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6 de dezembro de 2011

Como ler Platão


Em Ler Platão, Thomas A. Szlezák introduz o leitor no ponto de vista interpretativo das doutrinas não-escritas (agrapha dogmata) de Platão, conhecido entre os estudiosos das obras platônicas como Escola de Tübingen. Em outras palavras, o objetivo é “chegar a uma interpretação dos escritos filosóficos de Platão que resista à sua crítica da escrita elaborada no Fedro. Querer desvalorizar a própria desvalorização da escrita por parte de Platão ou convertê-la em seu contrário, como foi usual desde o romantismo e ainda o é de muitas maneiras, não abrirá um caminho para a compreensão do escritor Platão”. Em suma, o leitor de Platão tem como desafio resistir aos preconceitos modernos da interpretação dos escritos de Platão.

O que se segue são trechos selecionados dessa obra de Szlezák.

* * *

O leitor de Platão não é apenas um espectador passivo, mas uma peça ativa nas discussões ensejadas nos diálogos. As reações do leitor, portanto, também devem ultrapassar o mero entendimento analítico para abranger todo o seu ser. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Cálicles no diálogo Górgias. Cálicles defende a tese do chamado direito natural do mais forte, segundo a qual é lícito e correto que aquele que supera os outros em força e poder os subjugue e, cruelmente, os submeta às exigências de seus próprios interesses. Segundo esse ponto de vista, a própria natureza deseja o domínio do mais forte, e a concepção usual de justiça, que põe o direito do outro como limite à realização dos desejos pessoais, não seria mais que uma construção ideológica dos fracos, que querem desacreditar a saudável aspiração do forte à satisfação irrestrita de seus instintos e desejos (cf. Górgias, 482 c – 486 d). Quando Sócrates lhe demonstra com argumentos concludentes que a idéia convencional de justiça é plena de sentido e que, em contrapartida, o chamado direito do mais forte é em si mesmo contraditório, Cálicles já não pode ir adiante – mas não por falta de inteligência, pois ele claramente a tem bastante, e sim por causa das limitações de seu caráter. Dito de outra maneira: a solução real do problema, que para Platão somente pode ser alcançada pelo recurso à estrutura interna do homem, não precisa ser comunicada a um caráter como a de Cálicles, já que lhe faltam os pressupostos para uma recepção adequada de tais verdades. Dessa forma, Cálicles recebe apenas uma refutação ad hominem, na medida em que Sócrates demonstra a contraditoriedade de sua posição em seu próprio nível de argumentação (494 ss.).

Para Platão, o filosofar só é possível entre amigos, ou seja, entre pessoas que se tratam com benevolência mútua – mas amizade, aqui, não tem a conotação afetiva que comumente a damos hoje em dia, e sim a orientação comum pelo divino, pela idéia de Bem.

Como no caso da leitura não há propriamente um “interlocutor benevolente”, já que estamos diante de um livro, a contraparte viva da amizade é substituída pela letra da escrita. Isso causa uma série de contratempos que dificultam a postura correta perante a doutrina que se almeja transmitir. Essa dificuldade, não sem freqüência, é substituída pela tendência moderna de nivelar o texto, exigindo-se dele a publicidade incondicional de panos de fundo suspeitados. Não toleramos que haja doutrinas ou entendimentos ocultos: esta idéia nos é ofensiva, incompreensível, insuportável. Este fato já mostra, por si só, que o leitor é ele mesmo um fator deformador da compreensão dos textos platônicos. O deslocamento do leitor em relação ao texto platônico pode condená-lo a uma compreensão rasteira.

Acontece que o tema da ocultação ocorre inúmeras vezes na obra de Platão. A retenção do saber, por exemplo, é um fator absolutamente estruturante no diálogo Eutidemo. Se o leitor se recusar a tornar-se cônscio desta retenção, todo o diálogo lhe será misterioso, quando não enganoso. O que é raro é precioso (Eutidemo 304 b).

