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28 de maio de 2013

A teologia da mistagogia


Pe. Michael Azkoul

A teologia da mistagogia é sempre negativa ou apofática. A Mistagogia de São Fócio está repleta de expressões teológicas negativas. Quem estiver familiarizado com as liturgias de São João Crisóstomo e São Basílio, o Grande, se lembrará que estes ofícios expressam a linguagem da "santa e augusta hierurgia dos cristãos". [*] Dessa forma, Fócio é coerente com os outros Padres ao referir-se a Deus como o "transcendente em essência", "incorpóreo", "superdivino", "Deus indiferenciado e indivisível" (Mistagogia 6). Ele é a "Trindade superboa (hyperágathos)" (Mistagogia 43), a qual não deve ser confundida com o summum bonum dos escolásticos. Deus não é o "bem supremo"; Ele está para além de todo bem, para além de todos os nomes, descrições, atributos e denominações. Ele está para além de todo conhecimento e todo ser, não sendo nem totum esse nem verum esse. [**]

São Dionísio, o Areopagita, declara apofaticamente no capítulo V de sua Teologia Mística:
Ascendendo cada vez mais alto, sustentamos que Ele [Deus] não é nem alma, nem intelecto; nem possui Ele imaginação, opinião, razão ou entendimento; nem pode Ele ser expresso ou concebido, pois Ele não é nem número, nem ordem; nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade; nem similaridade, nem dissimilaridade; nem possui Ele poder, nem é Ele poder, nem luz; nem vive Ele, nem é Ele vida; nem é Ele essência, nem eternidade, nem tempo; nem está Ele sujeito a contato inteligível; nem é Ele ciência, ou verdade, ou realeza, ou sabedoria; nem um, nem unicidade; nem divindade, nem bondade; nem é Ele espírito, segundo nosso entendimento, nem filiação, nem paternidade; nem nada conhecido a nós ou a qualquer outro ser, nem das coisas que existem ou das coisas que não existem; nem nada que existe O conhece como Ele é; nem conhece Ele as coisas que existem segundo o conhecimento existente; nem a razão O alcança, nem O nomeia, nem O conhece; nem é Ele trevas, nem luz, nem falso, nem verdadeiro; nenhuma afirmação ou negação pode a Ele ser aplicada, pois embora afirmemos ou neguemos as coisas que Lhe estão abaixo, não podemos afirmá-Lo ou negá-Lo, na medida em que a Causa única e oniperfeita de todas as coisas transcende toda afirmação, e a simples preeminência de Sua natureza absoluta está fora de qualquer negação -- livre de toda e qualquer limitação e para além de todas elas.
Não fosse "o conhecimento de Deus implantado em nós por natureza", conforme declarou São João Damasceno [***], e não tivesse Ele revelado-Se em Seus "efeitos", isto é, em Sua energias e operações, e por fim em Sua encarnação, não teríamos absolutamente nenhum conhecimento acerca de Deus.

Ora, se o que os homens conhecem de Deus é resultado de Sua condescendência e se tal conhecimento flui por inspiração, e não por especulação, isso significa que a verdade ou falsidade do filioque deve ser determinada à parte de quaisquer formulações do intelecto humano. O teólogo deve possuir a "mente" (phronema) da Igreja. Portanto, São Fócio revela que todos os hierarcas presentes no sínodo de 879-880 -- inclusive os emissários do papa -- aprovaram "a verdadeira doutrina do Espírito Santo, adotando uma profissão de fé em completo acordo com os Padres, Concílios e, sem sombra de dúvida, com as palavras do próprio Senhor". "Eles aprovaram a doutrina com idêntica intensão (homophrones), com palavra e discurso, e com a assinatura de suas próprias mãos". (Mistagogia 25). De modo oposto, o santo não deixou de notar que aqueles que declaram falsas doutrinas -- neste caso, o filioque -- fracassam na tentativa de "teologizar mistagogicamente" (Mistagogia 20).

Segundo o Patriarca de Constantinopla, o filioque está fora da mistagogia. Ora, em que consiste sua falsidade? Em primeiro lugar, o filioque impôs a analogia do ser à Trindade, ao mistério do Divino. O filioque é uma noção catafática, sendo que os Padres ensinam que todas as afirmações "positivas" acerca de Deus referem-se à Seus "efeitos", à "economia" de Sua ações. Regozijamos na misericórdia que vem de Deus, mas não podemos dizer que a misericórdia seja um atributo de Deus. Podemos crer nas palavras do Gênesis de que o homem é feito "à imagem e semelhança de Deus", mas não podemos depreender daí que o Criador possui "memória", "intelecto" ou "vontade". Esse tipo de linguagem é própria dos homens e só pode ser aplicada a Deus equivocamente.

[*] Ad. Amph., q. 111 (PG 101, 656c)

[**] Sobre a teologia latina medieval tardia, cf. E. Gilson, The Spirit of Medieval Philosophy, traduzida por A. H. C. Downes (Nova York: Charles Scribner´s Sons, 1940), pág. 64ff, 96ff. O escolasticismo reduziu a "teologia negativa" a mero catafaticismo corretivo. Para os Padres, porém, a abordagem apofática era algo normal, e até mesmo os nomes das Pessoas eram compreendidas negativamente. "Declaramos que Deus Pai, aquele que não tem princípio, não é o Filho, nem o Espírito; e o Filho gerado não é nem o Pai, nem o Espírito; e o Espírito Santo 'que procede do Pai" não é nem o Pai, nem o Filho" (São Gregório, o Teólogo, Ora XXXI, 9, PG 36, 141d-144a).

[***] De Fid. Orth. I, 3.

Fonte: Introdução de On the Mystagogy of the Holy Spirit, de São Fócio, o Grande, tradução do Mosteiro da Santa Transfiguração, Studion Publishers, 1983, pág. 20-22, 26.

23 de janeiro de 2011

Filosofia bizantina I


Por que raramente ouvimos falar da filosofia bizantina? Há várias explicações. A primeira é o desprezo com que o Império Bizantino é tratado pela historiografia ocidental. Embora este viés esteja sendo lentamente revertido nas últimas duas décadas, não deixa de ser espantoso que a civilização mais duradoura da história humana, aquela em que a doutrina cristã desenvolveu-se mais intensamente e tantos santos místicos e sábios tenham nascido, vivido e morrido, seja menosprezada, quando não completamente suprimida, de livros de história, teologia e filosofia. A segunda explicação é o papel que a filosofia desempenhava entre os bizantinos, um tanto estranho entre nós. Como veremos neste primeiro artigo de uma série de cinco sobre a filosofia bizantina, o espaço destinado à filosofia era mais estreito e modesto do que o que estamos acostumados atualmente (ver também A filosofia esotérica). Em terceiro lugar, a filosofia patrística e a filosofia bizantina se sobrepõem em muitos pontos; há séculos em que ambas são simplesmente idênticas. Filósofos importantes como João Filipono e Miguel Pselo ficam naturalmente ofuscados por figuras como São João Damasceno e São Fócio, o Grande. Em quarto lugar, a influência do neoplatonismo foi freqüentemente mal-compreendida e exagerada pelos estudiosos dos santos bizantinos, o que os rebaixa de cristãos a meros neoplatônicos.

Neste primeiro artigo, vamos examinar Christian Philosophy in the Patristic and Byzantine Tradition, de Basil N. Tatakis. Trata-se de uma obra composta por ensaios que não foram previamente pensados para formarem um livro. Embora um tanto confuso e às vezes repetitivo, seu caráter introdutório vem a calhar para quem deseja abordar o assunto pela primeira vez.

Tatakis nega a opinião de que não existe filosofia cristã porque não haveria relação entre fé e filosofia – opinião tipicamente racionalista –, assim como nega a redução da fé à própria filosofia – neotomismo – e também nega a idéia de que a fé seja algo totalmente sublimado em relação à filosofia – agostinianismo. Para ele, Étienne Gilson estava certo: uma simples avaliação histórica basta para provar que o Cristianismo influenciou profundamente filósofos como Descartes, Leibniz e Kant, os quais seriam impensáveis sem as noções cristãs de livre arbítrio, graça etc. Em outras palavras, se os filósofos modernos bem ou mal tiveram de levar em consideração os filósofos bizantino, deduz-se daí que o que fizeram foi efetivamente filosofia, e não outra coisa.

Metafísica cristã

Tatakis explica que o estoicismo, as filosofias de Platão, Sócrates, Plotino etc. buscam a contemplação – a união com Deus – mediante a razão, a qual por sua vez provocaria uma mudança análoga na vontade. O Cristianismo introduz a fé como o elemento que realmente efetivará esta união. O êxtase plotiniano é uma condição passiva; o êxtase cristão é ativo, é a energia divina que torna o santo instrumento da vontade divina. A filosofia chama os poucos gênios de eleitos; o Cristianismo afirma que todos são eleitos pela fé. A filosofia pretende alterar a vontade pela razão; o Cristianismo pretende alterar a vontade pela fé, que é algo mais amplo e profundo do que a razão.

Tudo o que havia de verdadeiro entre os pagãos se devia a (1) o fato dos gregos serem “ladrões de Escrituras” (Clemente de Alexandria) e (2) as criaturas naturalmente denotarem a existência do Criador (São Paulo).

A revelação natural é capaz de condenar e salvar o pagão. São os “cristãos antes de Cristo”, nas palavras de São Justino, Filósofo e Mártir. São as sementes do Logos. O Cristianismo é a filosofia perfeita, completa e verdadeira. A revelação completa a filosofia.

O espírito cristão inverte a fórmula filosófica de que a razão impregnada pela fé se tornaria irracional. A razão sem fé é que permanece irracional, pois se constrói sobre areia, sem os princípios dados pela fé. É isso que Santo Agostinho conclui em De Utilitate Credendi.

O filósofo cristão, embora possa versar sobre todos os assuntos que os demais filósofos versam, interessa-se, por inclinação, às questões ligadas à alma, fé, experiência e união com Deus. Leôncio Byzantius (séc. VI) afirma que se dedicar a outros assuntos – “tecnologizar”, ou seja, prosseguir na subdivisão dos seres – é ocupação de céticos, de quem se dedica a buscas infrutíferas e sem-fim. Como esse tipo de busca não tem fim, conclui-se forçosamente que também não faz sentido.

Os primeiros séculos

O cientista formula uma lei ou reage a partir da detecção da causa de um fenômeno. Mas uma criação espiritual, que é um conjunto organizado e complexo que preenche a alma, não admite explicação (exegesis), mas interpretação (hermeneia). Isso abre a possibilidade para múltiplas interpretações. As noções essenciais do Cristianismo não se esgotam. A tarefa dos mestres cristãos é, portanto, estabelecer os limites dentro dos quais pelo menos a essência da religião se mantenha.

Duas escolas interpretativas se formaram:

1)      Alexandria (fim do séc. II). Clemente de Alexandria e Orígenes delinearam os princípios da escola: (a) liberdade de investigação; (b) elevação, ou transformação, da fé em conhecimento, com a ajuda da filosofia; (c) emprego do método alegórico de interpretação. Os principais expoentes desta escola foram Eusébio de Cesaréia, Santo Atanásio, o Grande, São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, São Cirilo de Alexandria, entre outros. Apenas um herege se destacou nesta escola, Orígenes, que ensinava, entre outras coisas, que o mundo é eterno, a alma pré-existe ao corpo, a restauração final de todas as coisas e a inexistência da ressurreição dos corpos. Esta escola salvou a fonte mística da religião, adotando o racionalismo somente no que tangia a explicação do dogma, a qual, em sua essência, sempre permanecia mística e misteriosa. Esta escola é inimiga do antropomorfismo, pois reconhece que há uma distância incomensurável entre Deus e as criaturas.

2)      Antioquia (meados do séc. III). Fundada por São Luciano de Antioquia (não confundir com Luciano de Samósata), mestre de Ário. Esta escola faz uso do método histórico-literário, em voga até hoje. O criador deste método é Teodoro de Mopsuéstia, que rejeitava as alegorias como sendo “histórias para velhinhas” e voltava-se apenas para o sentido gramatical das passagens. A consequência negativa desta escola é rebaixa as Escrituras Sagradas ao nível de um texto qualquer. Suas tendências racionalistas criaram as principais heresias: arianismo, nestorianismo, pelagianismo (Teodoro de Mopsuéstia)

Teodoreto de Ciro procurou sintetizar as duas escolas. Tatakis entende que, por causa disso, sua obra deveria ser mais bem estudada e valorizada.

