão, Aristóteles etc. seria o caminho para a purificação da alma. A Luz incriada, conforme teria sido vista pelos apóstolos, não pode ser realmente incriada. Raciocinando à maneira escolástica, a disputa entre Barlaão e São Gregório Palamás tornou-se um símbolo das divergências entre Oriente e Ocidente, entre a teologia discursiva e a teologia narrativa. O erro neoplatônico é desprezar completamente a matéria, é achar que a oração deve ser feita fora do corpo: São Gregório e os hesicastas ensinavam a oração no coração. O homem tem contato com uma das energias, que são infinitas. A nuvem divina, São Gregório ensina, baseando-se em São Dionísio, o Areopagita, é a essência divina, de onde a energia divina deriva. Como isso é possível, só Deus sabe e aqueles que assim a experienciaram. Quem não teve essa experiência não pode realmente saber disso.

A disputa iconoclasta

A disputa iconoclasta é uma manifestação da verdadeira disputa por trás de todas as heresias cristãs: a contenda entre racionalismo e misticismo. A influência árabe-muçulmana é evidente, embora não explique toda a contenda. Segundo o Islã, os ícones vão de encontro à idéia de onipotência e infinitude divinas. Os símbolos artísticos que decoram as mesquitas assumem as mais diversas formas, sem limites, assumindo a possibilidade de serem perpetuados ad infinitum. Deus não tem forma, daí a decoração abstrata.

O imperador iconoclasta Constantino V afirmava que os ícones circunscrevem a natureza divina, que seria indescritível. A matéria inativa e morta esteriliza a glória do Cristo. Esse tipo de racionalismo é semelhante ao monofisitismo, que via em Jesus Cristo somente Sua natureza divina.

O Patriarca Ecumênico Germanos, por outro lado, fazia a distinção entre latreía (adoração) absoluta e latreía relativa. A relativa é um meio para um propósito superior, de elevar a adoração a Deus. A matéria não desempenha nenhum papel na adoração, que é dirigida ao protótipo ali representado. Nos ícones do Cristo, é Sua forma humana que está ali inscrita, e não a Sua divindade inconcebível e invisível. A forma exterior não deve confundir a adoração cristã com a adoração pagã: é o sentido interior que o dita e explica.

São João Damasceno dizia que “é o Senhor, ao dizer que seus discípulos eram bem-aventurados, que ensinou que 'bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem; porque em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram'"..

São Nicéforo explicou como a tradição era formada. Quando algo dura, transforma-se num hábito. Este hábito então adquire o poder da natureza, que é a coisa mais poderosa que existe. Mas o que faz a tradição se transformar em hábito e depois em natureza? Ele ensina que a . A tradição não se explica por “provas técnicas” da “sabedoria exterior”, nem pelos sinais exigidos pelos judeus. A fé é o princípio mais inabalável, é aquilo que verdadeiramente fornece os primeiros princípios. Recentes pesquisas indicam que cientistas e filósofos progridem em seus campos por causa da fé que transcende a racionalidade de seus dados, uma fé que, em última instância, não pode ser provada. Os ícones são, portanto, um meio de apresentar a tradição e a história da fé. Mas os ícones não são, como alguns imaginam, uma mera representação da história da fé para fins populares e paroquiais. Na verdade, os ícones fazem com que o espírito humano, de maneira imediata e direta, veja as coisas ali inscritas como se estivessem vivas, ali mesmo, diante dos olhos do fiel. As palavras levam o espírito a uma “visão” meramente indireta ou tácita. Os ícones são os melhores pontos de partida da estrada metafísica.

Predestinação e autodeterminação

Platão, no fim de seu famoso tratado político (República 614b3) conta o mito de Er. Em suma, ele ensina que a vida da alma e suas qualidades são determinadas ou especificadas pelas condições que a cercam. Assim, existe liberdade apenas antes da alma fazer sua escolha antes de encarnar-se. Nas Leis, Platão ensina ainda que somente as almas que não experimentaram a filosofia têm de escolher. Escolha implica em ignorância, enquanto o filósofo detém conhecimento. Os demais só têm chance de salvação se viverem onde os filósofos governam.

Similarmente, Aristóteles conclui que o melhor a fazer é levar uma vida teorética (contemplativa), vivendo de acordo com aquilo que há de superior em nós, a razão.

Para ambos, escolha e liberdade são imperfeições. Verdade e liberdade é uma contradição de termos.

Epicuro procura preservar a liberdade individual alegando que as ações deixariam de ser moralmente imputáveis caso fosse o contrário. Mas a explicação de Epicuro acaba sendo meramente cosmológica, afirmando que existem “ídolos” de seres formados pelo fluxo incessante de minúsculas partículas de todos os corpos, que, depois de apreendidas pelo espírito, causam a vontade de mover o corpo desta ou daquela forma. É um determinismo psicológico, no final das contas.

Carnéades (séc. II a.C.), exímio filósofo, julgava que a vontade não depende de causas exteriores. Sua teoria infelizmente não exerceu muita influência.

Os estóicos também submetem sua explicação a causas cosmológicas. Para expressar seu pensamento, Crisipo adotava a seguinte imagem: um cone e um cilindro estão em estado de repouso no alto de uma colina. Seu repouso é perturbado por um impulso, quando então os dois corpos desabam colina abaixo. Porém, percebe-se que cada um cai à sua própria maneira: o cone cai como um cone, o cilindro cai como um cilindro. O problema do homem é justamente cair segundo a espontaneidade particular de sua própria natureza, a qual, segundo os estóicos, nada mais é do que a razão.

O Cristianismo ensina que Deus prescreve leis para os homens, mas permite que eles criem leis para si próprios. A principal diferença entre estóicos e cristãos é que estes acreditam na autodeterminação. A verdadeira liberdade é não pecar, é a vontade de um ser livre não se escravizar ao pecado. Ao pecar, Adão perdeu sua liberdade, restando-lhe apenas um resquício de vontade de tornar-se livre. Mas, ensinam os cristãos, o retorno a esta primeira natureza exige a ajuda da graça divina.

A diferença entre as crenças pagãs e o Cristianismo é notória do ponto de vista da criação. Os pagãos – estóicos inclusive – ensinam que o mundo é eterno. Deus é uma espécie de princípio interpretativo do universo, um Deus que, no fundo, é meramente cosmológico – o Primeiro Motor de Aristóteles e o princípio ativo e racional dos estóicos são alguns exemplos. O Deus cristão é autenticamente metafísico, suprapessoal e supernatural, já que separa radicalmente Criador de criatura. O Deus dos cristãos é uma pessoa, e não um princípio interpretativo. Assim, ao mesmo tempo em que Deus é super-substancial, o Cristianismo objetiva livrar o homem de sua dependência cosmológica, a fim de que possa ser deificado.

O consentimento heróico dos estóicos não deixa de expressar sua submissão ao destino. Em verdade, a postura cristã é semelhante a de Sócrates, que dizia que o homem deveria ser o regulador de todas as coisas “que estão ao seu alcance”. Os cones e cilindros estóicos estão submetidos à necessidade absoluta. A espontaneidade da autodeterminação cristã não a acorrenta à necessidade.

São João Damasceno, São Marcos de Éfeso, Gennadius Scholarius, seu discípulo Teófano de Medéia e muitos outros, ao longo de toda a vida cultural bizantina, defendem a autodeterminação.

Tatakis não deixa de notar que a predestinação protestante explique, pelo menos em parte, o determinismo cientificista que caracteriza a modernidade.

Platão e Aristóteles no Império Bizantino

Platão e Aristóteles foram introduzidos no Império Bizantino de duas formas: (1) indiretamente, através do neoplatonismo, (2) diretamente, através da leitura de seus próprios textos.