Na República, a prescrição de conduzir apenas os mais capazes à contemplação do princípio supremo, a Idéia do Bem, e isso apenas depois dos 50 anos (República 540 a), simplesmente não faria sentido se os jovens de 20 anos pudessem obter informações em toda parte, até mesmo na forma escrita, sobre as atividades filosóficas da última fase. Sócrates age “esotericamente” no Eutidemo: ele dispõe de um saber mais fundamental, porém não vê necessidade alguma de o expor a interlocutores [Eutidemo e Dionisidoro] que têm uma formação insuficiente ou que não são apropriados para a filosofia. Portanto, a habilidade de reter saber filosófico se necessário, caso as circunstâncias o exijam, é algo que Platão apresenta como uma qualidade positiva do filósofo verdadeiro. O sofista é por essência antiesotérico. Platão atribui justamente a Protágoras, o líder da sofítica do século V, a defesa do princípio de abertura na comunicação do saber (Protágoras 317 b-c).

Quase todos os diálogos de Platão mostram que o condutor do diálogo teria algo mais a dizer sobre a essência da questão, mas se recusa a fazê-lo nesse momento e nesse lugar por julgar seu interlocutor incapaz ou despreparado. São as “passagens de retenção”.

Eis as principais características das obras de Platão:

(1)   Elas retratam conversações, pois para Platão o pensar é uma conversa da alma consigo mesma, embora apresentem longos discursos monológicos (p.ex., a quinta parte do sexto livro das Leis, o discurso de Eros no Fedro e, sobretudo, o monólogo do personagem-título em Timeu).

(2)   Ocorrem num lugar e num espaço determinados, pois a entrada na prática filosófica nunca ocorrerá sem engajamento pessoal.

(3)   Cada diálogo possui um líder da conversação, ou seja, não há uma conversação entre iguais, o que remete à concepção platônica da comunicação do saber filosófico.

(4)   O líder da conversação fala com apenas um interlocutor de cada vez, ou seja, cada participante permanece focado apenas no líder e é por ele corrigido. Há casos em que o líder decide que a conversação não é produtiva e continua o diálogo com interlocutores imaginários, como os ateus do décimo livro das Leis, Diótima no Banquete ou o hóspede anônimo de Sócrates em Hípias maior.

(5)   O líder da conversação pode responder a todas as objeções, ou seja, os interlocutores não podem superar o líder em nenhuma situação.

(6)   A conversação progride aos solavancos a um degrau qualitativamente superior.

(7)   O líder da conversação não leva a argumentação a um fim orgânico.

(8)   Cada diálogo tem uma ou mais passagens de retenção.

O condutor do diálogo platônico pode filosofar deliberadamente em vários níveis – o nível eleito por Sócrates dependerá do interlocutor, de suas necessidades e de sua capacidade de compreensão. Ele nunca passa a um nível superior sem algum motivo: a verdadeira filosofia não se oferece a si mesma aos interessados, mas quer ser procurada. Como isso não foi compreendido (preferiu-se pensar, em vez disso, num Sócrates supostamente importuno, que filosofa na rua com qualquer um), tampouco se compreendeu por que o autor limita propositalmente o movimento ascendente – as passagens de retenção.

Há três diferentes graus de destinatários nos diálogos platônicos: (a) os leigos, (b) os que receberam uma formação científica, e (c) os discípulos de Platão na Academia. Curioso é que os diálogos são concebidos de tal forma que os sábios os julgam interessantes e os principiantes conseguem extrair algum proveito (talvez a única exceção seja a segunda parte de Parmênides).

No Fedro, Platão explica que o objetivo da escrita é (a) servir de função mnemônica para aquele que sabe (Fedro 278 a 1), (b) servir de diversão, cujo êxito traz alegria ao autor (Fedro 276 d 4-8) e (c) que o filósofo tenha meio de remuneração em sua velhice (Fedro 276 d 1-4).