Introdução ao pensamento bizantino

O Império Bizantino não é mais visto pelos estudiosos como o império que simplesmente obteve a custódia da cultura grega. Em verdade, o Império Bizantino foi um império profundamente original e criativo. No entanto, essa criatividade só pode ser captada por aqueles que investigam os verdadeiros anseios da alma bizantina. A alma bizantina, desde o imperador até o mais baixo dos súditos, buscava ardentemente sua salvação. O anseio de viver os mistérios do Cristianismo, aliado à localização geográfica que os tornaram herdeiros da antiga cultura grega, explicam a união simbiótica entre estes elementos. Os bizantinos tinham a missão de seguir a ordem divina, ou de pelo menos se aproximar dela o mais que possível. A convicção de que o Cristianismo é a verdade plena e íntegra, e não apenas sementes da verdade, guiava as ações e instituições bizantinas.

O Império Bizantino é um fenômeno único: São Gregório de Nissa nunca deixava de se espantar como todos, em toda parte, preocupavam-se e debatiam acerca de questões religiosas.

A civilização e o pensamento bizantinos começaram no fim do século V, quando o Ocidente foi dominado mais profundamente pelos bárbaros e foi se afastando-se e esquecendo-se da cultura grega. Dois perigos sempre rondaram o pensamento bizantino desde então: o apego excessivo à retórica e ao grego ático e o apego às aparências do Cristianismo Ortodoxo – monotelismo e iconoclasmo seriam exemplos deste caso.

O que a Ortodoxia significa

Os grandes teólogos do Império Bizantino faziam uso constante da filosofia antiga. São Máximo, por exemplo, explicou contra os monotelitas que a vontade não é propriedade da pessoa, mas da natureza (physis) ou essência (ousia), sobre a qual a pessoa se funda. A idéia de que duas naturezas implicam em duas vontades é um princípio evidentemente aristotélico.

Assim, podemos dizer que o sentido da Ortodoxia não é discutir ou debater acerca de dogmas. A Ortodoxia parte do princípio, por intuição interior (fé, conhecimento místico) que o dogma simplesmente é. O que a Ortodoxia faz é fornecer uma explicação racional para o dogma. É imprescindível que o estudante do Império Bizantino compreenda isto.

Outro exemplo é o de São João Damasceno. Ele afirma que Deus está para além de toda natureza, de toda razão, de todo silogismo. Deus não é similar a nenhum dos seres que existem (ver p. ex. A doença da religião e sua cura, do Pe. John Romanides). Deus é como um oceano de existência infinita e, portanto, é “indiscutível”. Por isso, o nome que melhor descreve Deus é “Aquele Que É”. Deus é o único ser cuja essência é existência. Deus concede existência a todas as criaturas. A tarefa do pensamento cristão, portanto, não é entender a essência de Deus, mas buscar a salvação da existência do homem. O homem foi criado do nada, como todas as criaturas, mas deseja permanecer constante no ser. Assim, o temor causado pela morte é a perda do ser.

Observamos neste exemplo como os bizantinos faziam uso intenso da lógica dialética de Aristóteles (Organon), ao mesmo tempo em que rejeitavam a metafísica aristotélica.

Leôncio Byzantius concluía que os hereges não apreendiam a plenitude da natureza do Cristo por causa dos termos que utilizavam. Eles não se preocupavam em definir o significado dos termos fundamentais. Os termos podem ser usados em sentido absoluto ou relativo. Por exemplo, o numeral “dois” não deve ser visto como quantidade de pessoas. Cristo é dois em natureza, mas um em pessoa. Cada número é verdadeiro segundo pontos de vista distintos.

Por um lado, os termos não devem ser afetados pelo tempo e pelo espaço; por outro lado, os termos referem-se àquilo que está presente agora, e não àquilo que estará presente daqui a alguns instantes, no futuro. Assim, nenhum objeto admite um termo que descreva sua essência de maneira absoluta. Nenhum objeto deste mundo é constante em essência, pois tudo está em devir.

O princípio metafísico basilar do Cristianismo é justamente “Tu és o mesmo em Ti”, somente Deus é existência, somente Ele é ser. Assim, Leôncio redefine, segundo princípios metafísicos cristãos, termos como essência, natureza, gênero, espécie, distinção, propriedade, acidente, hipóstase etc.

A razão é usada por São João Damasceno para refutar crenças supersticiosas, como a idéia de que as estrelas e os céus têm almas, e por João Filipono para refutar a astrologia, pois ela anularia o livre arbítrio humano.

A diferença entre neoplatonismo e Cristianismo é que o neoplatonismo é uma teoria filosófica fundada sobre um tema racional, buscando o conhecimento do ser, enquanto o Cristianismo busca a salvação do ser. As heresias se interessam mais pela articulação e coerência racional do que pela percepção da nova racionalidade do Evangelho. O Cristianismo corre o risco de se transformar em uma filosofia precisamente no momento em que procura sintetizar uma doutrina do Logos. O Cristianismo beneficiou-se do neoplatonismo, assim como da lógica aristotélica, mas graças a São Máximo e outros Padres, escapou do idealismo da filosofia grega e do fatalismo engendrado pela necessidade natural e eterna do neoplatonismo.

Misticismo bizantino

Há, na opinião de Tatakis, duas grandes correntes coexistentes de misticismo:

1)      A forma exterior, popular, de orientação mais “oriental”. Formada principalmente no deserto do Egito, cujo objetivo principal era a “luta contra a carne”. O tema principal são as virtudes e seus vícios correspondentes. O maior expoente é São João Clímaco. Sua “Escada da Ascese Divina” foi a obra mais popular entre monges e leigos ao longo do Império Bizantino. As principais virtudes são a fé, a esperança e o amor, sendo que a maior de todas é o amor, ainda segundo São João Clímaco. O apego erótico da alma a Deus enriquece a vida emotiva, e é daí que o idealismo moderno se deriva. O sentido cristão de pecado, aliado à idealização da mulher na figura da Virgem Maria, dá o tom do eros a Cristo, culminando no casamento místico com Deus. A impassibilidade é alcançada, mas não à maneira dos estóicos, que a vêem como o objetivo ascético, mas como etapa penúltima, antes da deificação.

2)      A forma interior, mais completa, superior, de orientação mais “grega”. Os principais expoentes são São Máximo, o Confessor e, mais tarde, São Simeão, o Novo Teólogo. Há dois tipos de verdade, segundo São Máximo: (a) a verdade que se obtém com a razão, fruto de silogismos; os mundos sensível e inteligível se correspondem mediante alegorias e símbolos; cada mundo é uma alegoria e um símbolo do outro: as espécies do mundo sensível são símbolos do mundo inteligível, enquanto os conceitos e silogismos organizam o mundo sensível no inteligível em padrões racionais; (b) a verdade que se obtém pela intuição do noûs, que une o homem com Deus; neste caso, é necessário um processo ascético que adquira as virtudes do amor, da prudência e da oração: o amor pacifica a potência irascível da alma, a prudência aplaca a potência apetitiva e a oração separa a mente dos pensamentos, apresentando-a nua para Deus; os pensamentos são percepções de seres existentes, não importando se sensíveis ou inteligíveis, que ocupam a mente com conceitos deles derivados; a oração desconecta o noûs desses conceitos, reconectando-o a Deus; o amor é fundamental para que nos tornemos um com Deus, da mesma forma que, por amor, Cristo se tornou homem; a oração efetivará seu objetivo quando o homem, enfim, perceber que ser é superior a conhecer.

No entanto, São Máximo não afirma que o conhecer é ruim ou inútil, pois o conhecer revela os mistérios residentes na raiz das coisas, conferindo o ímpeto para separá-las e estabelecer o homem na razão do ser. Portanto, o conhecimento estimula a superação de si próprio.

A antropologia de São Máximo ensina que o homem tem o dever intenso de voltar a encontrar a condição inicial da natureza humana, de realizar em si a natureza que Deus lhe deu, agindo segundo essa natureza: razão, noûs (imagem) e lei e virtude (semelhança). É a pura autognosia (autoconhecimento) cristã.

São Simeão procura fazer uma síntese de São Máximo e São João Clímaco. Segundo São Simeão, o maior dom de Deus aos homens é a autodeterminação, a capacidade do noûs elevar-se e unir-se a Deus, o Senhor da salvação e da misericórdia. A vontade se estende para além da autodeterminação, alcançando coisas que estão fora do controle humano. Além da vontade, as paixões também restringem a autodeterminação: as paixões naturais (fome, sede, sono etc.) são irremovíveis, mas as paixões da alma (desejo, raiva), que fazem parte da autodeterminação, foram desvirtuadas pela Queda e pelo pecado. A Queda, no entanto, não apagou totalmente a autodeterminação, pois ainda há traços do desejo de ser livre.

O cristão é aquele que tem consciência da “doença inteligente da alma”. Quem ainda não atingiu este estágio não deve a rigor ser chamado de cristão, pois não foi iluminado pelo Sol da justiça. Quando é capaz de dizer a Deus que “o valor da autodeterminação, para mim, era como uma besta irracional quando é libertada de suas correntes”, então o desejo e a raiva estarão sendo usados de maneira apropriada, em busca dos “bens inteligentes” de Deus.

Quanto à oração, há três abordagens: (a) emotiva e imaginativa (falsa, que com o tempo torna-se demoníaca), (b) restrita a leituras, sem prática (melhor que a anterior, mas apenas como a noite de lua cheia é melhor que a noite sem lua), (c) guiada por um pai espiritual, que leve o fiel à união com Deus.

A natureza humana é “mutável e cambiável, exatamente como os hábitos”. O amor do Evangelho é alcançado quando o homem combina a potência racional com a potência natural do amor. A potência natural do amor representa apenas os primeiros passos; depois vem o amor voluntarioso, o amor do Evangelho, quando há uma mutação completa do noûs. É aí que ocorre a visão divina, a audição de palavras inefáveis. Em seguida, o conhecimento divino, a sabedoria do Logos, o abismo dos conceitos e mistérios ocultos do Cristo.

Os silogismos conceituais são movimentos da mente em direção àquilo que está no futuro, em direção a algo que ainda não foi realizado. Isso porque um conceito nada mais é do que uma memória gerada pela mente para algo desejado ou para algo que ainda não ocorreu. Trata-se de visões indiretas. A visão de Deus (theoria) é necessariamente direta, que é objetivo de todos os homens, e não para alguns eleitos, como o êxtase platônico. Teologia é, portanto, uma narrativa daquilo que foi visto; é uma história, e não uma série de silogismos e conceitos.

Segundo São Nicolau Cabasilas, se o homem quiser seguir a lei do espírito, não é necessário que se esforce intensamente, que “transpire”, que abandone o trabalho, que vista roupas estranhas e que viva uma vida esquisita, afastada. O propósito é descrever a graça divina no interior de um cristão comum. São Nicolau não descobre o homem espiritual no monge asceta, mas na natureza humana que Deus nos comunica e chama todo cristão a descobrir. São Nicolau não abandona a razão – é um exímio estudante de astronomia, por exemplo –, mas, pelo contrário, chama os santos de imperfeitos, pois não teriam realizado aquilo que tinham em potência.

Depois de fracassar em seu debate com Gregoras, Barlaão dirige-se a Tessalônica e, em seguida, ao Monte Athos. Chamando os hesicastas de “vigilantes do peito”, Barlaão argumentava que a theoria é, na verdade, a ciência e o conhecimento. A sabedoria exterior, ou seja, o estudo de Pitágoras, Platão, Aristóteles etc. seria o caminho para a purificação da alma. A Luz incriada, conforme teria sido vista pelos apóstolos, não pode ser realmente incriada. Raciocinando à maneira escolástica, a disputa entre Barlaão e São Gregório Palamás tornou-se um símbolo das divergências entre Oriente e Ocidente, entre a teologia discursiva e a teologia narrativa. O erro neoplatônico é desprezar completamente a matéria, é achar que a oração deve ser feita fora do corpo: São Gregório e os hesicastas ensinavam a oração no coração. O homem tem contato com uma das energias, que são infinitas. A nuvem divina, São Gregório ensina, baseando-se em São Dionísio, o Areopagita, é a essência divina, de onde a energia divina deriva. Como isso é possível, só Deus sabe e aqueles que assim a experienciaram. Quem não teve essa experiência não pode realmente saber disso.