Embora sejam inimigos, neoplatonismo e Cristianismo compartilham da mesma "ânsia", o que acabou por criar certa afinidade entre eles. O movimento psíquico das coisas sensíveis para o mundo inteligível e o retorno da mente para o Uno são aspectos que, de certa forma, chamaram a atenção dos Santos Padres. Não se deve esquecer que ambos cresceram juntos no grande caldeirão cultural de Alexandria.

Praticamente não existiu autores bizantinos que não tenham se beneficiado de Platão e Aristóteles, seja na forma de adoção crítica, seja por simples rejeição. São João Damasceno adotou intensamente a forma lógico-dialética de Aristóteles, e ainda mais o fizeram os aristotélicos do século XII, como Miguel de Éfeso, Eustrácio de Nicéia, Nicolau de Methone etc.

Os diálogos de Platão foram igualmente influentes. Nos séculos V e VI, diversos diálogos de forma platônica foram criados para defender as doutrinas cristãs. Os mais importantes foram os de Enéas de Gaza (séc. VI) e os diálogos de seu amigo Zacarias de Gaza, Bispo de Mitilene. Todos preservaram a graciosidade platônica, o fluxo natural, a formação do ethos. Mais tarde, do século XI em diante, há João Mauropous (Bispo de Euchaita), brilhante hinógrafo, que pede ao Cristo, em um de seus epigramas, que tenha piedade de Platão e Plutarco. Há também os tratados filosóficos de Demetrios Kydonis (séc. XIV).

Já desde 50 a.C., com Andrônico de Rodes, uma grande quantidade de filósofos fizeram comentários às obras de Aristóteles. Os comentários a Platão existiram também, mas em menor quantidade. Curiosamente, o renascimento de Aristóteles não deu margem a uma nova filosofia, como foi o caso do neoplatonismo em relação a Platão. Isso se explica pelo fato das obras de Platão serem moldadas para conduzir a alma, para criar uma atmosfera verdadeiramente filosófica, escritas para pessoas com olhos treinados e mente madura. As obras de Aristóteles são mais sistemáticas, dialéticas, introdutórias, mais assemelhadas a livros-texto.

Há dois aspectos interessantes nos comentários a Aristóteles: (1) eles ajudam a entender as obras aristotélicas, (2) apresentam por outro lado um Novo Aristóteles, que é o Aristóteles dos comentadores. Talvez o resultado mais importante tenha sido a imposição da metodologia aristotélica nos autores bizantinos, a ponto da dialética ser tomada como sendo a própria filosofia. Isso deixa claro que a filosofia não era usada pelos bizantinos para descobrir a essência das coisas, já que este era o papel da doutrina cristã, mas era apenas uma técnica, um método, para formular a essência.

O comentador mais antigo é Alexandre de Afrodisias (séc. II). No entanto, ele também apresenta aspectos novos ao ensinamento de Aristóteles, como o quarto tipo de operação da mente, a “percepção da percepção”, que é o Deus de Aristóteles. Isso implica que Deus é quem põe em movimento nossa atividade de percepção; o conhecimento não é uma “visão em Deus” (ascese da mente a Deus), mas uma “visão através de Deus”. Porfírio, discípulo de Plotino, é outro comentador importante, cuja Introdução ao Estudo das Categorias é considerado basilar para a dialética bizantina (e importante no Ocidente também). Temístio (séc. IV) e Simplício (séc. V) também foram importantes comentadores neoplatônicos de Aristóteles.

A partir do século V, as obras de Aristóteles e seus comentadores começaram a ser traduzidos para a língua siríaca. No século IX, os árabes já tinham à sua disposição toda a obra de Aristóteles (menos a Política) e todos os comentadores, além do Timeu, da República e do Sofista de Platão, as obras da medicina grega de Galeno e a astronomia grega de Ptolomeu (Al Magesta), além de importantes textos bizantinos como João Filopono e São João Damasceno.

A interpretação que os árabes davam a Aristóteles eram no mínimo interessante. Um exemplo típico é o fato de em 840 as Enéadas de Plotino serem publicadas com o nome de “A Teologia de Aristóteles”. É deste estranho casamento entre neoplatonismo e aristotelismo que nasce a filosofia árabe.

Os ocidentais, por sua vez, tomaram contato com Aristóteles no século XII, quase ao mesmo tempo em que os árabes da Espanha e de Constantinopla. O Ocidente já havia desenvolvido uma filosofia interessante, mas a introdução de Aristóteles causou grande furor e confusão. Em princípio, os papas proibiram a edição da Metafísica e da Física de Aristóteles, ou pelo menos que fossem omitidos os trechos supostamente anticristãos, mas abriram mão disto mais tarde, tamanho o desejo de aprender Aristóteles e seus comentadores. Começa assim uma história de cristianização de Aristóteles, culminando em Tomás de Aquino. Ele procurou mostrar que a filosofia de Aristóteles, embora autônoma e independente do Cristianismo, na verdade estava de acordo com os dogmas cristãos: o que quer que fosse filosoficamente verdadeiro também era verdadeiro para o Cristianismo. O domínio de Aristóteles no Ocidente foi longo, durando até o século XV, e este período ficou conhecido por escolasticismo. Tomás de Aquino também se beneficiou de textos bizantinos, como os comentários de Filopono ao De Anima, mas a verdade é que a influência bizantina nunca foi muito bem estudada.

As duas obras de Filopono que nos interessam, no que diz respeito aos comentadores bizantinos de Aristóteles, são “Da criação do mundo” e “Da eternidade do mundo”. Se o mundo fosse eterno, então, de certa forma, a infinitude estaria manifestada no mundo, o que lhe conferiria quantidade, número. É impossível. Além disso, Filopono discorda de Proclo, segundo o qual toda energia – e toda criação portanto – pode ser considerada movimento (devir). A vontade de Deus não precisa de tempo e dimensão para se manifestar. A operação espiritual da criação é atemporal, não pode ser considerada um movimento. Eis que o Cristianismo ensina que nem tudo o que é criado no tempo está sujeito ao movimento, ao eterno devir – o homem está livre das visões materialistas da cosmologia. Ademais, Filopono não considera que a alma contenha o princípio do movimento, como dizia Aristóteles. O sol ilumina quando nasce, mas o calor gerado não significa que tenha sido da vontade do sol. Assim, a alma racional, quando surge, causa a vida e o movimento, mas sem desejá-los. Filopono escapa da psicologia aristotélica, que sujeita os fenômenos físicos e psíquicos a categorias naturais (“a alma é a primeira enteléquia de um corpo natural que possui a possibilidade da vida”, De Anima 412a27). A alma é introduzida de fora no corpo humano, e não representa uma privação, como queria Platão.

Um dos mais importantes aspectos a serem notados é o fato de Aristóteles achar possível que a mente apreenda as causas, isto é, os primeiros princípios dos seres. Filopono discorda radicalmente disso. Não há um caminho que leve do efeito à causa, ou do fenômeno para aquilo que é. Não é dada ao homem a possibilidade de apreender as causas e, portanto, sabemos pouquíssimo acerca delas. O conhecimento humano permanece na superfície das coisas, incapaz de se mover das aparências para a realidade. Este movimento só é possível dentro dos limites de determinados dogmas, os quais são dados por revelação. Quando o espírito absorve conscientemente estes dogmas, então se comunicará com algo que está para além do sensível. Ademais, Filopono considera as idéias platônicas como sendo apenas os pensamentos criativos de Deus, os arquétipos das coisas sensíveis, mas não que sejam as coisas “reais”, à parte do Criador, como pensava Platão. “Tu deves ver as coisas mesmas, e não apenas as hipóteses de Platão”, disse Filopono a Proclo.

O aristotelismo dos bizantinos restringe-se assim à forma, ao arranjo, às verdades científicas, mas não à metafísica de Aristóteles. Assim também era para Leôncio Byzantius e São João Damasceno. O Oriente faz uso criativo do racionalismo de Aristóteles e do misticismo contemplativo de Platão. O Ocidente porém deixou-se dominar por Aristóteles, imprimindo em sua espiritualidade um viés excessivamente racionalista. É claro que essa explicação não é historicamente válida, já que nem Aristóteles era totalmente racionalista, nem Platão era totalmente contemplativo.