As convicções modernas de Schleiermacher e Friedländer, segundo as quais o diálogo escrito cumpre a mesma função que o “discurso vivo e animado” (Fedro 276 a 8) não encontra apoio em absolutamente nenhum texto de Platão. No entanto, não é o caso de acusar Schleiermacher e Friedländer de serem “antiesotéricos”. O que ocorre é que ambos situam os elementos esotéricos dentro do próprio texto, cuja descoberta o próprio leitor tem de fazer, enquanto a escola esotérica “histórica” aponta para doutrinas existentes para além do diálogo escrito. Esta diferença entre o esoterismo hermenêutico de Schleiermacher e o esoterismo histórico de Giovanni Reale é a divisão por excelência da interpretação dos diálogos platônicos. Schleiermacher ignora olimpicamente as passagens de retenção. Ademais, a moderna teoria do diálogo torna a comunicação das reflexões decisivas dependente das qualidades intelectuais do leitor. Contudo, vimos no Górgias que Cálicles não é excluído dos “grandes mistérios” por falta de inteligência, mas pela disposição moral de seu caráter. Na República, onde se exprime sobre as qualidades absolutamente fundamentais necessárias à “natureza filosófica”, Platão dá às vantagens éticas a mesma ênfase dada às vantagens intelectuais (República 485 b – 487 a).

É também de grande interesse para nosso tema o fato de Platão, na parte intermediária do Protágoras (338 e – 347 a), dramatizar – com grande engenhosidade e em busca do essencial – a tentativa de avançar numa questão filosófica pela interpretação de um texto. É como se Platão quisesse dizer: toda interpretação é necessariamente má interpretação, pelo menos parcialmente. Para Platão, todo “falar com voz alheia”, isto é, toda interpretação, é de importância secundária. O autor, por não estar presente no local, não pode ser interrogado pessoalmente, e as suposições sobre o que ele quis dizer permanecem conseqüentemente fora de controle. Esta crítica afasta o uso de textos e conduz ao filosofar oral.

Nas últimas páginas do Fedro (274 b – 278 e), há também uma “crítica da escrita”. Trata-se de um ponto culminante no Fedro, pois somente com essa compreensão teremos a chave para compreender a estrutura do diálogo platônico em geral. Não há dúvida de que para Platão a comunicação oral viva tem primazia, e de que o discurso falado é o âmbito pelo qual se deve medir o escrito. Uma arte filosófica do discurso não somente pressupõe o domínio das prescrições da retórica corrente para a composição formal, mas também se baseia em duas habilidades bem mais exigentes e abrangentes: o conhecimento da essência das coisas de que trata o discurso e o conhecimento da natureza das almas a que o discurso pretende se dirigir (277 b c). Ambos conhecimentos só podem ser adquiridos mediante a diligente investigação da filosofia das Idéias que Platão designa como “dialética” e entende como “grande rodeio” ao qual no diálogo se pode apenas aludir, mas não percorrer (cf. Fedro 274 a, 246 a – duas passagens de retenção típicas). Sócrates introduz um mito do deus egípcio Thoth, que levou a escrita juntamente com outras descobertas ao Rei Thamus. Thoth representa, portanto, a ilusão de que é possível adquirir sabedoria e discernimento pela escrita, ou seja, “externamente, por meio de sinais estranhos [à alma]”. Thamus estilhaça por completo essa ilusão. A escrita não favorece, mas prejudica a memória, isto é, a capacidade da alma ir buscar coisas em seu próprio interior; ela é apenas um meio para se lembrar. Somente o didakhé, o ensinamento no intercurso pessoal, pode transmitir um saber claro e confiável (274 e – 275 c). Platão insiste nas deficiências básicas da escrita, inerentes à sua essência. Mas o que é inerente à natureza de uma coisa não pode ser eliminado por um uso mais ou menos habilidoso dessa coisa. Psicologicamente, é compreensível que desde Schleiermacher os partidários modernos de Thoth, o deus com fé na virtude dos livros, tenham sentido a necessidade de reverter o juízo de Platão afirmando que escrever em enigmas e alusões terá no leitor perspicaz o desejado efeito da clareza e solidez do conhecimento. Devemos entretanto, com serenidade e sem intenção polêmica, dizer que se trata aqui de uma complementação metodologicamente inadmissível das asserções do texto, e, de fato, uma complementação que leva ao oposto do que Platão queria. Ora, afinal, (1) o livro fala para todos, ou seja, ele não pode escolher seu leitor, nem se calar diante de determinados leitores (275 e 2-3); (2) o livro diz sempre o mesmo, ao ponto de Platão equiparar a escrita às figuras sem vida da pintura (275 d 4-9); (3) o livro não pode se defender se injustamente depreciado (275 e 3-5). A escolha do interlocutor, o silêncio diante de pessoas inapropriadas e o auxílio por meio de novos argumentos não são metáforas para Platão, devendo ser literalmente entendidas como as condições básicas da comunicação do conhecimento filosófico.