A disputa iconoclasta

A disputa iconoclasta é uma manifestação da verdadeira disputa por trás de todas as heresias cristãs: a contenda entre racionalismo e misticismo. A influência árabe-muçulmana é evidente, embora não explique toda a contenda. Segundo o Islã, os ícones vão de encontro à idéia de onipotência e infinitude divinas. Os símbolos artísticos que decoram as mesquitas assumem as mais diversas formas, sem limites, assumindo a possibilidade de serem perpetuados ad infinitum. Deus não tem forma, daí a decoração abstrata.

O imperador iconoclasta Constantino V afirmava que os ícones circunscrevem a natureza divina, que seria indescritível. A matéria inativa e morta esteriliza a glória do Cristo. Esse tipo de racionalismo é semelhante ao monofisitismo, que via em Jesus Cristo somente Sua natureza divina.

O Patriarca Ecumênico Germanos, por outro lado, fazia a distinção entre latreía (adoração) absoluta e latreía relativa. A relativa é um meio para um propósito superior, de elevar a adoração a Deus. A matéria não desempenha nenhum papel na adoração, que é dirigida ao protótipo ali representado. Nos ícones do Cristo, é Sua forma humana que está ali inscrita, e não a Sua divindade inconcebível e invisível. A forma exterior não deve confundir a adoração cristã com a adoração pagã: é o sentido interior que o dita e explica.

São João Damasceno dizia que “é o Senhor, ao dizer que seus discípulos eram bem-aventurados, que ensinou que 'bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem; porque em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram'"..

São Nicéforo explicou como a tradição era formada. Quando algo dura, transforma-se num hábito. Este hábito então adquire o poder da natureza, que é a coisa mais poderosa que existe. Mas o que faz a tradição se transformar em hábito e depois em natureza? Ele ensina que a . A tradição não se explica por “provas técnicas” da “sabedoria exterior”, nem pelos sinais exigidos pelos judeus. A fé é o princípio mais inabalável, é aquilo que verdadeiramente fornece os primeiros princípios. Recentes pesquisas indicam que cientistas e filósofos progridem em seus campos por causa da fé que transcende a racionalidade de seus dados, uma fé que, em última instância, não pode ser provada. Os ícones são, portanto, um meio de apresentar a tradição e a história da fé. Mas os ícones não são, como alguns imaginam, uma mera representação da história da fé para fins populares e paroquiais. Na verdade, os ícones fazem com que o espírito humano, de maneira imediata e direta, veja as coisas ali inscritas como se estivessem vivas, ali mesmo, diante dos olhos do fiel. As palavras levam o espírito a uma “visão” meramente indireta ou tácita. Os ícones são os melhores pontos de partida da estrada metafísica.

Predestinação e autodeterminação

Platão, no fim de seu famoso tratado político (República 614b3) conta o mito de Er. Em suma, ele ensina que a vida da alma e suas qualidades são determinadas ou especificadas pelas condições que a cercam. Assim, existe liberdade apenas antes da alma fazer sua escolha antes de encarnar-se. Nas Leis, Platão ensina ainda que somente as almas que não experimentaram a filosofia têm de escolher. Escolha implica em ignorância, enquanto o filósofo detém conhecimento. Os demais só têm chance de salvação se viverem onde os filósofos governam.

Similarmente, Aristóteles conclui que o melhor a fazer é levar uma vida teorética (contemplativa), vivendo de acordo com aquilo que há de superior em nós, a razão.

Para ambos, escolha e liberdade são imperfeições. Verdade e liberdade é uma contradição de termos.

Epicuro procura preservar a liberdade individual alegando que as ações deixariam de ser moralmente imputáveis caso fosse o contrário. Mas a explicação de Epicuro acaba sendo meramente cosmológica, afirmando que existem “ídolos” de seres formados pelo fluxo incessante de minúsculas partículas de todos os corpos, que, depois de apreendidas pelo espírito, causam a vontade de mover o corpo desta ou daquela forma. É um determinismo psicológico, no final das contas.

Carnéades (séc. II a.C.), exímio filósofo, julgava que a vontade não depende de causas exteriores. Sua teoria infelizmente não exerceu muita influência.

Os estóicos também submetem sua explicação a causas cosmológicas. Para expressar seu pensamento, Crisipo adotava a seguinte imagem: um cone e um cilindro estão em estado de repouso no alto de uma colina. Seu repouso é perturbado por um impulso, quando então os dois corpos desabam colina abaixo. Porém, percebe-se que cada um cai à sua própria maneira: o cone cai como um cone, o cilindro cai como um cilindro. O problema do homem é justamente cair segundo a espontaneidade particular de sua própria natureza, a qual, segundo os estóicos, nada mais é do que a razão.

O Cristianismo ensina que Deus prescreve leis para os homens, mas permite que eles criem leis para si próprios. A principal diferença entre estóicos e cristãos é que estes acreditam na autodeterminação. A verdadeira liberdade é não pecar, é a vontade de um ser livre não se escravizar ao pecado. Ao pecar, Adão perdeu sua liberdade, restando-lhe apenas um resquício de vontade de tornar-se livre. Mas, ensinam os cristãos, o retorno a esta primeira natureza exige a ajuda da graça divina.

A diferença entre as crenças pagãs e o Cristianismo é notória do ponto de vista da criação. Os pagãos – estóicos inclusive – ensinam que o mundo é eterno. Deus é uma espécie de princípio interpretativo do universo, um Deus que, no fundo, é meramente cosmológico – o Primeiro Motor de Aristóteles e o princípio ativo e racional dos estóicos são alguns exemplos. O Deus cristão é autenticamente metafísico, suprapessoal e supernatural, já que separa radicalmente Criador de criatura. O Deus dos cristãos é uma pessoa, e não um princípio interpretativo. Assim, ao mesmo tempo em que Deus é super-substancial, o Cristianismo objetiva livrar o homem de sua dependência cosmológica, a fim de que possa ser deificado.

O consentimento heróico dos estóicos não deixa de expressar sua submissão ao destino. Em verdade, a postura cristã é semelhante a de Sócrates, que dizia que o homem deveria ser o regulador de todas as coisas “que estão ao seu alcance”. Os cones e cilindros estóicos estão submetidos à necessidade absoluta. A espontaneidade da autodeterminação cristã não a acorrenta à necessidade.

São João Damasceno, São Marcos de Éfeso, Gennadius Scholarius, seu discípulo Teófano de Medéia e muitos outros, ao longo de toda a vida cultural bizantina, defendem a autodeterminação.

Tatakis não deixa de notar que a predestinação protestante explique, pelo menos em parte, o determinismo cientificista que caracteriza a modernidade.

Platão e Aristóteles no Império Bizantino

Platão e Aristóteles foram introduzidos no Império Bizantino de duas formas: (1) indiretamente, através do neoplatonismo, (2) diretamente, através da leitura de seus próprios textos.

Embora sejam inimigos, neoplatonismo e Cristianismo compartilham da mesma "ânsia", o que acabou por criar certa afinidade entre eles. O movimento psíquico das coisas sensíveis para o mundo inteligível e o retorno da mente para o Uno são aspectos que, de certa forma, chamaram a atenção dos Santos Padres. Não se deve esquecer que ambos cresceram juntos no grande caldeirão cultural de Alexandria.

Praticamente não existiu autores bizantinos que não tenham se beneficiado de Platão e Aristóteles, seja na forma de adoção crítica, seja por simples rejeição. São João Damasceno adotou intensamente a forma lógico-dialética de Aristóteles, e ainda mais o fizeram os aristotélicos do século XII, como Miguel de Éfeso, Eustrácio de Nicéia, Nicolau de Methone etc.

Os diálogos de Platão foram igualmente influentes. Nos séculos V e VI, diversos diálogos de forma platônica foram criados para defender as doutrinas cristãs. Os mais importantes foram os de Enéas de Gaza (séc. VI) e os diálogos de seu amigo Zacarias de Gaza, Bispo de Mitilene. Todos preservaram a graciosidade platônica, o fluxo natural, a formação do ethos. Mais tarde, do século XI em diante, há João Mauropous (Bispo de Euchaita), brilhante hinógrafo, que pede ao Cristo, em um de seus epigramas, que tenha piedade de Platão e Plutarco. Há também os tratados filosóficos de Demetrios Kydonis (séc. XIV).

Já desde 50 a.C., com Andrônico de Rodes, uma grande quantidade de filósofos fizeram comentários às obras de Aristóteles. Os comentários a Platão existiram também, mas em menor quantidade. Curiosamente, o renascimento de Aristóteles não deu margem a uma nova filosofia, como foi o caso do neoplatonismo em relação a Platão. Isso se explica pelo fato das obras de Platão serem moldadas para conduzir a alma, para criar uma atmosfera verdadeiramente filosófica, escritas para pessoas com olhos treinados e mente madura. As obras de Aristóteles são mais sistemáticas, dialéticas, introdutórias, mais assemelhadas a livros-texto.

Há dois aspectos interessantes nos comentários a Aristóteles: (1) eles ajudam a entender as obras aristotélicas, (2) apresentam por outro lado um Novo Aristóteles, que é o Aristóteles dos comentadores. Talvez o resultado mais importante tenha sido a imposição da metodologia aristotélica nos autores bizantinos, a ponto da dialética ser tomada como sendo a própria filosofia. Isso deixa claro que a filosofia não era usada pelos bizantinos para descobrir a essência das coisas, já que este era o papel da doutrina cristã, mas era apenas uma técnica, um método, para formular a essência.

O comentador mais antigo é Alexandre de Afrodisias (séc. II). No entanto, ele também apresenta aspectos novos ao ensinamento de Aristóteles, como o quarto tipo de operação da mente, a “percepção da percepção”, que é o Deus de Aristóteles. Isso implica que Deus é quem põe em movimento nossa atividade de percepção; o conhecimento não é uma “visão em Deus” (ascese da mente a Deus), mas uma “visão através de Deus”. Porfírio, discípulo de Plotino, é outro comentador importante, cuja Introdução ao Estudo das Categorias é considerado basilar para a dialética bizantina (e importante no Ocidente também). Temístio (séc. IV) e Simplício (séc. V) também foram importantes comentadores neoplatônicos de Aristóteles.

A partir do século V, as obras de Aristóteles e seus comentadores começaram a ser traduzidos para a língua siríaca. No século IX, os árabes já tinham à sua disposição toda a obra de Aristóteles (menos a Política) e todos os comentadores, além do Timeu, da República e do Sofista de Platão, as obras da medicina grega de Galeno e a astronomia grega de Ptolomeu (Al Magesta), além de importantes textos bizantinos como João Filopono e São João Damasceno.

A interpretação que os árabes davam a Aristóteles eram no mínimo interessante. Um exemplo típico é o fato de em 840 as Enéadas de Plotino serem publicadas com o nome de “A Teologia de Aristóteles”. É deste estranho casamento entre neoplatonismo e aristotelismo que nasce a filosofia árabe.

Os ocidentais, por sua vez, tomaram contato com Aristóteles no século XII, quase ao mesmo tempo em que os árabes da Espanha e de Constantinopla. O Ocidente já havia desenvolvido uma filosofia interessante, mas a introdução de Aristóteles causou grande furor e confusão. Em princípio, os papas proibiram a edição da Metafísica e da Física de Aristóteles, ou pelo menos que fossem omitidos os trechos supostamente anticristãos, mas abriram mão disto mais tarde, tamanho o desejo de aprender Aristóteles e seus comentadores. Começa assim uma história de cristianização de Aristóteles, culminando em Tomás de Aquino. Ele procurou mostrar que a filosofia de Aristóteles, embora autônoma e independente do Cristianismo, na verdade estava de acordo com os dogmas cristãos: o que quer que fosse filosoficamente verdadeiro também era verdadeiro para o Cristianismo. O domínio de Aristóteles no Ocidente foi longo, durando até o século XV, e este período ficou conhecido por escolasticismo. Tomás de Aquino também se beneficiou de textos bizantinos, como os comentários de Filopono ao De Anima, mas a verdade é que a influência bizantina nunca foi muito bem estudada.