No século IX, o domínio intelectual de São Fócio foi enorme. Uma discussão interessante é a refutação dupla do nominalismo e do realismo. Espécie e tipo são corpóreos, mas não são corpos. Isso significa que ambos denotam as essências das coisas, mas não são eles mesmos coisas; eles desenvolvem a essência das coisas, mas não são a causa da constituição das coisas. São nomes, noções apropriadas para denotar a existência específica das coisas, mas não para dar aos seres aquilo que não precisam. Daí a rejeição das idéias platônicas – a pré-existência de idéias arquetípicas implica em um Deus técnico, impotente. Veja a nuance da afirmação: espécie e tipo existem, mas são corpóreos, e não corpos.

No século IX, começou a surgir no Império Bizantino admiradores de Platão e da educação grega. Entre os mais importantes, temos Aretas, Bispo de Cesaréia, discípulo de São Fócio, Leão o Matemático. O maior de todos, sem dúvida, foi Miguel Pselo.

Pselo preocupava-se com o conhecimento apócrifo (mágica, astrologia), que ameaçava a saúde da mente e removia o firme fundamento do Cristianismo.

“Eu sei que Deus vê todas as coisas, que Ele é o princípio de tudo; que todas as coisas vêm dEle e retornam a Ele. Embora eu saiba de tudo isso, penso que a natureza que existe entre o Criador e as criaturas é como uma mão por meio da qual Ele governa as coisas deste mundo, embora permaneça imóvel enquanto primeiro princípio, ”. Em outras palavras, o homem pode investigar as causas próximas dos fenômenos e da natureza dos seres com o uso da ciência. É por isso que Pselo dá esta excepcional definição de natureza: “Natureza é um poder invisível aos olhos, mas visível à mente, estabelecida por Deus em todos os corpos, um princípio de movimento e repouso”.

Porém, há coisas que são impossíveis aos silogismos, aos raciocínios e às provas. O conhecimento silogístico é limitado, seja pela natureza do objeto (a essência de Deus, por exemplo), seja pela natureza do próprio pensamento, que opera com proveito somente quando certos princípios se aplicam. A mente existe acima do pensamento. Sua tarefa é abraçar as coisas de maneira superior e imediata, mas só é possível àqueles que ascendem a níveis elevados de perfeição e ciência.

A filosofia é a melhor preparação para aqueles que desejam se elevar à esfera teorética, para além do silogismo, que desejam se exercitar com diligência na filosofia e pesquisar outras formas de pensamento. “Temos de absorver dos gregos sua ciência das coisas existentes e usá-la em conjunto com nossa filosofia [cristã] para entendermos a forma e a verdade”. Ele considera que a filosofia grega estava enganada acerca de Deus. O amor que Pselo nutre por Platão se deve ao fato de ele não confiar unicamente nos silogismos e nas provas. Ele não perdoa o fato de Aristóteles ter versado sobre questões teológicas de maneira tão humana, baseando-se somente em silogismos, embora soubesse que o caminho mais elevado e verdadeiro fosse apreender a mente divina, isto é, a contemplação teorética.

Numa época em que a teologia mística restringe-se exclusivamente pela deificação, pela iluminação mística, Pselo mostrou o caminho platônico, o qual, a partir de silogismos, elevamo-nos por meio das ciências matemáticas ao entendimento e à teoria.

“A filosofia divide-se em duas partes: a primeira é impassível e imaleável, o qual somente o noûs pode apreender; a segunda é delicada e passível, é sociável e filantrópica. Louvo a primeira, mas não a amo; a segundo eu admiro em menor grau; mas esta é a que mais desejo perseguir”.

João Ítalo, discípulo de Pselo, seguiu o neoplatonismo de seu mestre, mas de uma maneira radical. Por causa de suas heresias, o Santo Sínodo apresentou 11 artigos que denunciavam as posições anticristãs de Ítalo. Para ele, a filosofia não era um mero exercício da razão ou um estágio preparatório para uma penetração mais profunda nos mistérios da doutrina cristã. Ítalo queria dar à filosofia autonomia completa. O senso de mistério está totalmente ausente de seu pensamento. O movimento hesicasta é, assim, uma reação ao cientificismo e ao racionalismo que surgira após Pselo. Estes sintomas, em intensidade muito maior, surgirão no Renascimento.

Os anos finais do Império Bizantino viram surgir Pletão e Bessarion. Quase toda a obra de Pletão é a pregação da vitória do elemento helênico e da necessidade de se abandonar o Cristianismo. A velha síntese que fez parte do Império Bizantino tinha de ser rompida. Se a nação queria ser salva, tinha de apegar-se à Grécia. Pletão é, na verdade, um sonhador, um sujeito apartado das circunstâncias práticas da vida do Império. Ele tornou-se o pioneiro no uso do método científico para tratar questões de natureza política. O eudaemonismo (prosperidade) depende da forma do Estado: separação dos cidadãos em três classes, propriedade comum, intervenção estatal, exército nacionalizado, fortalecimento do comércio e da produção nacional, guerra contra produtos de luxo etc. É um pioneiro do socialismo. No entanto, somente o rei deveria por em prática este plano, o que absolve Pletão da acusação de ser revolucionário. Ele esteve em Ferrara-Florença (1438-1439), onde considerou os dois lados como sendo igualmente sofistas, interessados apenas em ganhos políticos. Juntamente com São Marcos de Éfeso, Pletão não assinou a união da Igreja.

Como via no Cristianismo uma decadência, ocupou-se de criar sua própria filosofia religiosa: Deus ocupa o centro de seu sistema e a maior virtude humana seria a piedade (somente ela torna o homem semelhante a Deus). "Tomando como princípios as idéias e revelações comuns a todos [as “luzes naturais”, diriam mais tarde os iluministas do século XVIII], devemos deixá-las penetrar profundamente em nós e, com silogismos rigorosos, tirar delas seus princípios, suas conseqüências".

A influência de Pletão no Ocidente foi enorme, pois encontrou em Ferrara-Florença um círculo de homens interessados em Platão, até então amplamente desconhecido entre eles. A disputa que a obra de Pletão suscitou entre platônicos e aristotélicos fez Bessarion escrever In calomniatorem Platonis, originalmente escrita em latim mesmo. Para os bizantinos, esta obra não apresentou grandes novidades, mas causou grande alvoroço entre os ocidentais. Tatakis considera razoável afirmar que Pletão e Bessarion não só prepararam o terreno para a Renascença como a entregaram pronta.

Tatakis dedica um capítulo exclusivo à ciência bizantina, mas não é de nosso interesse determo-nos nela. Talvez seja interessante apenas observar que o Império Bizantino não empreendeu nenhum grande invento ou desenvolvimento tecnológico digno de nota, uma vez que essas atividades eram vistas pelos bizantinos – e por outras civilizações antigas – como inferiores e bárbaras. Os três campos da ciência que foram bem desenvolvidos pelos bizantinos foram a filologia (necessária para a recuperação de textos clássicos), a história (abre ao historiador a possibilidade de entender melhor os seres e de prever com mais precisão o futuro) e o direito (os bizantinos superaram o apego à jurisprudência do direito romano, criando um conjunto de leis mais bem sistematizadas e organizadas por princípios sólidos e cristãos).

Ilustração: Miguel Pselo com seu discípulo, o Imperador Miguel VII Ducas - Mosteiro de Pantokratoros, Monte Athos.

16 de outubro de 2010

O filósofo-místico de Eric Voegelin


Das várias introduções ao pensamento de Eric Voegelin, a de Michael P. Federici é uma das mais interessantes e concisas, além de amplamente reconhecida por seu mais famoso discípulo, Ellis Sandoz. O objetivo deste artigo é delinear, em linhas bem gerais, as doutrinas de Voegelin sobre o papel civilizacional da filosofia e do filósofo, bem como alguns aspectos de sua filosofia da consciência.