Em Fedro 278 c 4 – e 3, Platão separa a totalidade de autores em dois grupos bastante desiguais. Um grupo, sem dúvida a maioria, pode ser chamado, segundo seu respectivo produto literário, o grupo dos poetas, escritores de discurso ou escritores de leis. O outro grupo recebe um nome que não apenas o separa de Deus, mas também o une a Ele – pois somente no nome philosophos há uma ressonância da qualidade distintiva de Deus, ser sábio (sophos). O philosophos deve essa maior proximidade com Deus a seu “saber”: aquele “que sabe em que consiste a verdade” (278 c 4-5) não é outro senão o dialético, isto é, o pensador que reconhece a verdade das coisas no sentido da doutrina das Idéias. É a esse conhecimento das Idéias que o philosophos deve uma superioridade sobre seus escritos. Ao outro grupo dos autores não-filosóficos pertence quem “não possui nada mais valioso do que aquilo que compôs e escreveu, passando longo tempo a rever, tirando uma coisa aqui e acrescentando outra acolá” (278 d 8 – e 1). Tornar-se filósofo significa experimentar uma “transformação da alma” (psykhes periagoge) (República 521 c 6; cf. Fedro 518 d 4). O conceito de philosophos refere a essa reorientação ontológica (cf. Fédon, 101 e; Banquete 204 b ss. [Eros como philosophos]; República 474d ss.; Fedro 249c; Teeteto 172 c-177 c; Timeu, 53 d). O philosophos, no sentido de Platão, dispõe sempre de timiotera, ou seja, da “posse de algo mais valioso do que seus escritos”. Para Platão, a dialética conduz ao princípio não-hipotético de todas as coisas, ou, dito de outra maneira, há para o dialético um “fim da viagem” (República 532 e 3).

As “coisas mais importantes e de posição mais elevada (as mais valiosas)” são, segundo o Político (285 e 4), as entidades incorpóreas do mundo das Idéias. Para Platão, a fonte última de “categoria” e “valor” é a idéia mesma do Bem como princípio de tudo. Mas também o saber participa da categoria do Bem. Em geral, o saber é de categoria superior à opinião correta (Mênon 98 a 7), pois ele “amarra” com argumentos o que há de correto na opinião. A fundamentação última deve vir “do princípio de todas as coisas”; a ascensão rumo ao princípio ocorre por gradações: de hipótese para “hipótese superior” até o “não-hipotético” (Fédon 101 d-e; República 511 b). “Possuir algo de maior valor” (timiotera) significa, portanto, para o dialético o mesmo que estar em condição de fundamentar de tal modo uma explicação dada que o “amarrar” por meio de argumentos escolha sempre um “ponto de ligação” que seja superior na série de hipóteses.

Platão disse mais de uma vez que a ascensão a um princípio último, transcendente é a finalidade do sujeito cognoscente. E, nas ocasiões em que os estudiosos notaram esse fato, acentuou-se quase sempre a ascensão como tal e esqueceu-se de que os diálogos sempre mostram apenas uma parte do movimento ascendente e indicam com suficiente clareza a deliberada limitação do processo. Aristóteles, na Metafísica e em outras obras, se refere a uma doutrina platônica dos princípios que não encontramos nessa forma nos diálogos. Os modernos não estão dispostos a reconhecer que Aristóteles, que vivera vinte anos na Academia de Platão, podia conhecer detalhes mais precisos sobre a teoria platônica dos princípios do que é possível ao platônico de hoje, na medida em que este se atém unicamente aos diálogos. Por que justamente a parte da filosofia que trata dos princípios deve ser protegida da divulgação escrita? Contra o pano de fundo da crítica da escrita, a resposta é simples: quanto mais complexo é o objeto, tanto maior é a probabilidade de uma depreciação injustificada por parte de pessoas incompreensivas, contras as quais o escrito, na ausência de seu autor, não pode se defender (cf. Fedro 275 d-e).