As duas obras de Filopono que nos interessam, no que diz respeito aos comentadores bizantinos de Aristóteles, são “Da criação do mundo” e “Da eternidade do mundo”. Se o mundo fosse eterno, então, de certa forma, a infinitude estaria manifestada no mundo, o que lhe conferiria quantidade, número. É impossível. Além disso, Filopono discorda de Proclo, segundo o qual toda energia – e toda criação portanto – pode ser considerada movimento (devir). A vontade de Deus não precisa de tempo e dimensão para se manifestar. A operação espiritual da criação é atemporal, não pode ser considerada um movimento. Eis que o Cristianismo ensina que nem tudo o que é criado no tempo está sujeito ao movimento, ao eterno devir – o homem está livre das visões materialistas da cosmologia. Ademais, Filopono não considera que a alma contenha o princípio do movimento, como dizia Aristóteles. O sol ilumina quando nasce, mas o calor gerado não significa que tenha sido da vontade do sol. Assim, a alma racional, quando surge, causa a vida e o movimento, mas sem desejá-los. Filopono escapa da psicologia aristotélica, que sujeita os fenômenos físicos e psíquicos a categorias naturais (“a alma é a primeira enteléquia de um corpo natural que possui a possibilidade da vida”, De Anima 412a27). A alma é introduzida de fora no corpo humano, e não representa uma privação, como queria Platão.

Um dos mais importantes aspectos a serem notados é o fato de Aristóteles achar possível que a mente apreenda as causas, isto é, os primeiros princípios dos seres. Filopono discorda radicalmente disso. Não há um caminho que leve do efeito à causa, ou do fenômeno para aquilo que é. Não é dada ao homem a possibilidade de apreender as causas e, portanto, sabemos pouquíssimo acerca delas. O conhecimento humano permanece na superfície das coisas, incapaz de se mover das aparências para a realidade. Este movimento só é possível dentro dos limites de determinados dogmas, os quais são dados por revelação. Quando o espírito absorve conscientemente estes dogmas, então se comunicará com algo que está para além do sensível. Ademais, Filopono considera as idéias platônicas como sendo apenas os pensamentos criativos de Deus, os arquétipos das coisas sensíveis, mas não que sejam as coisas “reais”, à parte do Criador, como pensava Platão. “Tu deves ver as coisas mesmas, e não apenas as hipóteses de Platão”, disse Filopono a Proclo.

O aristotelismo dos bizantinos restringe-se assim à forma, ao arranjo, às verdades científicas, mas não à metafísica de Aristóteles. Assim também era para Leôncio Byzantius e São João Damasceno. O Oriente faz uso criativo do racionalismo de Aristóteles e do misticismo contemplativo de Platão. O Ocidente porém deixou-se dominar por Aristóteles, imprimindo em sua espiritualidade um viés excessivamente racionalista. É claro que essa explicação não é historicamente válida, já que nem Aristóteles era totalmente racionalista, nem Platão era totalmente contemplativo.

No século IX, o domínio intelectual de São Fócio foi enorme. Uma discussão interessante é a refutação dupla do nominalismo e do realismo. Espécie e tipo são corpóreos, mas não são corpos. Isso significa que ambos denotam as essências das coisas, mas não são eles mesmos coisas; eles desenvolvem a essência das coisas, mas não são a causa da constituição das coisas. São nomes, noções apropriadas para denotar a existência específica das coisas, mas não para dar aos seres aquilo que não precisam. Daí a rejeição das idéias platônicas – a pré-existência de idéias arquetípicas implica em um Deus técnico, impotente. Veja a nuance da afirmação: espécie e tipo existem, mas são corpóreos, e não corpos.

No século IX, começou a surgir no Império Bizantino admiradores de Platão e da educação grega. Entre os mais importantes, temos Aretas, Bispo de Cesaréia, discípulo de São Fócio, Leão o Matemático. O maior de todos, sem dúvida, foi Miguel Pselo.

Pselo preocupava-se com o conhecimento apócrifo (mágica, astrologia), que ameaçava a saúde da mente e removia o firme fundamento do Cristianismo.

“Eu sei que Deus vê todas as coisas, que Ele é o princípio de tudo; que todas as coisas vêm dEle e retornam a Ele. Embora eu saiba de tudo isso, penso que a natureza que existe entre o Criador e as criaturas é como uma mão por meio da qual Ele governa as coisas deste mundo, embora permaneça imóvel enquanto primeiro princípio, ”. Em outras palavras, o homem pode investigar as causas próximas dos fenômenos e da natureza dos seres com o uso da ciência. É por isso que Pselo dá esta excepcional definição de natureza: “Natureza é um poder invisível aos olhos, mas visível à mente, estabelecida por Deus em todos os corpos, um princípio de movimento e repouso”.

Porém, há coisas que são impossíveis aos silogismos, aos raciocínios e às provas. O conhecimento silogístico é limitado, seja pela natureza do objeto (a essência de Deus, por exemplo), seja pela natureza do próprio pensamento, que opera com proveito somente quando certos princípios se aplicam. A mente existe acima do pensamento. Sua tarefa é abraçar as coisas de maneira superior e imediata, mas só é possível àqueles que ascendem a níveis elevados de perfeição e ciência.

A filosofia é a melhor preparação para aqueles que desejam se elevar à esfera teorética, para além do silogismo, que desejam se exercitar com diligência na filosofia e pesquisar outras formas de pensamento. “Temos de absorver dos gregos sua ciência das coisas existentes e usá-la em conjunto com nossa filosofia [cristã] para entendermos a forma e a verdade”. Ele considera que a filosofia grega estava enganada acerca de Deus. O amor que Pselo nutre por Platão se deve ao fato de ele não confiar unicamente nos silogismos e nas provas. Ele não perdoa o fato de Aristóteles ter versado sobre questões teológicas de maneira tão humana, baseando-se somente em silogismos, embora soubesse que o caminho mais elevado e verdadeiro fosse apreender a mente divina, isto é, a contemplação teorética.

Numa época em que a teologia mística restringe-se exclusivamente pela deificação, pela iluminação mística, Pselo mostrou o caminho platônico, o qual, a partir de silogismos, elevamo-nos por meio das ciências matemáticas ao entendimento e à teoria.

“A filosofia divide-se em duas partes: a primeira é impassível e imaleável, o qual somente o noûs pode apreender; a segunda é delicada e passível, é sociável e filantrópica. Louvo a primeira, mas não a amo; a segundo eu admiro em menor grau; mas esta é a que mais desejo perseguir”.

João Ítalo, discípulo de Pselo, seguiu o neoplatonismo de seu mestre, mas de uma maneira radical. Por causa de suas heresias, o Santo Sínodo apresentou 11 artigos que denunciavam as posições anticristãs de Ítalo. Para ele, a filosofia não era um mero exercício da razão ou um estágio preparatório para uma penetração mais profunda nos mistérios da doutrina cristã. Ítalo queria dar à filosofia autonomia completa. O senso de mistério está totalmente ausente de seu pensamento. O movimento hesicasta é, assim, uma reação ao cientificismo e ao racionalismo que surgira após Pselo. Estes sintomas, em intensidade muito maior, surgirão no Renascimento.

Os anos finais do Império Bizantino viram surgir Pletão e Bessarion. Quase toda a obra de Pletão é a pregação da vitória do elemento helênico e da necessidade de se abandonar o Cristianismo. A velha síntese que fez parte do Império Bizantino tinha de ser rompida. Se a nação queria ser salva, tinha de apegar-se à Grécia. Pletão é, na verdade, um sonhador, um sujeito apartado das circunstâncias práticas da vida do Império. Ele tornou-se o pioneiro no uso do método científico para tratar questões de natureza política. O eudaemonismo (prosperidade) depende da forma do Estado: separação dos cidadãos em três classes, propriedade comum, intervenção estatal, exército nacionalizado, fortalecimento do comércio e da produção nacional, guerra contra produtos de luxo etc. É um pioneiro do socialismo. No entanto, somente o rei deveria por em prática este plano, o que absolve Pletão da acusação de ser revolucionário. Ele esteve em Ferrara-Florença (1438-1439), onde considerou os dois lados como sendo igualmente sofistas, interessados apenas em ganhos políticos. Juntamente com São Marcos de Éfeso, Pletão não assinou a união da Igreja.

Como via no Cristianismo uma decadência, ocupou-se de criar sua própria filosofia religiosa: Deus ocupa o centro de seu sistema e a maior virtude humana seria a piedade (somente ela torna o homem semelhante a Deus). "Tomando como princípios as idéias e revelações comuns a todos [as “luzes naturais”, diriam mais tarde os iluministas do século XVIII], devemos deixá-las penetrar profundamente em nós e, com silogismos rigorosos, tirar delas seus princípios, suas conseqüências".

A influência de Pletão no Ocidente foi enorme, pois encontrou em Ferrara-Florença um círculo de homens interessados em Platão, até então amplamente desconhecido entre eles. A disputa que a obra de Pletão suscitou entre platônicos e aristotélicos fez Bessarion escrever In calomniatorem Platonis, originalmente escrita em latim mesmo. Para os bizantinos, esta obra não apresentou grandes novidades, mas causou grande alvoroço entre os ocidentais. Tatakis considera razoável afirmar que Pletão e Bessarion não só prepararam o terreno para a Renascença como a entregaram pronta.

Tatakis dedica um capítulo exclusivo à ciência bizantina, mas não é de nosso interesse determo-nos nela. Talvez seja interessante apenas observar que o Império Bizantino não empreendeu nenhum grande invento ou desenvolvimento tecnológico digno de nota, uma vez que essas atividades eram vistas pelos bizantinos – e por outras civilizações antigas – como inferiores e bárbaras. Os três campos da ciência que foram bem desenvolvidos pelos bizantinos foram a filologia (necessária para a recuperação de textos clássicos), a história (abre ao historiador a possibilidade de entender melhor os seres e de prever com mais precisão o futuro) e o direito (os bizantinos superaram o apego à jurisprudência do direito romano, criando um conjunto de leis mais bem sistematizadas e organizadas por princípios sólidos e cristãos).

Ilustração: Miguel Pselo com seu discípulo, o Imperador Miguel VII Ducas - Mosteiro de Pantokratoros, Monte Athos.

12 de novembro de 2010

A cosmovisão medieval


Como será viver em outro mundo? Não me refiro a outro planeta, mas a outro mundo. Se por “mundo” entendemos não apenas a totalidade do universo físico, mas também todas as criaturas imateriais que existem, então concluiríamos que é impossível viver em outro mundo. Não há outro mundo além deste e, se há, então também faz parte do mundo. Porém, viver em outro mundo pode significar viver em uma época na qual a maneira como o mundo é organizado – sua estrutura e a hierarquia entre os seres – seja vista de maneira radicalmente diferente.

Em The Discarded Image, C. S. Lewis explica como era a visão-de-mundo dos homens medievais, sobretudo dos grandes expoentes da literatura medieval. Eles acreditavam na terra plana? Em faunos e ogros? Na astrologia? Sem este conhecimento prévio, sem este “mapa” em mãos, a leitura dos autores medievais e dos primeiros renascentistas torna-se uma tarefa quase misteriosa, para não dizer inútil.

Neste artigo, omiti quase que por completo as inúmeras referências e citações usadas por Lewis, já que meu objetivo é apenas apresentar a estrutura da cosmovisão. Fica claro, portanto, que o leitor desejoso de estudar algum aspecto específico desta cosmovisão deve ter em mãos a obra original de Lewis.