Em termos simples, Voegelin entende que o colapso em que se encontra o mundo, sobretudo o Ocidente, é fruto da perda da consciência de experiências históricas vitais para a ordem política, social e existencial. São essas experiências históricas, juntamente com seus símbolos linguísticos correspondentes, que iluminam a verdade da realidade. Neste quadro desolador, as ideologias lograram êxito mediante a deturpação desses símbolos, usurpando-os e desconectando-os de suas experiências originais. A tarefa do filósofo é, portanto, reconquistar em sua própria consciência as "experiências desencadeantes" (engendering experiences), recapturando a verdade da realidade (o ground of being) que vive concentrada em símbolos. Isso significa que os símbolos linguísticos do mito, da revelação, da história e, acima de tudo, da filosofia, devem ser reativados antes de quaisquer debates políticos mais profundos. Em outras palavras, a tarefa do filósofo é reproduzir imaginativamente o significado dos símbolos mediante atos meditativos, criando, assim, "símbolos reflexos" que articulem a verdade contida nos "símbolos originais".

Há dois aspectos importantes no que acabo de dizer: (1) o objetivo da filosofia é muito mais ousado do que o mero estudo da realidade e das principais idéias que a descreveram ao longo da história, e (2) o filósofo voegeliniano não é um simples intelectual, mas um místico. Mas como é isso? Como opera exatamente esse filósofo?

A restauração da consciência às experiências da ordem exige por parte do filósofo uma abertura total para a busca existencial (zetema) da fonte divina dessa ordem. Trata-se de um processo de recordação (anamnesis) daquilo que permanece dormente na mente ocidental e que aguarda ser imaginativamente despertado pela alma espiritualmente sensível do filósofo. A exemplo de Platão, Voegelin acredita que somente "almas ordenadas" seriam capazes de restaurar a ordem política e social. Não se trata de mera recuperação dos símbolos e das experiências históricas da transcendência, mas uma reatuação meditativa, uma imitação mesmo, das experiências espiritualmente substanciosas que motivaram as evocações simbólicas do passado. Assim, a anmnesis não é uma restauração literária, ou seja, não se trata de estudar os Great Books, que é algo que pode ou não ser relevante. Portanto, a filosofia política não é o estudo da história das idéias políticas, pois isso seria uma deformação ideológica da realidade: a filosofia é a verdadeira "luz da sabedoria" que recompensa o esforço do filósofo em localizar as forças do mal e identificar sua natureza. O filósofo é um grande herói, um homem de extrema coragem, que luta em meio à sociedade desordenada a fim de restaurar a ordem. O estudo da história é relevante apenas enquanto alimento para estimular o filósofo na busca pela ordem. A educação, acredita Voegelin, é a arte platônica da periagoge, ou seja, é o giro da alma em direção ao fundamento divino ao mesmo tempo que a afasta da indolência espiritual e da desolação do mundo.

Voegelin segue o método aristotélico de ciência política. Tudo começa com o filósofo analisando os símbolos auto-interpretativos de sua sociedade em particular -- "justiça", "felicidade" e "cidadão", por exemplo. Uma vez que estes símbolos tenham sido compreendidos, o próximo passo é medi-los contra os símbolos linguísticos do próprio filósofo. Não raro, o filósofo perceberá que vive fora de sintonia, como que em tensão, com essa sociedade. Platão, por exemplo, seria um filósofo voegeliniano. Ele percebeu com clareza as fraquezas da sociedade ateniense, procurando retificá-las em sua própria alma. Cícero, por outro lado, é um contra-exemplo de filósofo voegeliniano. Ele não identificou as fraquezas de Roma porque a considerava o estado ideal. Assim, a tarefa precípua do filósofo é criar uma tensão entre a ordem da sociedade e a ordem de sua própria alma, sendo que a restauração da ordem depende da capacidade do filósofo em tocar as consciências das outras pessoas ao nível do pathos (apelo mediante a "ternura" ou "compaixão"). É por isso que Voegelin prescreve que recuperemos as experiências de ordem e transcendência. No nível da experiência, reside uma percepção da realidade que é muito mais difícil de ignorar do que a verdade contida em proposições e dogmas. Para que as almas movam-se em direção ao Agathon (ou summum bonum escolástico), o spoudaios (filósofo, o "homem maduro" aristotélico) tem de confrontar as almas desordenadas de forma a vencer sua resistência à busca pela realidade transcendente, ou seja, sua logophobia, e passem a cultivar o desejo de buscar a ordem e a verdade mediante sua participação no nous divino.

Além da filosofia, um dos instrumentos mais importantes para a restauração das experiências desencadeantes na consciência são os mitos. Os mitos ajudam a manter vivas e vibrantes as experiências com a realidade transcendente. É o caso dos mitos da Criação, de Noé e o Dilúvio e da Torre de Babel, nas quais o conteúdo das histórias não é o importante, mas as experiências ali simbolizadas. Os mitos são frequentemente resultado de experiências de revelação divina, como foi o caso com Moisés ou Isaás.

Esta observação nos leva a uma questão importante. Voegelin considera que a diferenciação que ocorre após a experiência desencadeadora, ou seja, os novos insights que se acumulam com o processo histórico, é um fenômeno que ocorre tanto com as revelações quanto com a filosofia. Isso significa, embora não o diga explicitamente, que os simbolismos da revelação e da filosofia são, de certa forma, equivalentes.

A filosofia da consciência é um importante elemento na compreensão do pensamento de Voegelin. A consciência é a área da realidade onde o intelecto divino (nous) move o intelecto humano (nous) a empenhar-se na busca pelo ground of being. Os seres humanos estão em busca (zetesis) do divino, e esta busca é engendrada por uma atração (kinesis) do divino. Este processo caracteriza-se pela mútua participação, a qual Aristóteles chama de metalepsis. Voegelin acredita que o desenrolar da história é precisamente o desenrolar da estrutura da consciência. No entanto, Voegelin sabe que uma sociedade corrompida por ideologias interporá inúmeros obstáculos para aceitar a história do filósofo; porém, todo ser humano possui, em sua consciência, a presença do divino, e é precisamente este elemento comum entre a consciência do ouvinte e o divino presente na história do filósofo que o filósofo buscará despertar.

* * *

É impossível que o leitor cristão ortodoxo não fique ressabiado com os ensinamentos e descobertas de Eric Voegelin. Sua doutrina da representação imaginativa de experiências passadas, a fim de reativar os símbolos originais mediante símbolos reflexos, é, no mínimo, suspeita. Um dos ensinamentos básicos dos Santos Padres, da Philokalia e demais autores místicos, é precisamente neutralizar e esvaziar a imaginação de elementos externos e internos a fim de se alcançar a theosis. Não é, claro, a única recomendação, mas é uma das recomendações centrais. Padres dedicaram capítulos e homilias inteiras apenas neste aspecto. A imaginação, segundo a doutrina cristã ortodoxa, é resultado da Queda, e o monge ou "filósofo" que busque a ascese em direção a Deus deve aprender a esvaziá-la dos logismoi. Do ponto de vista da Ortodoxia, Voegelin aponta um caminho perigosíssimo para seu ground of being.

Além disso, a filosofia parece ser elevada a uma condição quase fantástica. A Igreja nunca foi contra a filosofia. Pelo contrário, muitos Padres guardavam grande respeito por ela. São Gregório Palamás ensinava como utilizá-la para benefício do cristão. São Basílio, tido como mais inteligente que Aristóteles, fez uso intenso de conceitos platônicos, aristotélicos e estóicos. Recentemente, basta citar a grande admiração que São Nicolau Velimirovich nutria pela filosofia. Recomendo a leitura de Orthodoxy and Philosophy. No entanto, não há espaço na antropolgia e psicologia ortodoxas para o contato direto de filósofos, pelo exercício da consciência em atos imaginativos, com o incriado. Tal empresa, desprovida da purificação prévia segundo o método ortodoxo, abre o indivíduo, na melhor das hipóteses, para auto-ilusões, e na pior, para influências demoníacas.