Não encontramos indícios de que Platão alimentou a crença de que pudesse se aproximar do filosofar oral escrevendo por um sofisticado uso de alusões sutis, indicações indiretas e insinuações cifradas. Esta foi, antes, a crença ingênua de Friedrich Schleiermacher, que ligava a isso a convicção antiesotérica de que, pela arte da comunicação "indireta", Platão não teria necessidade de reservar ao âmbito da oralidade partes essenciais de sua filosofia. (a) A forma mais simples de alusão é uma referência em forma de citação, como a que aparece em Fedro 276 e 2-3. Não pode haver dúvida de que Platão se refere aqui à sua própria obra principal como um caso de "divertimento" filosófico escrito. As próprias obras de Platão estão incluídas  na crítica de tudo o que é escrito. A crítica também implica os diálogos quando ela se refere a todo o escrito. (b) A propósito dos "archai ainda mais altos" (Timeu 53 d), de maneira alguma deles são esclarecidos neste ou em qualquer outro trecho. Idem para a origem de todas as coisas em Leis X 894 a 1-8. (c) Com relação à exposição das idéias filosóficas que no Eutidemo transparecem "por trás" das argumentações confusas e aparentemente absurdas, nenhum dos "enigmas" poderia ser solucionado sem um conhecimento da exposição não-cifrada da doutrina da anamnese e do conceito de dialética no Mênon, no Fédon e na República. Em resumo, Platão se serve, de bom grado, dos mais diferentes tipos de alusões, insinuações e referências, mas sem jamais manifestar a intenção de atribuir à técnica literária da alusão um papel central na comunicação filosófica. A ilusão cifrada pode ser decodificada por qualquer leitor com a inteligência necessária para isso. A moderna teoria do diálogo pretende atribuir às alusões e referências no texto escrito a tarefa que somente a filosofia oral pode cumprir.

A forma do diálogo platônico não é um elemento exterior, mas essencial para seu conteúdo. Platão faz uso de alguns expedientes dramatúrgicos. (a) Ação contínua. Um meio pelo qual Platão mantém essa ação na memória do leitor é a repetição do motivo. A ação contínua no Eutidemo consiste no desmascaramento dos erísticos Eutidemo e Dionisidoro como não-esotéricos. O motivo mediante o qual essa ação é levada adiante e dividida em fases é, de um lado, o do "ocultamento" e, de outro, o da oposição de "divertimento" e "sério". A mensagem do Eutidemo, que só é perceptível pela consideração do leitmotiv e da ação contínua, diz que o verdadeiro filósofo deve ser esotérico. A ação contínua na República consiste na tentativa de alguns amigos de Sócrates de "obrigá-lo" a comunicar suas visões acerca da justiça, do melhor Estado e finalmente do Bem e da dialética como caminho para a Idéia do Bem. O motivo é que os amigos querem "segurar" Sócrates e não o "liberar" de maneira nenhuma; ele, contudo, acredita poder convencer os amigos a deixá-lo partir (República 327 a-c). (b) Interrupção do diálogo narrado pelo diálogo que emoldura a conversação. O Eutidemo, em termos formais, é um relato de Sócrates a Críton sobre uma conversação que ele teve no dia anterior com dois erísticos no Liceu. No curso desse relato, ficamos sabendo que o jovem Clínias dissera, a respeito da arte da dialética, que ela se apodera da "presa" da matemática tal como a política se apodera da presa da ciência estratégica, uma cidade conquistada, por exemplo (290 c-d). Nessa afirmação está implícita uma relação entre matemática e dialética que somente é compreensível a partir da teoria da ciência contida na República (510 c ss; 531 c ss) e que, dentro do Eutidemo, onde falta qualquer preparação para o resultado, parece um bloco errante. Para enfatizar a importância do reconhecimento de que a matemática está subordinada à dialética, Platão interrompe o diálogo narrado e faz Críton perguntar se o jovem Clínias realmente disse algo tão inteligente; se foi mesmo ele, então ele não necessita de mais instrução humana (290 e). Para nosso espanto, Sócrates não está disposto a garantir que foi Clínias e declara que também poderia ter sido Ctesipo. Mas, quando Críton também se recusa a aceitar isso, Sócrates exprime a suposição de que "um dos seres superiores", presentes no momento, poderia ter introduzido esse conhecimento (290 a 4). Não é preciso refletir por muito tempo para adivinhar de que voz o deus desconhecido se serviu. Não há dúvida de que com a dialética o reino do que é "superior", da filosofia "divina", é tocado. Platão não confia na compreensibilidade da breve alusão à sua teoria da ciência, mas utiliza adicionalmente o bem mais nítido meio dramatúrgico da interrupção do diálogo narrado para deixar claro ao leitor que por trás do diálogo há uma riqueza filosófica não explicitada, que está para o que é explicitamente tratado assim como o reino do divino está para o humano. (c) Troca de interlocutor. Em vários diálogos, o primeiro interlocutor de Sócrates é substituído no curso da conversação, a maioria das vezes, mas não sempre, por alguém com idéias análogas. A troca de pessoas indica, muitas vezes, uma troca do nível da argumentação e, por regra geral, está ligada a um caso de "auxílio" ao logos (por exemplo, Fedro 276 e - 277 a). A dupla troca de pessoas no Górgias produz, num sentido, uma linha ascendente à medida que a discussão conduz a perguntas cada vez mais fundamentais e a tensão dramática da discussão cresce continuamente. Essa linha ascendente se entrecruza de forma fascinante com um movimento contrário, à medida que a posição oposta se torna, em termos de conteúdo, cada vez menos respeitável e se afunda cada vez mais.