A maneira como as crenças dos homens medievais se formaram não é igual à maneira como as crenças dos homens selvagens (ou “bárbaros” ou “incivilizados”) se formaram. Em linhas gerais, as crenças selvagens são fruto de respostas ao ambiente imediato; são, portanto, produto da imaginação. As crenças medievais, por outro lado, são fruto de longos períodos de estabilidade, nos quais o “ambiente” é feito de livros. Sim, isso mesmo: o medieval era um homem livresco, cujas crenças engendraram-se a partir de raciocínios éticos, filosóficos e científicos sobre livros antigos que se encontravam à sua disposição. Ao contrário do que a cultura popular ensina, os medievais não eram pessoas sonhadoras, que gostavam de pensar em assuntos bizarros e inúteis, mas um verdadeiro organizador, um construtor de sistemas. Tudo era codificado e organizado, desde o sexo até a guerra, a teologia, a ciência e a história. Todas estas questões, juntas, formam o que Lewis passa a chamar de Modelo do Universo, ou simplesmente Modelo. É este Modelo que o estudioso medievalista deve aprender para começar a compreender a mentalidade medieval.

Antes de apreciarmos os detalhes desse Modelo, cabe uma observação importante. Em primeiro lugar, modelos, sejam os modelos científicos modernos, seja o Modelo medieval, não são afirmações absolutamente factuais sobre a realidade. São esquemas provisórios que ajudam a explicar a realidade, ou seja, são esquemas que não devem ser defendidos como sendo os únicos universos de discurso (ver Dialectic) possíveis. Os Modelos, em si, não são a realidade bruta e factual. Daí decorre um fenômeno interessante: quanto mais ignorante for uma pessoa, tanto mais ela se apegará ao Modelo vigente. É por isso que as pessoas ignorantes levam tão a sério o homem das cavernas ou a teoria dos átomos, mas, ao mesmo tempo, não pensam duas vezes em duvidar da vida de Júlio César ou Shakespeare. O Modelo moderno lhes diz que o homem evoluiu desde um passado remoto, há milhões de anos, que os produtos químicos são organizados da maneira que a teoria atômica lhes diz, que os antigos cronistas inventavam estórias emplumadas para enganar o povo idiota. Não é ruim que seja assim, pois é natural que as pessoas simples e fáceis se apeguem a esquemas que por princípio são simples e fáceis. No entanto, quanto mais subirmos na escala do conhecimento e da inteligência, tanto mais o Modelo será questionado. Os homens de ponta, os homens verdadeiramente inteligentes, sabem que os Modelos são frágeis e, ademais, são estes os homens que constroem e aperfeiçoam os Modelos. É natural que não os levem a sério, ou pelo menos não o levem tão a sério. A propósito, isso ajuda a explicar por que os cientificistas não são realmente cientistas (ver Wolfgang Smith).

Mutatis mutandis, o raciocínio acima também vale para o Modelo medieval. As pessoas simples daquela época também levavam o Modelo a sério; no entanto, não devemos nos esquecer que poetas e literatos também são, neste sentido, pessoas simples. É por isso que, na medida que tomamos contato com as obras de filosofia e teologia medievais, o Modelo será cada vez menos usado e cada vez mais questionado. Os poetas, mais ligados aos sentimentos e às emoções, naturalmente se inclinam ao Modelo e buscam nele sua força e satisfação. Os teólogos e místicos praticamente o ignoravam – naturalmente não cooptavam com os elementos pagãos que contribuíam para sua composição –, mas compreendiam que as pessoas o adotassem.

Em segundo lugar, o Modelo medieval é um conjunto de concórdias ou linhas de intersecção entre filósofos, poetas e cientistas, em um longo espaço de tempo. Conforme dissemos acima, os medievais eram pessoas livrescas, ou seja, levavam muito a sério as doutrinas de filósofos e poetas pagãos. Assim, torna-se imprescindível que vislumbremos quais autores influenciaram os poetas medievais.

Lewis divide essa tarefa em dois períodos: o período clássico, anterior à Idade Média, e o período seminal, na aurora da Idade Média. Vejamos muito brevemente os exemplos que o autor utilizou.

Influências do período clássico

A República, de Cícero, foi escrita em 50 a.C., e contém alguns elementos que foram mais tarde aproveitados pelos autores medievais. (1) A tentativa de conferir verossimilhança a um sonho fictício atribuindo-lhe causas psicológicas é um aspecto aproveitado por Chaucer [Sir Geoffrey Chaucer (1340-1400), poeta inglês medieval]; (2) a esfera celeste mais alta, chamada de stellatum, foi mais tarde citada por Dante [Dante Alighieri (1265-1321), poeta italiano medieval] e Chaucer; (3) a previsão da futura carreira política do neto é um elemento aproveitado por Dante; (4) a idéia de que os homens são propriedade dos deuses e que, enquanto propriedade, não devem dispor de si próprios foi utilizada posteriormente por Spenser [Edmund Spenser (1552-1599), poeta inglês]; (5) a insignificância da Terra em relação ao restante do cosmos é uma perspectiva também comum aos medievais e, claro, ao pensamento moderno; (6) Cícero, bem como seus sucessores, faz da Lua o limite entre as coisas eternas e as coisas perecíveis, além de ensinar, um tanto vagamente, é verdade, que os planetas influenciam a sorte dos homens na Terra.

Marco Aneu Lucano foi um poeta romano que viveu de 34 d.C. a 65 d.C. Seus livros também contêm elementos que influenciaram os poetas medievais. (1) Dante aproveita uma prosaica história contada por Lucano em seu segundo livro: Márcia casou-se primeiramente com Cato e, sob suas ordens, posteriormente com Hortênsio; após a morte de Hortênsio, Márcia retorna a Cato, exigindo, com sucesso, seu re-casamento. Dante a transforma em uma alegoria: Márcia é la nobile anima; enquanto virgem, é l´adolescenza; enquanto esposa de Cato, é la gioventude; os filhos de Márcia com Cato são as virtudes próprias dessa idade; o casamento com Hortênsio é a senettude; os filhos de Márcia com Hortênsio são as virtudes próprias da idade; a morte de Hortênsio e a viuvez de Márcia são a transição para um período de idade muito avançada (senio); o retorno de Márcia a Cato é a alma nobre que retorna a Deus; Cato é o próprio Deus; (2) Lucano, em seu nono livro, conta a história da ascese da alma de Pompeu, desde a pira funerária até os céus; Pompeu passa pelo ar, pela fronteira entre o ar e o éter, ou seja, entre a ‘Natureza’ e o ‘Céu’ de Aristóteles, que é a órbita da Lua, e, de lá do alto, observa as zombarias feitas em seu próprio cadáver, em um funeral deveras bagunçado. Pompeu acha graça e ri. Boccaccio [Giovanni Boccaccio (1313-1375), escritor e poeta italiano medieval] aproveita esta história em seu Teseide, usando-a no espírito de Arcita. Chaucer faz algo semelhante em Knight´s Tale, usando-a no espírito de Troilus.

Públio Papínio Estácio (Statius) foi um poeta romano e viveu de 45 d.C. a 96 d.C. Um dos aspectos mais notáveis de sua obra é a citação breve mais interessante da Natura. Para ele, a Natura é a princeps (primeira) e creatrix (criadora) de todas as coisas, inclusive da própria paixão (Pietas) que se revolta contra ela; a Natura também é a dux (guia) daqueles que fazem guerra santa contra as coisas monstruosas e ‘inaturais’. Claudiano (Claudius Claudianus) (370-404) vai além, e ensina que a Natura é o demiurgo que reduz o caos primordial ao cosmos; ela também nomeia os deuses que servirão a Júpiter. No entanto, cabe lembrar que, para os medievais, a Natura não era tudo: seu lugar é abaixo da Lua e cumpre ordens de Deus enquanto vice-gerente desta região. É por isso que os medievais, tornando-a limitada e subordinada, puderam fazer uso mais livre e intenso da Natura em suas poesias.

Apuleio (Lucius Apuleius) (125-180), poeta romano, escreveu De Deo Socratis (Do deus de Sócrates), no qual cita implicitamente dois trechos de Platão: Apologia (31c-d) e Simpósio (202e-203e). Nestes trechos, conta-se que os demônios são criaturas intermediárias entre deuses e homens, e somente com eles os homens são capazes de se comunicar com os deuses. Apuleio ensina, por sua vez, que os demônios ou “espíritos intermediários” habitam uma região entre a Terra e o éter, ou seja, o ar, que se estende até a Lua. Afinal, a ratio determina que deve haver uma espécie genuinamente aérea, assim como os deuses são etéreos e os homens terrestres. Os demônios têm corpos de consistência mais delicada do que as nuvens, os quais não são visíveis aos homens. Apuleio afirma que os demônios são animais, mas não bestas: assim como há animais racionais terrestres (os homens), os demônios são animais racionais aéreos.

Apuleio introduz dois princípios que Lewis considera como capitais para a compreensão da cosmovisão medieval. (1) O Princípio da Tríade, que afirma que duas coisas não podem se unir sem o auxílio de uma terceira coisa. Este princípio encontra-se também em Platão (Timeu 31b-d). Entre Deus e os homens deve haver uma ponte, uma “terceira coisa”. Similarmente, entre a razão e os apetites, entre a alma e o corpo, entre os reis e os súditos etc. (2) O Princípio da Plenitude, que afirma que o universo deve ser plenamente explorado e habitado. Se há uma região entre o éter e a Terra – o ar –, então essa região deve necessariamente ser habitada. Nada existe superfluamente.

Influências do período seminal

O período seminal é situado por Lewis entre 205, ano em que nasceu Plotino, e 533, ano em que o autor acredita ser a primeira vez em que surge São Dionísio. Seus autores são pagãos, influenciados pelo neoplatonismo, mas influenciaram em muitos aspectos a mentalidade medieval.

A obra de Calcídio (Chalcidius), filósofo neoplatônico do século IV, resume-se a uma tradução incompleta do Timeu, de Platão, acompanhada de comentários. Sua obra é importante porque foi ela a principal responsável por traçar o perfil de Platão a ser conhecido pelos medievais. (1) Em Timeu 42b, Platão ensina que a alma dos homens perversos seria reencarnada como mulheres e, caso não se curasse, em bestas. Mas Calcídio acredita que, com isso, Platão quis dizer que quanto mais os homens se entregarem às paixões, tanto mais se parecerão com animais. (2) Em Timeu 40d-41a, Platão explica a criação dos deuses – não os deuses mitológicos, mas os deuses em que ele realmente acreditava, as estrelas animadas. No que tange o panteão de deuses, Platão os rebaixa ao grau de demônios para, em seguida, se recusar a versar sobre eles, dizendo ironicamente que seus antepassados, por serem seus descendentes, deveriam saber melhor do que ele sobre esses deuses. Calcídio leva a explicação platônica ao pé da letra, dizendo que, na verdade, Platão não quis explicar a origem desses deuses por ser um filósofo. (3) Calcídio escreve sete capítulos sobre os sonhos, inspirando-se em Timeu 45e. (4) Calcídio introduz algumas noções astrológicas: a Terra é infinitesimalmente pequena em relação ao universo como um todo; o movimento dos planetas é a fonte dos efeitos que se verificam na Terra, embora ele deixe claro que se trata de um epifenômeno, pois o verdadeiro motivo é os astros seguirem o curso apropriado à sua beatitude (o universo, portanto, é geocêntrico, mas não antropocêntrico); a Terra está no centro apenas para fornecer um centro em torno do qual os astros revolvem, ou seja, por conveniência estética, mas não antropocêntrica. (5) Inspirando-se em Timeu 47b, Calcídio afirma que o propósito da visão não é auxiliar a sobrevivência humana, mas motivar o homem a buscar a Deus ao contemplar o céu e as estrelas; similarmente, o propósito da audição é ouvir música – não a música vulgar, mas a música divina, que nunca abandona o entendimento e a razão –, pois a alma diz respeito a ritmos e melodias e, estando ligada ao corpo, tal relação acaba por se desvanecer. (6) Calcídio reforça os Princípios da Tríade e da Plenitude, a exemplo de Apuleio (por exemplo, a voz de Deus não pode ter vindo diretamente de Deus; a política é uma tríade de soberanos, executivos e súditos; os poderes estrelares comandam, os seres angélicos executam, os seres terrestres obedecem; a parte racional do homem situa-se no capitolium (a casta dos filósofos), a parte ‘vigorosa’ situa-se no peito (a casta dos guerreiros), a parte apetitiva situa-se no abdômen (a casta das pessoas comuns).