Voegelin é mesmo um filósofo facinante. No entanto, creio ser prudente que o estudioso de suas obras analise-as à luz da tradição sempre que perceber que a filosofia está invadindo o campo próprio da teologia.

11 de agosto de 2010

A influência das belas artes nas Grandes Idéias


O objetivo de Mortimer J. Adler em Art, the Arts, and the Great Ideas é responder a seguinte pergunta: a música, a pintura, o balé, enfim, todas as artes que não estejam associadas com palavras, podem ensinar ou adicionar conhecimento às Grandes Idéias?

A título de introdução, Adler lembra que, no livro VI de Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue cinco virtudes intelectuais:

A) Saber para saber (virtudes especulativas)

1) Noûs (insight)
2) Episteme (em latim, scientia)
3) Sophia (sabedoria especulativa ou filosófica)

B) Saber para agir (virtudes práticas)

4) Phronesis (prudência ou sabedoria prática) -> praxis (conduta moral ou política)
5) Techné (arte, técnica, habilidade -> poiesis (fazer algo, produzir, desempenhar)

Na esfera da poiesis, que é a que nos interessa, Platão distingue entre artes cooperativas (agricultor, médico, professor) e artes operativas (todas as demais). Ainda na esfera da poiesis, Aristóteles distingue entre as artes liberais (operadas com o intelecto, ou seja, o artista opera com símbolos e pode existir em qualquer lugar) e as artes servis (operada com materiais e só existe em um lugar). Neste caso, observa-se que há uma diferença ontológica, e não social, entre estas artes.

Há ainda outra distinção identificada por Aristóteles: (1) narrativa poética, que opera na região do provável e do possível e, portanto, não é exclusivista (verdade poética) e (2) narrativa histórica, que opera na região do factual e do actual e, portanto, é exclusivista (verdade lógica).

Em seguida, Adler afirma que a intenção do artista e de quem contempla a obra de arte não têm relevância para as belas-artes. Isso significa que por mais que o artista afirme que a obra de arte se conforma à idéia criativa que está em sua mente, ele terá manifestado uma verdade ontológica entre a obra de arte e si próprio. Ocorre que nosso interesse reside apenas na verdade lógica (factual) e na verdade poética (possível) das obras de arte, pois somente elas podem conter alguma instrução útil às Grandes Idéias.

Adler continua sua explanação relembrando o leitor sua doutrina dos signos. Há dois tipos de signos: os signos verbais (palavras) e os não-verbais. As palavras podem ser designadoras ou signais. Enquanto designadoras, elas dão nome às coisas; enquanto signais, elas elicitam comportamentos (como a palavra "fogo", quando gritada no interior de um cinema lotado, faz todos saírem correndo). Os signos não-verbais, por sua vez, também podem ser designadores (as representações simbólicas de banheiro masculino e feminino, por exemplo) ou signais (como as nuvens no céu, que signalizam chuva iminente).

A notação, por sua vez, é uma marca visível ou um som audível. As notações, embora perceptíveis, não possuem em si nenhum significado. Então, cabe a pergunta: de onde vem o significado que transforma uma notação em uma palavra? As palavras designam objetos, assim como trazem à mente determinado conteúdo. Elas funcionam, portanto, como signos instrumentais. No entanto, existem signos designativos cuja única função é de significação. São os signos formais. Assim, os signos instrumentais são objetos que apreendemos, mas os signos formais não: eles são os conteúdos mentais cognitivos, são os atos da imaginação (ou "imaginação intelectual"). As palavras que empregamos só têm significado como signos instrumentais quando se associam a signos formais.

Ora, os atos mentais são apreensões de percepções, memórias e imaginações, que combinam a ação das potências sensitivas e intelectivas, ou então são atos puramente intelectivos. Assim sendo, as obras de arte nunca carregam pensamentos puramente intelectuais, pois sempre dependem das potências sensitivas. A exceção a esta regra cabe à literatura, que pode perfeitamente carregar conceitos puramente intelectuais.

Por fim, cabe lembrar que as Grandes Idéias não fazem parte do conteúdo cognitivo de nenhuma mente humana, ou seja, elas não são memórias, nem imaginações, nem constructos teóricos, nem os conceitos que estão em nossas mentes. Elas também não são signos formais, ou seja, também não são as intenções mentais que são significados e que servem para colocar os objetos significados diante da mente. Em suma, elas não são id quo (aquilo por meio do que) pensamos, mas são id quod (aquilo que) pensamos: são, pois, objetos de pensamento.

As obras musicais e as obras de arte visuais não contribuem significativamente para as Grandes Idéias, pois o meio em que são produzidas é próprio dos sentidos. Sua linguagem consiste em símbolos não-verbais, e por isso atuam no pensamento perceptual, e não no pensamento conceitual.

A conclusão é que estas obras de arte têm função emocional, sentimental, pois impactam e influenciam a imaginação. É somente neste sentido, deveras limitado, que elas influenciam as Grandes Idéias. Claro que, além disso, elas também transmitem prazer estético. As obras literárias, antes de nos mover emocionalmente, têm de ser interpretadas intelectualmente. Por isso, no caso delas, podem, sim, contribuir para as Grandes Idéias.

Ilustração: trecho inicial da Sinfonia nº 36 em Dó Maior, K. 425, "Linz", de Wolfgang Amadeus Mozart.

2 de março de 2006

Seis Grandes Idéias

Eis um breve resumo da obra mais famosa de Mortimer J. Adler depois de How to Read a Book: Six Great Ideas. Inspirado numa série de palestras que o autor proferiu no Aspen Institute, Six Great Ideas é, ao lado de Aristotle for Everybody, um apanhado geral do pensamento deste filósofo americano. Maiores detalhes de sua filosofia podem ser encontrados em livros que tratam de certos temas específicos. Sua visão em política (bastante controversa), por exemplo, é aprofundada em Haves Without Have-Nots; sua visão em metafísica em How to Think About God, The Angels and Us, Intellect: Mind over Matter e Truth in Religion; sua visão em estética em Art, the Arts, and the Great Ideas; sua visão em ética em The Time of Our Lives; sua visão sobre a Filosofia em The Four Dimensions of Philosophy; e assim por diante.

Fiz o estudo em forma de perguntas e respostas, nem sempre respeitando a divisão original em capítulos. Como se trata de um resumo pessoal, boa parte do raciocínio de Adler não está explicitamente descrito, mas pode ser derivado a partir do que aqui está exposto.

Introdução Geral

O que o autor espera do leitor, ao final da leitura?

Espera-se que o leitor, ao final da leitura, tenha conhecimento dos diversos significados de cada idéia, sendo capaz de lidar melhor com as questões que se lhe apresentarem no dia-a-dia, indo além do elementar.

O que é uma “idéia”?

Uma idéia, no sentido utilizado por Adler, não é o conteúdo de nossos pensamentos, como quando dizemos “Tive uma idéia”. Uma idéia é um objeto de pensamento, algo sobre o qual todos podemos versar. Uma analogia poderá nos ajudar a entender isso: se alguém me ajuda a vestir uma jaqueta, ambos teremos impressões distintas dela; no entanto, mesmo assim, a jaqueta será uma e a mesma jaqueta para ambos, ou seja, será o mesmo objeto para ambos. É por isso que Platão estava certo ao afirmar que as idéias existem enquanto objetos. Mas, acredita Adler, Platão estava errado ao atribuí-las existência independente das mentes humanas. Ou seja, se eu paro de pensar sobre gatos, isso não quer dizer que a idéia de gato deixe de existir. Mas se todas as mentes do mundo pararem de pensar sobre gatos, então a idéia de gato não mais existirá.