Macróbio (Ambrosius Theodosius Macrobius), filósofo neoplatônico do século V, escreveu, entre outras obras, um comentário ao Somnium Scipionis, de Cícero, o qual citamos acima. (1) O historiador Hecateu visita o Egito e descobre que os egípcios possuem muitas gerações mais de antepassados do que os gregos e, mesmo assim, não se encontra entre eles nenhum semideus. Isso leva Macróbio a concluir que o universo sempre existiu. (2) Macróbio afirma que a coisa mais pura e límpida (liquidissimum) eleva-se ao lugar mais alto e é chamada de éter; aquilo que é menos puro e possui algum grau de peso é o ar; o que é mais pesado e representa resistência ao tato (corpulentum), mas ainda conserva alguma fluidez, se junta em forma de água; o restante, o que vem do ‘tumulto da matéria’, o ‘irreclamável’ (vastum), reduz-se a terra. (3) Macróbio identifica cinco tipos de sonhos, sendo que três primeiros são verídicos e dois últimos não têm ‘divinização’ em si: (a) somnium, nos quais as verdades são reveladas de forma alegórica (a psicologia moderna classifica a maioria dos sonhos desta forma); (b) visio, previsão literal e direta do futuro; (c) oraculum, alguma pessoa venerável, talvez até um dos pais, declara o futuro ou dá conselhos; (d) insomnium, mera repetição de preocupações correntes; (e) visum, quando a pessoa não está ainda dormindo e crê que está acordada, ela pode ver formas que se atiram contra a pessoa ou brigam com ela; são os típicos pesadelos. (4) Macróbio descreve a criação da Mens e da Anima (os conceitos neoplatônicos do Noûs e da Alma do Mundo) de maneira repugnante à teologia cristã, pois são descritas como menores e distintas de Deus. (5) Macróbio formulou um sistema ético baseado no quaternion clássico de virtudes: prudência, temperança, fortaleza e justiça. Há quatro níveis em que estas virtudes devem ser avaliadas: político, purgatorial, das almas já purificadas, do Mens (ou Noûs). (6) Macróbio acreditava que a alma poderia retornar ao céu, pois teria vindo de lá; que o corpo é o túmulo da alma; que a alma é o homem; que todas as estrelas são maiores do que a Terra; que as estrelas não produzem eventos terrestres, embora sua posição relativa permita que possamos predizê-los.

Lewis acredita que São Dionísio, o Areopagita, foi o “Pseudo-Dionísio”, o qual escreveu seus famosos livros em algum ano anterior a 533. Sua principal contribuição ao Modelo foi a hierarquia angélica. A primeira hierarquia contém três espécies de anjos: serafins, querubins e tronos. A segunda hierarquia é composta de dominações, potestades e virtudes (não no sentido moral, mas no sentido eficiente, que produz um efeito, como nas ‘virtudes’ de um anel mágico ou planta medicinal). Essas duas hierarquias voltam-se para Deus. A terceira e mais inferior hierarquia ocupa-se dos homens, sendo composta de principados, arcanjos e anjos. Assim como Platão e Apuleio, Pseudo-Dionísio também defende o Princípio da Tríade, ou seja, que entre Deus e os homens há uma hierarquia intermediária, assim como entre as faculdades humanas governante e obediente deve haver uma intermediária.

Boécio (480-524) é o homem mais influente da Idade Média. Até uns duzentos anos atrás, era conhecido e lido por todas as pessoas cultas. Aprender a amá-lo é se naturalizar medieval. A consolação que Boécio busca na filosofia (De Consolatione Philosophiae) é limitada: ao mesmo tempo em que louva a Philosophia por suas provas "inatas e domésticas", a dispensa nas questões cujas "razões vêm de fora" (por exemplo, nas questões que tange o inferno e o purgatório). (1) É da natureza de sua atividade que os filósofos devam antecipar a calúnia; afinal, o propósito maior (maxime propositum) dos filósofos é desagradar a ralé, e não ser admirado. (2) Boécio não compreende por que Deus governa a Natureza com tanta regularidade e os assuntos humanos com tanta irregularidade. Este tema será posteriormente aproveitado por Alanus, Jean de Meung e Milton. (3) O Livro III contém sua famosa apologia à Fortuna. Boécio se recusa a aceitar a idéia de que pessoas más serão necessariamente punidas com castigos e pessoas boas serão necessariamente prósperas e ricas. Esse tipo de perspectiva, comum a pagãos vulgares e cristãos vulgares, é típico de “homens cruéis”. Os bens exteriores nunca são perdidos porque, na verdade, eles nunca foram nossos. A beleza dos campos e das pedras preciosas é delas, não nossa; a beleza das roupas é delas (ou da habilidade do tecelão), mas não nossa. Mesmo a fama não é nossa, porque a fama em um lugar pode ser a infâmia em outro. A nobreza também não é nossa, mas de nossos antepassados. A adversidade tem o mérito de nos mostrar quem são os nossos amigos verdadeiros e quem são os amigos simulados. (4) Todos os homens buscam a Felicidade, mas a maioria o faz por caminhos errados, como o homem bêbado que sabe que tem uma casa, mas não sabe como chegar lá. No entanto, mesmo os caminhos errados, como a riqueza e a glória, mostram que os homens portam alguma semelhança com a verdade, pois o verdadeiro bem é glorioso como a fama e auto-suficiente como a riqueza. (5) O Livro IV contém uma digressão sobre a justiça no contexto da Fortuna. A Philosophia apresenta duas visões: (a) tudo é justiça, pois o homem bom é sempre recompensado e homem iníquo é sempre punido, isto é, o poder maligno e as operações malignas são a própria punição da vontade maligna; (b) a Providência, espelhada na multiplicidade do tempo e do espaço, torna-se Destino. Como em uma roda, quanto mais próximo do centro, menos propensos ao Destino estaremos; toda sorte, vista do centro, é boa e medicinal. Assim, Boécio conclui que acima da ratio existe a intelligentia, e a ratio só é capaz de conceber o futuro como algo determinado. É necessário, portanto, elevar-se ao nível inteligencial para apreendermos o conhecimento que não envolve determinismo. A eternidade não é a mesma coisa que perpetuidade, o que significa que o tempo e apenas uma imagem, quase uma paródia, da plenitude da eternidade. Por isso, Deus sempre vê, jamais prevê.

Os Céus

Every kindly thing that is
Hath a kindly stede ther he
May best in hit conserved be;
Unto which place every thing
Through his kindly enclyning
Moveth for to come to
(Chaucer, Hous of Fame, II, 730 sq.)

a) O mundo

A ciência moderna explica os fenômenos naturais com base em leis e a obediência dos corpos a essas leis. A ciência medieval, por outro lado, faz uso dos conceitos fundamentais de simpatia, antipatia e aspiração. Em outras palavras, todas as coisas possuem seu lugar certo, a região que melhor lhes convém, um instinto residente. No entanto, os medievais não pensavam que as coisas e objetos eram sensíveis e que agiam propositadamente, a não ser no caso das estrelas, já que consideravam-nas seres orgânicos. Neste contexto, é curioso observar que o linguajar moderno é mais ingênuo e antropomórfico do que o linguajar medieval. Afinal, a idéia de que a matéria possui inclinações é mais “animal”, enquanto a idéia de que a matéria obedece a leis e regras é mais “humana”. Ambas as linguagens não devem ser tomadas literalmente, mas o ponto de vista medieval apela muito melhor à imaginação e às emoções, pois projeta sentimentos e desejos à matéria, enquanto o ponto de vista moderno projeta sistemas jurídicos e códigos de trânsito. No caso medieval, sugere-se uma continuidade entre os eventos físicos e nossas aspirações espirituais.

As propriedades simpáticas e antipáticas são os famosos quatro contrários: quente, frio, úmido e seco. Eles se combinam para formarem os quatro elementos: fogo (quente + seco), ar (quente + úmido), água (frio + úmido) e terra (frio + seco). Há ainda o quinto elemento ou quintessência, que é o éter. Porém, o éter só pode ser encontrado acima da Lua e, portanto, nós mortais não temos acesso a ele.

No mundo sublunar – o mundo da Natureza –, os quatro elementos se situam em seus lugares apropriados. A terra é o mais pesado e aglomera-se no centro; sobre ela está a água e, mais acima ainda, o ar. Por fim, o fogo, o mais leve dos elementos, procura sempre subir para o limite da circunferência da Natureza, formando uma esfera imediatamente abaixo da órbita da Lua.

No centro do universo situa-se a Terra, que é esférica. Ela é circundada por um conjunto de globos ocos e transparentes, um acima do outro, um maior do que o outro (do centro para fora). Estes globos são chamados de ‘esferas’, ‘céus’ ou, mais raramente, de ‘elementos’. Em cada uma das sete primeiras esferas há um corpo luminoso. A partir da Terra, a ordem é a seguinte: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Depois da esfera de Saturna há o Stellatum, ao qual pertencem todas as estrelas que ainda hoje chamamos de ‘estrelas fixas’, pois a posição relativa entre elas é invariável. Depois do Stellatum temos uma esfera chamada de Primeiro Móvel ou Primum Mobile. Como esta esfera não porta nenhum corpo luminoso, ela não dá nenhuma evidência aos sentidos humanos.

E depois do Primum Mobile? Para além dos céus há o Céu propriamente (caelum ipsum), que é “cheio de Deus”, como disse Bernardo (Bernardus Silvestris, poeta do século XII) em sua cosmografia. Lá não há espacialidade, nem temporalidade, mas “luz pura, luz intelectual, amor pleno” (Dante, Paradiso, XXX, 38).

As dimensões do universo medieval não são tão bem definidas quanto sua estrutura. Há claros indícios de que seria bem menor do que o universo moderno, mas, em termos imaginativos, a diferença entre mil e dez milhões de quilômetros é desprezível. Ambos podem ser concebidos (ou seja, podemos somar e subtrair seus números), mas ambos não podem ser imaginados. Uma característica importante, no entanto, é que o universo medieval é finito e esférico. Assim, quando o medieval olhava para o céu noturno ele contemplava um grande edifício, uma espécie de catedral; o homem moderno contempla o céu como um mar infinito, que se perde na névoa, ou mesmo como uma floresta desprovida de trilhas, totalmente isolada. O “espaço sideral” do homem moderno inspira terror, perplexidade; o espaço medieval apresenta ao observador algo sobre o qual a mente pode se assentar e se satisfazer em sua harmonia. O universo moderno é romântico, o universo medieval é clássico.

A arte medieval é orientada à ênfase que se quer dar ao objeto, ou seja, à sua importância, e não propriamente às suas dimensões físicas. A arte moderna, por outro lado, é mais uma ‘ilusão’, pois é orientada aos sentidos, isto é, tenta reproduzir como seria a perspectiva visual o mais ‘perfeitamente’ possível.

b) O movimento do mundo

O movimento do mundo vem de Deus. Ele causa o movimento do Primum Mobile no sentido oriente-ocidente, cuja rotação é concluída em 24 horas. A rotação do Primum Mobile causa a rotação do Stellatum, que por sua vez causa a rotação de Saturno, e assim por diante, até a Lua. Essas esferas inferiores rotacionam-se no sentido ocidente-oriente, mas como se contrapõem à ‘corrente’ do Primum Mobile, acabam rotacionando também no sentido oriente-ocidente, mas mais lentamente.

Além do movimento físico, as esferas também transmitem à Terra as chamadas ‘influências’. Muitas pessoas dizem que Igreja desaprovava essa idéia, mas a verdade é que os teólogos aceitavam a teoria de que os planetas influenciam os eventos e a psicologia e, mais ainda, as plantas e minerais. Na verdade, a Igreja não aceitava que (a) a astrologia fizesse uso lucrativo e político das previsões, (b) a astrologia se tornasse alvo de adoração planetária e (c) a astrologia chegasse a ponto de impor uma visão determinista, ou seja, de negar o livre arbítrio. A razão e a vontade se deixam influenciar, mas não de maneira necessária, pela matéria. Os astros influenciam o poder imaginativo do homem, mas tal influência situa-se no campo da propensão, e não da necessidade. A propensão pode ser resistida; daí a idéia de que os homens sábios se sobrepõem aos astros. No entanto, como a maioria dos homens não é sábia, a astrologia é capaz de fazer predições, a exemplo das predições atuariais.

Eis uma breve descrição das características dos sete planetas. Vale lembrar que, devido aos diferentes graus de dificuldade e aplicabilidade, as características planetárias devem ser compreendidas intuitivamente, e não conceitualmente.

· Saturno. Na Terra, sua influência produz o chumbo. No homem, o estado melancólico. Na história, eventos desastrosos. É chamado de Infortuna Major, por ser o mais terrível dos planetas.

· Júpiter. Produz o estanho. Chamado de “o Rei”, produz no homem um estado um tanto difícil de descrever, o qual poderíamos aproximadamente chamar de “jovial”: um temperamento alegre, festivo, mas equilibrado, tranqüilo, magnânimo. Dante situa em Júpiter os príncipes justos. É chamado de Fortuna Major, por ser o melhor dos planetas.

· Marte. Produz o ferro. No homem, produz um temperamento robusto, rígido, resistente, firme. No entanto, por causar a guerra, é chamado de Infortuna Minor. Em Dante, é o céu dos mártires.

· Sol. Produz o ouro, o mais nobre dos metais. O Sol é também o olho e a mente de todo o universo. Ele torna os homens sábios e liberais (no sentido medieval). Causa eventos auspiciosos. Dante faz do Sol o céu dos teólogos e filósofos.

· Vênus. Produz o cobre. No homem, a beleza e amorosidade. Na história, também eventos auspiciosos. Por este motivo, é chamado de Fortuna Minor. Em Dante, é o céu dos penitentes que, em vida, amaram ilegalmente.

· Mercúrio. Produz o mercúrio. No homem, produz um estado difícil de descrever; Lewis tenta algo como “diligência vivaz” ou “avidez versada”. Dante aloca na esfera de Mercúrio os homens beneficentes.

· Lua. Produz a prata. A Lua é a fronteira entre o éter e o ar, entre o "céu" e a "natureza", entre o reino dos deuses (ou anjos) e o reino dos demônios, entre o âmbito da necessidade e o âmbito da contingência, entre o incorruptível e o corruptível. No homem, produz um estado errante, que tanto pode se referir, em termos físicos, a pessoas viajantes, quanto, em termos psíquicos, a pessoas "errantes" de humor. Não à toa, as pessoas que apresentam insanidade periódica são chamadas de "lunáticas". Dante manda para a esfera lunar as pessoas que abandonaram a vida monástica por alguma razão boa ou perdoável.

De acordo com o princípio da transmissão, ou mediação, as influências não nos afetam diretamente, mas através da modificação do ar. É por isso que, quando um médico sentia-se incapaz de diagnosticar com precisão o que estaria causando a condição de um paciente, ele atribuía a causa a “alguma influência que está no ar”.

Para os medievais, os astros não se movem em um oceano negro e vazio, como em geral pensam os modernos. O sistema astrológico medieval é, em certo sentido, mais heliocêntrico do que o moderno. O Sol ilumina o universo inteiro. Nenhuma outra estrela tem luz própria, pois são iluminadas pelo Sol (mais ou menos como a "Lua moderna"). Cada milímetro cúbico do universo é iluminado pelo Sol. O que acontece durante o que chamamos de ‘noite’ nada mais é do que a sombra cônica projetada pela Terra. Segundo Dante (Paradiso, IX, 118), esta sombra se estende até Vênus. De noite, quando olhamos para o céu, não estamos olhando a escuridão, mas estamos olhando através da escuridão.

Por fim, cabe lembrar que, assim como o universo não é escuro, ele também não é silencioso. Cada planeta produz certos sons e harmonias.

c) Os habitantes do mundo

Deus causa o movimento do Primum Mobile, conforme vimos acima. Mas Ele não faz isso como um guerreiro que causa o movimento da espada ou como o vento que causa o movimento de um barco. Se fosse assim, explicaríamos um movimento pelo outro ad infinitum e concluiríamos que o universo é um sistema fechado, cujo movimento causa e é causado por outros movimentos dentro de si mesmo. Na realidade, Deus causa o movimento do Primum Mobile de uma maneira diferente: o Primum Mobile é movido por seu amor a Deus; ao se mover, ele comunica movimento ao restante do universo.

Os medievais explicam, ademais, que o movimento dos planetas é de rotação porque, incapazes de imitar a perfeita imobilidade de Deus, movimentam-se da maneira mais semelhante e perfeita possível, a saber, o movimento perfeitamente regular e ágil das circunferências. Isso significa que as esferas, ou pelo menos algo residente nelas, são seres intelectuais, que são movidos pelo ‘amor intelectual’ de Deus. Estas criaturas são chamadas de Inteligências. Na Antiguidade, dizia-se que as Inteligências estavam ‘nas’ esferas. Mais tarde, os escolásticos introduziram a idéia de que as almas das esferas não estão para as esferas assim como a alma humana está para o corpo humano. Em outras palavras, a alma das esferas e a alma dos homens são de tipo diferente, cuja relação não se dá por enteléquia, como no caso humano. Note, porém, que as Inteligências são uma pequena parte da população angélica que habita a região entre a Lua e o Primum Mobile.

Dissemos acima que há planetas “ruins”. Como isso é possível, se acima da Lua não há corruptibilidade? Isso se explica pelo fato dos temperamentos de cada planeta serem ruins em relação aos homens. Em outras palavras, a pessoa que nasce sob Saturno poderá ser uma pessoa estúpida e descontente ou um grande contemplativo. Sob Marte, um Átila ou um mártir. E assim por diante. A culpa não é da influência, mas da natureza terrestre que a recebe. Em nosso mundo caído e corruptível, os homens, a Terra e o ar podem responder de maneira desastrosa às influências que, em si, são sempre boas. O mau paciente torna “mau” o bom agente.

O ar, que está na região sublunar, é habitado por demônios. Na Antiguidade, os demônios podiam ser bons ou maus. Na Idade Média, porém, todos os demônios são maus. De fato, Tomás de Aquino chama os demônios de “diabos”. Não por acaso, o mau tempo era freqüentemente associado com atividades de bruxaria.

Quando os homens modernos olham para o céu, sobretudo à noite, tem a sensação de que estão olhando para fora. O Modelo medieval dava aos medievais precisamente a sensação oposta, ou seja, de que estavam olhando para dentro. A Terra situa-se "do lado de fora dos muros da cidade" e, portanto, olhar para o céu significa olhar para dentro da cidade. Quando o Sol se levanta de manhã, os homens são ofuscados por sua luz e não conseguem enxergar os seres supralunares. De noite, o véu ofuscante do Sol é retirado, e podemos vislumbrar um pouco das pompas e alegrias que ocorrem na parte de dentro dos muros da cidade. Os seres que habitam aquelas esferas exercem suas faculdades de maneira desimpedida, como alguém que se deleita ao beber, mas sem nunca matar sua sede. A cada momento, as Hierarquias e Inteligências aperfeiçoam-se na medida que suas naturezas lhes permitem, mas jamais atingem a perfeição que pertence somente a Ele.

Os Longevos

Os longaevi são criaturas marginais e fugidias. O habitat deles é ambíguo entre o ar e a Terra. Eles são os pans, faunos, sátiros, silvanos, ninfas, elfos etc. Lewis tomou emprestado o nome longaevi de Martinus Capella, pois vivem muito mais do que os homens, embora não sejam imortais. Eles são inocentes, de "conversação irrepreensível", e seus corpos apresentam pureza elemental.

A partir do século XVI e XVII, os longevos começaram a ganhar ares de seres malignos, que deveriam ser evitados. Acredita-se que esse fenômeno ocorreu porque se inaugurou, por esta época, uma temporada de caça às bruxas, a qual acabou caçando os longevos por extensão. No entanto, mesmo hoje em dia, Lewis acredita que as pessoas não sintam repulsa quando imaginam encontrar um tritão ou uma ninfa, o que ocorre quando imaginam bruxas ou “espíritos”.

Os elfos são menores do que os homens, embora a literatura não especifique exatamente o quão menores seriam. Lembre-se que a imaginação visual dos medievais não se ocupava das dimensões físicas. Na literatura medieval, os homens não fogem dos elfos, mas os elfos fogem dos homens assim que percebem que estão sendo observados. Observar os elfos era um prazer, pois eles são seres alegres e satisfeitos, já que não sofrem os pesares da laboriosa vida humana.

As donzelas ou fadas são encontradas na floresta. No entanto, o encontro nunca é acidental. São elas que procuram os homens, e suas intenções são quase sempre amorosas. Em geral, seu tamanho é semelhante ao dos seres humanos.

Há ainda longevos de grande esplendor, luxo e riqueza material, chamados por Lewis de High Fairies. No entanto, luxo e esplendor material, no mundo moderno, são características associadas ao dinheiro e quase sempre à feiúra. Quando um medieval observava o luxo das cortes reais e feudais e imaginava que deveria ser ainda maior entre os longevos (e maior ainda no Céu), ele não associava esse luxo ao dinheiro (muito menos à feiúra). A arquitetura, as armas, as coroas, as vestimentas, os cavalos e a música eram quase sempre belíssimos e de bom gosto. O luxo e a riqueza eram itens associados à santidade, à autoridade, ao valor, à nobreza, ou, na pior das hipóteses, ao poder. O luxo e a riqueza estão associados à graciosidade e à cortesia, algo totalmente fora de cogitação no contexto da modernidade. O esplendor era algo a ser admirado, sem denegrir o admirador. Os High Fairies são vivazes, energéticos, voluntariosos e passionais: eles não são “espíritos”, pois, como explicou William Blake, “o Espírito e a Visão não são, como supõe a filosofia moderna, uma nuvem de vapor ou um nada; eles são organizados e minuciosamente articulados em um nível superior ao que a natureza mortal e perecível é capaz de produzir”.

Lewis reuniu quatro hipóteses que explicariam o que são os longevos: (a) eles seriam uma terceira espécie racional, distinta de homens e anjos; (b) eles seriam anjos “rebaixados de posto”; (c) eles seriam mortos, ou um tipo especial de mortos; (d) eles seriam anjos caídos, ou seja, diabos.

A Terra e seus habitantes

a) A Terra

Dante ensinava que a Terra, assim como os demais planetas, também tem a sua Inteligência, a qual ele chamava de Fortuna. O papel da Fortuna é servir de guia das maravilhas mundanas, transferindo de tempos em tempos essas benesses ilusórias de uma nação para outra, sem que a sabedoria humana saiba como.

Em termos físicos, todos os autores da Alta Idade Média ensinavam que a Terra é um globo. Todos reconheciam a existência da gravitação. Além disso, os mapas medievais não são bons documentos do conhecimento geográfico da época (por exemplo, o mappemoude de Hereford, século XIII). Isso porque os cartógrafos não eram as pessoas que detinham os melhores conhecimentos geográficos, que era altamente difuso. O homem medieval era um viajante nato: reis, exércitos, prelados, diplomatas, mercadores e filósofos viajavam constantemente, e o conhecimento geográfico raramente era registrado em mapas, pois era cristalizado na forma de conhecimento tácito na memória dos capitães dos navios e caravanas. A cartografia medieval tinha uma função menos geográfica e mais artística, sendo, portanto, de caráter meramente romântico. Não tinha função prática.

Recentemente, surgiu no meio acadêmico a idéia de que os medievais tinham conhecimento da existência de ilhas no Oceano Atlântico e até mesmo do continente americano. Estes registros estariam ligados à lenda de São Brandão. Lewis acredita que, mesmo sendo verdade, tal hipótese não chegou a influenciar marcadamente a mente medieval. A única coisa que atraía os medievais no Ocidente era a perspectiva de encontrar o Catái (norte da China). Se soubessem que havia um enorme continente no meio do caminho, provavelmente desistiriam de navegar nessa direção.

b) As bestas

Assim como os mapas-múndi não são bons documentos da geografia medieval, os bestiários também não são bons documentos da zoologia medieval. A maioria das descrições ali contidas são histórias fantasiosas, escritas por pessoas que nunca viram aqueles animais.