Por que devemos estudar as grandes idéias?

Devemos estudar as grandes idéias porque elas fazem parte do vocabulário de todas as pessoas. Ao contrário do vocabulário de um especialista, que é recheado de termos técnicos e específicos, as grandes idéias são de uso comum, mesmo que em variados graus. Como a ciência que lida com as idéias é a Filosofia, segue-se que a Filosofia deveria ser do interesse de todos. Como a Filosofia não lida com objetos sensíveis ou imagináveis, não empreende pesquisas científico-investigativas, não precisa de dados provenientes de outras ciências para ser aplicada (como é o caso da Física, da Economia, da Matemática etc), todos estão, em princípio, aptos a estudá-la.

Quais as grandes idéias versadas pelo autor?

As idéias versadas pelo autor são estas:

· Verdade
· Bondade
· Beleza
· Liberdade
· Igualdade
· Justiça

Por que o autor escolheu especificamente estas idéias?

O autor escolheu estas idéias porque são elas, na maioria dos casos, que iluminam o entendimento sobre as outras grandes idéias. As primeiras três idéias, que são as principais, referem-se a idéias com as quais julgamos coisas e pessoas. Elas são necessárias, mesmo se vivêssemos sozinhas numa ilha deserta. As últimas três idéias referem-se a idéias com as quais julgamos e convivemos. Se vivêssemos sozinhos numa ilha deserta, seu estudo seria inútil.

1) Verdade

O que é verdade?

Há duas definições de verdade, que correspondem aos dois tipos de verdade:

I) Verdade discursiva. Verdade é quando o que se fala ser aquilo que se pensa. Por exemplo: "Acho que este é um bom livro". Se, apesar disso, penso que o livro é ruim, então estarei mentindo.

II) Verdade de pensamento. Verdade é quando o que se fala corresponder à realidade dos fatos e das coisas. Por exemplo: "Este livro tem 500 páginas". Se, apesar disso, o livro tiver na realidade apenas 242 páginas, então estarei mentindo.

Em suma, dizer a verdade é colocar os predicados ontológicos no lugar certo, isto é, dizer "é" quando é e "não é" quando não é.

É possível duvidar da existência da verdade?

Sim, é possível duvidar da existência da verdade. Há desde as formas extremas de ceticismo, como a do filósofo grego Pirro, até formas mais brandas de ceticismo, como a de David Hume. A forma extrema é facilmente dispensável, uma vez que se autocontradiz ao afirmar que nada é certo ou verdadeiro.

Os céticos brandos ou moderados podem ser divididos em três grupos:

I) Aqueles que pensam ser sempre saudável duvidar um pouco dos julgamentos a respeito do que é certo ou errado, ou do que é verdadeiro ou falso. Esta é a posição adotada por David Hume.

II) Aqueles que pensam que o que é verdade para mim pode não ser verdade para você. Chamamos tal posição de relativismo ou subjetivismo.

III) Aqueles que pensam que o que era verdade ontem pode não ser verdade hoje.

Das três posições acima, apenas a última é digna de ser adotada porque não nega, em si, a objetividade da verdade, mas apenas enfatiza sua porção subjetiva, que pode, sim, mudar. Por exemplo: a Terra nunca foi plana, apesar de agumas pessoas sustentarem essa opinião no passado. Sempre foi verdade que a Terra não é plana, ontem e hoje. Se não fosse pelo terceiro ceticismo, estaríamos até hoje convictos de que a Terra é plana. Este terceiro ceticismo, portanto, é saudável na medida em que nos faz lembrar de quão poucass afirmações podemos ter certeza absoluta.

Quando algo deixa de ser duvidoso e passa a ser certo? Quando acaba a dúvida e começa a certeza?

O critério para identificar aquilo que é conhecimento líquido e certo é o seguinte:

I) O julgamento estabelecido não pode ser questionado por novas evidências.

II) O julgamento estabelecido não pode ser questionado por novas reflexões, raciocínios etc.

Ou seja, a diferença entre os julgamentos práticos que fazemos no dia-a-dia e a certeza genuína é a finalidade (isto é, quando já chegou ao fim) e a incorrigibilidade do julgamento indubitável. Por isso, mesmo as ciências (Biologia, Psicologia etc.) não são conhecimento, no sentido forte do termo, porque têm futuro (cf. o terceiro ceticismo branco acima), isto é, podem ser questionadas e melhoradas.

Conhecimento strictu sensu são somente as chamadas verdades auto-evidentes ("triângulo não tem diagonal", por exemplo) e as evidências perceptuais (a percepção direta dos objetos ao nosso redor).

Quando algo é verdadeiro e objetivo e quando é apenas uma questão de gosto pessoal, subjetivo?

A esfera da verdade é aquela na qual não há intromissão de emoções, preferências pessoais e wishful thinking (p.ex.: Matemática, Biologia etc.). Nessa esfera, a correção de disputas e discórdias é uma obrigação, como diz o lema de veritate disputandum est. É uma esfera transcultural e global.

A esfera do gosto é aquela na qual está em jogo questões puramente pessoais (p.ex.: culinária, moda etc.). Sobre elas, não vale a pena discutir, como diz o lema de gustibus non diputandum est.

Nos casos específicos da Filosofia e da Religião, Adler acredita que ambas não são nem 100% questão de verdade nem 100% questão de gosto. A Filosofia, entende Adler, mostrou-se muito menos concorde ao longo dos anos do que a Matemática ou a Biologia. Tal elevado grau de irreconciliabilidade não permite que classifiquemos a Filosofia inteiramente como uma questão de verdade. Raciocínio semelhante vale para a Religião. Há algo, nessas duas áreas, que escapa à análise puramente racional. No caso da Religião, Adler dedicou um livro específico, a ser estudado em breve aqui.

2) Bondade

Qual a diferença entre verdade e bondade?

Enquanto "verdadeiro" e "falso" são termos que aplicamos ao conteúdo de nossas mentes estar de acordo com a realidade, os termos "bem" e "mal" (ou "bom" e "mau") são aplicados às coisas em relação a nossos desejos.

Mas pode uma afirmação prescritiva ("você deveria fazer isto, pois é bom, e não aquilo, pois é mau") ser classificada de verdadeira ou falsa?

Sim, as prescrições não são puramente subjetivas, isto é, puramente questão de gosto. Para entendermos o porquê, temos de ampliar o escopo do que é verdadeiro. Aristóteles ensina um outro modo de verdade: a conformidade do julgamento ao desejo certo. Esse modo é o que se aplica às prescrições.

O que é desejo certo?

Desejo certo é aquilo que temos de desejar. E o que temos de desejar são os bens reais, ou seja, aqueles que herdamos de nossa natureza humana, presente em todos os indivíduos (são os needs). Ao contrário, os bens aparentes são aqueles que adquirimos ao longo da vida, que são circunstanciais, pessoais, individuais (são os wants). Podemos até mesmo desejá-los, desde que não interfiram na aquisição dos bens reais.

Um dos needs dos homens é o conhecimento, por exemplo.

Quais são esses bens?

Para melhor entendermos quais são esses bens, é útil elaborarmos algumas outras classificações, além da divisão básica entre bens reais e bens aparentes já delineada.

I) Bens que desejamos ter: podem ser reais ou aparentes. Subdividem-se em:
a) Posses, como riquezas e amigos. São sempre externas ao indivíduo.
b) Perfeições, como saúde. São sempre internas ao indivíduo.
ou
c) Bens por escolha, como bons hábitos e conhecimento. São sempre internos ao indivíduo.
d) Bens por acaso, como boa criação, amigos e riquezas. São sempre externos, pelo menos em parte, e dependem de sorte.

II) Bens que desejamos fazer: são as ações que são boas para nós porque nos fazem aproximar de nossos needs (ou, pelo menos, beneficiam outras pessoas), cujos bens resultantes são sempre reais. Por exemplo, quando agimos com correção e justiça em sociedade.

III) Bens que desejamos ser: é a excelência de um bom homem. Um bom homem é aquele que alcançou as perfeições que preenchem suas potencialidades de ser humano, e contam com a participação dos bens que desejamos ter e fazer. São sempre bens reais. Os bens que desejamos ser são medidos em graus de existência, por meio da actualização de nossas potencialidades. Por exemplo, segundo Santo Agostinho, é melhor ser um rato do que uma pérola porque o rato pode actualizar e melhorar suas capacidades, enquanto a pérola não.

A quais bens devemos dar prioridade?

Devemos dar o menor nível de prioridade aos bens que não são bens em si, mas meios para se alcançar outros bens melhores. Neste patamar encontram-se todos os bens externos.

Devemos dar um nível intermediário de prioridade aos bens que tanto podem servir como meio para alcançar outros bens melhores como podem ser bens em si. Neste patamar encontram-se, por exemplo, riqueza e saúde.

Devemos dar o maior nível de prioridade aos bens que são bens em si. Neste patamar encontram-se as perfeições, como o conhecimento.

Qual o maior bem de todos?

Não há exatamente um maior bem de todos. O que há é um bem que engolba todos os outros bens da escala de bens exposta acima. Trata-se da felicidade. É importante notar:

(1) A felicidade não é um bem terminal e superior aos outros bens (isto é, não é o summum bonum), mas é a totalidade de todos os bens (totum bonum). É o bem, e não apenas um bem.

(2) A felicidade não é um bem que possa ser plenamente atingível em vida pois a felicidade se define como uma vida preenchida pelos bens reais que todos necessitamos, além dos bens aparentes que este ou aquele indivíduo possa querer. Sendo "uma vida", não é possível haver um momento na vida em que se possa dizer "agora sim sou feliz". Somente no além, conforme ensinam os religiosos, há um estado terminal de felicidade, como a desfrutada pelos santos na presença de Deus.

(3) A felicidade pode diferir de um indivíduo para outro por causa dos bens aparentes que decidam buscar. Lembre-se que os bens aparentes fazem parte da definição de felicidade.

(4) A felicidade não é ilusória. Embora não possamos alcançá-la em plenitude aqui, podemos desfrutar de um grau ou porção dela. Cada indivíduo, então, terá seu grau de felicidade.

Como alcançar a felicidade?

Como dizia Santo Agostinho, "Feliz é o homem que no decurso de uma vida completa tem tudo o que deseja, desde que não deseje nada de errado".

Isso quer dizer que há dois fatores indispensáveis na busca da felicidade: (a) hábitos de escolher aquilo que é compatível com o alvo certo (virtude moral) e (b) ser abençoado com sorte, isto é, com as circunstâncias externas que facilitem a obtenção dos bens reais e aparentes.

3) Beleza

O que é beleza?

Santo Tomás define a beleza como "aquilo que nos dá prazer ao ser visto". Comidas, bebidas e roupas também nos dão prazer, mas não ao serem vistos, portanto não são passíveis de serem belos. Kant ensina que o prazer que a beleza nos dá deve ser totalmente "desinteressada". Se nós desejamos possuir aquilo que nos dá prazer ao ser visto, então deixa de ser belo.

Vale lembrar que "ver" vem do latim visum, que tem o sentido de contemplar, de conhecimento mental. É o que ocorre quando dizemos: "Vejo que você tinha razão". Isso inclui, se nos detivermos na definição de beleza acima, as músicas, poemas, e até mesmo a beleza encontrada em demonstrações matemáticas.

Essa contemplação, Kant notara, está destituída de conceitos, ou seja, está restrita a aquele objeto individualmente, em si e por si.

Há algo de objetivo na beleza? Ou é ela toalmente subjetiva?

Vimos na resposta acima que a beleza é aquilo que nos dá prazer ao ser visto. É a chamada beleza desfrutável, subjetiva, que varia de indivíduo para indivíduo. Mas a beleza nem sempre é uma questão de gosto.

Há um outro tipo de beleza, que chamamos de beleza admirável. A diferença é que enquanto a beleza desfrutável é imediata, a beleza admirável é mediada pelo pensamento e depende do conhecimento. O admirável é aquilo que possui excelência ou perfeição intrínseca, cujas partes estão coerentemente em ordem, formando uma unidade proporcional e clara.

O admirável exige um gosto superior (mais ainda gosto) ao desfrutável. Um expert admira uma pintura e, por conseguinte, desfruta dela. Um leigo poderá não desfrutar dela porque lhe falta a educação e treino para tanto; ou até mesmo poderá desfrutar dela, mas sem saber por quê.

No entanto, o admirável está objetivamente ligado às propriedades intrínsecas do objeto. Ao contrário da beleza desfrutável, que está destituída de conceitos, a beleza admirável depende de conceitos, tipos e classes. É por isso que um connoisseur de quadros não pode ipso facto ser um connoisseur de cães ou pérolas.

Conclusão: há, sim, objetividade na beleza, mas é necessário um gosto superior, treinado, conceitual (subjetivo, portanto) por parte do observador para detectá-la e, assim, admirá-la.

4) Beleza, bondade, verdade

Qual a relação entre beleza, bondade e verdade?

A beleza admirável é um tipo de bondade. Conforme vimos, a bondade de algo é comensurável pelo grau de seu ser, pela capacidade de actualizar e desenvolver suas potencialidades. Lembremos que, a partir dessa constatação, é melhor ser um rato do que uma pérola.

Mas quando comparamos coisas de mesmo tipo ou espécie (duas rosas, por exemplo), elas também possuem seus respectivos graus de perfeição ou excelência intrínsecos. O grau de excelência admirável é seu grau de bondade enquanto exemplar ou espécie desse tipo. Se uma rosa admirável fosse tida como uma rosa ideal, ela possuiria todas as perfeições que uma rosa ideal teria.

A teologia nos explica esse tipo de bondade. A excelência existencial de uma rosa, medida pelo seu grau de ser, reflete a bondade existencial de Deus enquanto Ser Supremo. Essa bondade existencial leva a uma verdade existencial, também identicamente intrínseca na beleza admirável. A rosa ideal, então, possui um si verdade e beleza existenciais que refletem (ou estão em conformidade) como que é uma rosa ideal na mente de Deus.

5) Justiça, liberdade, igualdade

Qual a relação entre justiça, liberdade e igualdade?

Das três idéias que regulam nossas ações em sociedade, apenas a justiça é um bem ilimitado, isto é, nunca é um bem que possuímos em excesso.

A liberdade ilimitada, como querem os libertários, acaba produzindo desigualdade de condições.

A igualdade ilimitada, como querem os igualitários, acaba produzindo falta de liberdade individual.

A justiça regula esses excessos, permitindo o exercício da liberdade ao mesmo tempo que exige certo grau de liberdade de condições.

6) Liberdade

Quais os tipos de liberdade?

Há três tipos de liberdade:

I) Liberdade inerente à natureza humana (liberdade natural). É o chamado livre arbítrio ou livre escolha.

II) Liberdade associada à sabedoria e à virtude moral (liberdade adquirida). Às vezes é chamada de liberdade moral. A virtude consiste em habitualmente fazer aquilo que é certo, isto é, escolher os bens reais que temos de desejar. Nossas paixões e apetites geram wants em conflito com os needs, e portanto devem ser controlados.

III) Liberdade dependente de circunstâncias externas (liberdade circunstancial). Ela pode ser possuída em diferentes graus, ao contrário das outras duas, que ou se tem ou não se tem. Consiste em fazermos o que quisermos, não importa se moralmente for certo ou errado.