Os medievais não foram os primeiros a acreditar nas fantasias bestiárias. Desde a Antiguidade, histórias imaginosas sobre as animais já circulavam entre os poetas e a população. Cavalos que pressentem a morte de seus mestres, unicórnios domados por virgens, baleias diabólicas, hidras fabulosas etc.; em geral, os autores medievais não faziam distinção de autoridade entre os auctores antigos, tomando tudo o que escreviam com o mesmo grau de veracidade.

No entanto, as pessoas que faziam circular os bestiários não estavam muito preocupadas com a precisão factual das descrições ali contidas. O que importava era a moralitas, isto é, o sentido moral era mais real e vivo do que a o sentido empírico.

c) A alma humana

O homem é um animal racional. Em outras palavras, ele é um ser combinado, sendo racional como os anjos e animal como as bestas.

A alma racional não é o único tipo de alma no homem. Há também a alma sensitiva e a alma vegetativa. As potências da alma vegetativa são a nutrição, o crescimento e a propagação. A alma sensitiva contém estas potências, além da sensação. A alma racional contém todas as potências vegetativas e sensitivas, além da razão. Todas estas almas são imateriais. Isso significa que a alma não é uma parte ou um elemento que possa ser fisicamente dissecado.

A doutrina da pré-existência da alma humana foi explicitamente rejeitada na era escolástica. No entanto, na Baixa Idade Média e no período seminal vigorava a idéia de que a alma humana vivia no ar antes de se encarnar na Terra. Na Renascença, a renovação do corpus platônico e do platonismo em geral restaurou a doutrina da pré-existência da alma.

d) A alma racional

A alma racional possui duas faculdades: o intellectus e a ratio. O intellectus é o que de mais próximo os homens têm em relação à intelligentia angélica. De fato, o intellectus é chamado de obumbrata intelligentia (inteligência obnubilada ou sombra de inteligência). Tomás de Aquino explica que “inteligir (intelligere) é a apreensão simples (indivisível, incombinada) de uma verdade inteligível, enquanto raciocinar (ratiocinari) é a progressão para uma verdade inteligível, a partir de um ponto previamente entendido (intellecto). A diferença entre inteligir e raciocinar é semelhante à diferença entre repouso e movimento ou entre possessão e aquisição” (Iª, LXXIX, art. 8). Em outras palavras, desfrutamos do intellectus quando “simplesmente vemos” uma verdade auto-evidente; exercemos a ratio quando provamos passo-a-passo uma verdade que não é auto-evidente. A vida cognitiva em que todas as verdades sejam “simplesmente vistas” seria a vida cognitiva de um intelligentia, de um anjo. No entanto, a vida cognitiva em que todas as verdades tenham de ser trabalhados pela ratio é uma vida cognitiva impossível, já que nenhuma verdade pode ser alcançada sem que haja uma verdade auto-evidente prévia de onde partir. A vida mental humana é constituída pelo esforço de conectar os flashes freqüentes, mas momentâneos, da intelligentia. Cabe lembrar, contudo, que a distinção entre intellectus e ratio é típica dos filósofos. A linguagem poética não fazia essa distinção. Mais tarde, sobretudo a partir do século XVIII, a palavra razão foi reduzida à mera atividade de deduzir uma proposição de outra.

Ademais, na Idade Média, reconhecer uma obrigação moral significava perceber uma verdade; em outras palavras, o julgamento moral não era algo associado a pessoas sensíveis, mas a seres intelectuais. Platão preservou a idéia socrática de que a moralidade está associada ao conhecimento: os homens maus eram maus porque não conheciam o bem. Aristóteles incrementou esta perspectiva com a noção de criação e habituação, mas também considerava a conduta moral uma questão de “razão reta” (orthos logos). Os estóicos acreditavam em uma Lei Natural, a qual todos os homens racionais, em virtude sua racionalidade, eram movidos a seguir. São Paulo, em Romanos 2:15, fala da “lei escrita em seus corações”. A palavra “corações” jamais tinha a conotação emotiva que hoje se lhe atribuem. Em latim, por exemplo, o homem cordatus não era um homem sensível, mas um homem de bom senso, o que chamaríamos hoje de “pessoa razoável”.

e) A alma sensitiva e a alma vegetativa

A alma sensitiva possui dez sentidos, divididos em cinco sentidos interiores e cinco sentidos exteriores. Os sentidos exteriores são: visão, audição, olfato, paladar e tato. Os sentidos interiores são: memória, estimativa, imaginação, fantasia e sentido comum. 

Não é necessário versarmos sobre a memória.

A estimativa é aproximadamente o que chamamos hoje de “instinto”. A estimativa ensina a vaca a identificar seu bezerro em um rebanho, por exemplo. A estimativa detecta as intentiones das coisas.

A fantasia é superior à imaginação. O papel da imaginação é de simplesmente reter o que foi percebido pelos sentidos, enquanto o papel da fantasia é manipular o conteúdo da imaginação mediante diferenciação e integração, separação e união. Aqui cabem duas observações: (a) a imaginação medieval é diferente da imaginação moderna, que é mais parecida com a fantasia medieval; (b) as “pessoas vulgares”, segundo Alberto Magno, confundem fantasia com pensamento, pois, quando dizem que estão pensando, na verdade, estão apenas brincando com imagens mentais.

O sentido comum não deve ser confundido com o “bom-senso” da língua portuguesa (racionalidade elementar) nem com o common sense da língua inglesa (opinião comum). Alberto Magno explica que o sentido comum apresenta duas funções: (a) julgar a operação de um sentido, de maneira que, quando vemos, sabemos que estamos vendo; (b) reunir os dados provenientes dos sentidos exteriores, de maneira que saibamos que a laranja é doce ou que esta laranja é mais doce do que aquela. Em suma, o sentido comum transforma a mera sensação em uma consciência coerente, ou seja, consciência da pessoa enquanto sujeito em um mundo de objetos.

A alma vegetativa não requer maiores explicações. Ela é responsável pelos processos inconscientes do organismo, como crescimento, secreção, nutrição e reprodução. Evidentemente, a alimentação e o ato sexual são ações conscientes, mas os processos involuntários despertados por estes atos pertencem à alma vegetativa.

f) Os espíritos

A atuação da alma no corpo pede, pelo Princípio da Tríade, um intermediário. Este tertium quid eram chamados de espíritos. Os espíritos apresentam uma característica dúbia: não são sutis o bastante para serem alma, nem materiais o bastante para serem matéria.

Os espíritos exalam do sangue, e fervem no fígado, surgindo daí uma "fumaça" pura. Esta fumaça é chamada de espírito natural. Ela é ainda mais purificada, tornando-se o espírito vital, operando os "pulsos da vida" nas artérias. Parte do espírito vital sobe para o cérebro, tornando-se ainda mais sutil e transformando-se no espírito animal. Parte deste espírito animal é distribuído pelos "limbos dos sentimentos" (os órgãos dos sentidos); parte permanece nas "covas" do cérebro, servindo de veículo para os sentidos interiores; ainda outra parte desce da parte traseira do crânio para a medula espinhal, sendo responsável pelos movimentos voluntários. O espírito animal é o órgão imediato da alma racional, e somente através desse órgão que a alma racional age quando se encarna. Os espíritos natural, vital e animal são às vezes chamados, respectivamente, de espíritos vital, animal e intelectual, mas mantêm exatamente as mesmas funções.

Os medievais nem sempre culpavam a alma racional pela insanidade, uma vez que o distúrbio poderia estar nos espíritos, deixando o corpo material fora de controle.

Se os espíritos estão situados em locais específicos do corpo, também é razoável supor que as funções da alma situem-se em locais específicos. A fantasia estaria na parte da frente da cabeça, a razão no meio e a memória na parte de trás.

g) O corpo

O leitor deve se lembrar dos quatro contrários e dos quatro elementos. No corpo humano, no entanto, os contrários produzem quatro humores: sangue (quente + úmido), cólera (quente + seco), fleuma (frio + úmido) e melancolia (frio + seco).

A proporção na qual estes humores encontram-se misturados formam seu complexio ou temperamentum. Embora as misturas nunca sejam iguais nas pessoas, é possível dizer que há sempre um humor que predomina em seu temperamento.

· O sangue é o humor predominante no temperamento sanguíneo. É o melhor dos quatro temperamentos, pois o sangue é "amigo da natureza". O homem sanguíneo é roliço, divertido e esperançoso. Um manuscrito do século XV ilustra o temperamento sanguíneo com um homem e uma mulher esplendidamente vestidos, tocando instrumentos de cordas em um campo florido.

· A cólera é o humor predominante no temperamento colérico. O homem colérico é alto e magro. Como o sanguíneo, o homem colérico fica bravo com facilidade, mas com a diferença que o colérico é vingativo. O manuscrito citado ilustra o temperamento colérico com um homem segurando uma mulher pelos cabelos e batendo-na com uma clava.

· A melancolia é o humor predominante no temperamento melancólico. Magro, dorme mal. Apega-se às suas opiniões e apresenta uma raiva prolongada e corrosiva. É o homem que hoje chamaríamos de neurótico, mas não o "melancólico" contemporâneo, que é triste, reflexivo, introvertido.

· A fleuma é o humor predominante no temperamento fleumático. É o pior dos quatro temperamentos. Gordo, branquelo, dorme excessivamente, sonha com coisas aquáticas ou peixes, lerdo, aprende com muita dificuldade, covarde.

Vale lembrar que determinados períodos do dia são preponderantes para temperamentos específicos: da meia-noite às 6h (sangue), das 6h ao meio-dia (cólera), do meio-dia às 18h (melancolia) e das 18h à meia-noite (fleuma).

h) A história

A historiografia medieval possui três funções primordiais: entreter a imaginação, gratificar a curiosidade e pagar a dívida que temos para com nossos antepassados. Em linhas gerais, a distinção moderna entre história e ficção não pode ser aplicada com precisão aos livros medievais nem ao espírito com que eram lidos. Os contemporâneos de Chaucer não acreditavam nos contos de Tróia ou Tebas da mesma maneira que acreditamos nas Guerras Napoleônicas, mas também não desacreditavam nelas como desacreditamos um romance.

O objetivo precípuo do leitor medieval não era aprender fatos, mas aprender a estória. Assim como em outros aspectos, a história medieval possui um objetivo mais elevado e importante do que contar fatos. A construção do caráter, a ênfase nas virtudes, na dignidade, na honra, tudo isso vale muito mais do que acumular fatos. Raramente o historiador medieval se ocupava de dados econômicos e sociais. As crônicas eram individuais, pessoais, concentravam-se no valor ou na vilania dos personagens, nos dizeres memoráveis, na boa ou má sorte.

Todavia, quem defende a história moderna não deve esquecer que ela também é seletiva, pois depende das inclinações imaginativas do historiador. Quem pensa que a história moderna é isenta, pura e perfeitamente objetiva engana-se terrivelmente.

Por fim, cabe lembrar que a linha de desenvolvimento da historiografia medieval é inversa à historiografia moderna: as eras passadas eram melhores do que a contemporânea, não havia “progresso”, a humanidade caminhava para períodos cada vez piores.

i) As artes liberais

As sete artes liberais atingiram um status de quase imutabilidade.

Eis o famoso mnemônico das artes liberais:

Gram loquitur, Dia verba docet, Rhet verba colorat, Mus canit, Ar numerat, Geo ponderat, Ast colit astra

A gramática é a arte da fala. Em outras palavras, ensinar gramática era ensinar latim.

A dialética "ensina palavras", ou seja, uma vez que a gramática ensinou a falar, a dialética ensinará a argumentar, a provar e a refutar.

A retórica era uma ferramenta indispensável nos tempos medievais, pois a oratória era uma necessidade para qualquer atividade pública ou atividade privada que envolvesse litígios. Geoffrey de Vinsauf escreveu a Nova Poetria (aprox. 1200), na qual ensinava a arte da amplificatio, ou seja, de como "amplificar" sua obra, como dizer muito quando se tem pouco a dizer. Esta arte consistia de três tipos de morae (prolongamentos): (a) Expolitio. Dizer a mesma coisa de maneiras diferentes. (b) Circumlocutio. Esticar uma obra chamando as coisas por outros nomes. (c) Diversia. Digressão. (d) Apostropha. (e) Descriptio. (f) Ornatus. Trocar as palavras de lugar na frase, pois o latim é uma língua que permite este tipo de recurso quase ao infinito.