Esta última liberdade é a que precisa ser regulada pela justiça. Se a liberdade circunstancial for ilimitada, isto é, se eu puder fazer o que bem entender a qualquer hora, isso resultaria num estado de total anarquia, ou de autonomia ("eu sou a lei de mim mesmo"). Há, portanto, a necessidadde de certos limites serem impostos quanto à liberdade cinrcunstancial.

A lei justa comanda ações que devem ser seguidas e proíbe ações que não devem ser feitas. O homem virtuoso continuará, sob um governo justo, a fazer o que quiser, pois ele faz aquilo que a lei já permite e não faz aquilo que a lei já proíbe.

Aristóteles ensina que o homem virtuoso faz livremente aquilo que o criminoso faz por temor à lei. Uma lei injusta diminui a liberdade do homem virtuoso.

Como é uma sociedade justa, em relação à liberdade?

Numa sociedade justa, temos direitos que correspondem aos nossos needs (saúde, conhecimento etc.). Chamamos a esses direitos de direitos naturais.

Mas o homem, ao contrário das abelhas e formigas, não é um ser meramente gregário. Ele é também político. Isso quer dizer que não agimos baseados apenas em instintos, mas também no exercício do raciocínio. Ou seja, as sociedade humanas não são apenas naturais, mas são convencionais.

É por isso que Aristóteles dizia que o homem é um animal político. Por isso, um outro direito natural é o de liberdade política, com as exceções de praxe: doentes mentais, crianças e criminosos.

7) Igualdade

Quais são os tipos de igualdade?

Podemos abordar a igualdade de três modos ou dimensões.

I) a) Igualdade pessoal
- Igualdade natural (genética etc.)
- Igualdade adquirida ( treino, hábito, estudo etc.)

b) Igualdade circunstancial
- Igualdade de condições (todos são iguais diante da lei, p.ex.)
- Igualdade de oportunidade (todos começarem com a mesma riqueza, p.ex.)

II) a) Igualdade declarativa: é quando se diz que algo é ou não é igual. A igualdade declarativa é válida tanto para a igualdade pessoal quanto para a circunstancial.

b) Igualdade prescritiva: é quando se diz que algo deve ou não deve ser igual. A igualdade prescritiva vale apenas para a igualdade circunstancial, simplesmente por que não faz sentido para a igualdade pessoal. P.ex.: todos devem poder votar.

III) a) Igualdade de grau. P.ex.: numa democracia moderna, todos podem votar, mas alguns acabam tendo mais poder político do que outros (uns são funcionários públicos nomeados, outros são delegados de polícia, outros são deputados, senadores, governadores, presidentes etc.). Todos tem um mínimo de poder político, mas uns têm mais poder político do que outros. É a desiguadade de grau.

b) Igualdade de tipo. P.ex.: numa democracia antiga, nem todos podiam votar. Isso significa que havia entre o não-eleitor e o eleitor uma desigualdade política de tipo. Uns tinham um mínimo de poder político, mas outros não tinham nenhum.

Como é uma sociedade justa, em relação à igualdade?

À exemplo da liberdade, as igualdades a que temos direito devem ser deduzidas a partir da natureza humana, para que preencham os nossos needs.

Os homens são iguais em sua humanidade, ou seja, todos compartilham as mesmas características da espécie humana. Neste aspecto, são todos iguais em tipo.

Portanto, a todos os homens deve ser dado o direito igual e circunstancial em termos políticos e econômicos.

Direitos políticos: Todos têm direito à cidadania com sufrágio, garantindo a todos o direito à participação política. Como vimos, isso garante a todos um direito político igual em tipo, mas não em grau.

Direitos econômicos: Um mínimo de alimento, vestuário, habitação, escolarização (para preencher os needs de conhecimento e habilidade), saúde, tempo livre para lazer e divertimento.

Todos devem ser iguais em tipo e em grau?

Jamais. Vale ressaltar novamente que a justiça requer que todos tenham tais igualdades em tipo, não em grau.
Na esfera política, os homens com maior capacidade e talento se encarregariam de funções que lhes dariam maior poder político.

Na esfera econômica, os homens com maior capacidade e talento se encarregariam de fazer as maiores contribuições à produção de riquezas. Aqueles que contribuem mais têm, com justiça, direito a receber mais.

Na esfera política, é impossível que um homem consiga obter, legalmente, uma quantidade de poder político que chegue a ponto de diminuir (ou destruir) o mínimo de poder político (sufrágio) a que todos têm direito.

Na esfera econômica, as coisas não são assim: é legalmente possível que um ou mais homens obtenham tanta riqueza que chegue a ponto de destruir o mínimo de riqueza a que alguns homens tenham direito. Portanto, no caso da esfera econômica, um limite para o acúmulo de riquezas deve ser estabelecido.

Chamamos de democracia a justa distribuição de poder político. Chamamos de socialismo a justa distribuição de riquezas. Há duas alternativas para alcançar-se o socialismo: pelo comunismo (capitalismo de Estado) e pelo capitalismo socializado (mercado livre, com algumas poucas restrições). Ambos são tipos de welfare state. O comunismo é um meio errado para um fim certo. Segundo Adler, o ideal socialista só pode ser atingido pelo capitalismo de livre mercado.

8) Justiça

Quais os tipos de justiça?

Há dois domínios nos quais a justiça atua:

I) A justiça do indivíduo em relação aos outros indivíduos e ao Estado.

O indivíduo merece ser tratado (ou ele deve tratar) de maneira justa nestes casos: (a) em função de seus direitos naturais (needs), (b) em comparação a outros indivíduos que mereceram mais ou menos sob as mesmas condições (p.ex., é um injustiça quando uma medalha de honra deixa de ser concedida a um soldado mas foi concedida a outro, quando ambos estavam exatamente sob as mesmas condições), (c) agir para o bem comum, isto é, para promover a ordem pública e o Estado de Direito (p.ex., não cometer traição contra a nação, não subornar um funcionário com fins ilícitos etc.).

Repare que todas essas formas de justiça não obrigam o indivíduo a fazer o bem para os outros, mas apenas a fazer o que é devido ou meritório. Do contrário, seria amor, não justiça.

II) A justiça do Estado em relaçao ao indivíduo.

A forma justa de governo é uma república com sufrágio universal, que possua uma constituição que assegure os direitos políticos e econômicos a todos, isto é, uma república democrática e socialista.

Como a lei ganha autoridade?

A autoridade da legislação é derivada das pessoas que a fizeram serem autorizadas a legislar para o bem comum e na própria lei ser justa no cumprimento dos preceitos da justiça natural.

A lei deve, portanto, ter uma fonte autoritativa, isto é, que lhe confira autoridade. É claro que, além disso, a lei precisa da força para que seja cumprida. Afinal, como disse Alexander Hamilton, "Se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário".

A posição acima apresentada é a posição naturalista, ou seja, de que a justiça dos direitos naturais precede (é anterior) à formulação da lei. A posição positivista, ao contrário, sustenta que a lei é que determina o que é e o que não é justo. Trata-se, segundo Adler, de um erro tipicamente moderno. Segundo a posição positivista, a lei não pode ser classificada de justa ou injusta, já que é a própria lei que dá a medida de justiça a todo o resto. A lei, para os positivistas, não é justa ou injusta; ela simplesmente é.

Há, é claro, certas convenções e regras (como as leis de trânsito, por exemplo), cuja justiça ou injustiça é conferida pela própria lei. São os casos de mala prohibita. Por exemplo, o fato de um carro trafegar na contramão é injusto apenas porque a lei assim o determina. Se a mão de direção tivesse sido alterada naquele mesmo instante, trafegar na contramão teria sido justo.

Roubar, estuprar, matar a esmo etc. são mala per se, ou seja, mesmo que a lei permitisse tais males, continuariam sendo injustos do mesmo jeito. Os positivistas, como se vê, são incapazes de distinguir entre mala prohibita e mala per se, reduzindo tudo a mala prohibita.