A ironia talvez seja a técnica estilística mais famosa de Platão. Uma ação dramática pode estar inteiramente determinada pela ironia (como é o caso do Eutidemo); um personagem inteiro pode se mostrar sob a luz da ironia (como Eutífron ou Hípias); ou a aparição de um personagem pode ser ironicamente relativizado pelo contexto dramático (como Alcibíades no Banquete), ou talvez até mesmo uma única reação de um personagem que, em outros aspectos, não está mergulhado em ironia (basta pensar, por exemplo, na capacidade de esquecimento de Adimanto com relação às limitações a que o discurso está sujeito: República IV 504 a-c). É importante que não confundamos a ironia platônica com a ironia romântica. A ironia romântica não se dirige contra um adversário determinado, mas contra tudo e todos. Para o romântico não pode haver nada absoluto que estaria imune à relativização irônica. Em Platão, em contrapartida, é evidente que a ironia se retrai diante do que ele chama de âmbito "divino" do sempre-existente e diante da philosophia "divina" como empenho em apreender noeticamente o reino do sempre-existente.

Os mitos de Platão são quase tão famosos quanto suas ironias. Por um lado, Platão apresenta o mito em clara oposição ao logos. Por outro lado, ele deliberadamente embaça a fronteira entre o mito e o logos em certos casos particulares. Há uma questão freqüentemente discutida que procura saber se o mito em Platão está subordinado ao logos ou se ele transmite uma verdade superior que não é alcançada pelo logos. Essa última suposição de que os mitos encerram um conteúdo de verdade mais elevado deriva da percepção de correntes modernas irracionalistas e não pode se apoiar nas reflexões de Platão. Por outro lado, uma subordinação do mito ao logos tampouco pode ser aceita se com isso se entende que o mito é um ornamento mais ou menos dispensável, uma transposição meramente ilustrativa de pontos de vista obtidos de outras maneiras. Se fosse essa a opinião de Platão sobre o papel do mito, ele dificilmente poderia lhe ter dado um espaço tão amplo em sua obra. Sem dúvida, a penetração dialética da realidade, que se efetua no logos argumentativo, é o objetivo último do filósofo. Mas não se pode renunciar à força psicagógica do mito; ademais, a capacidade das imagens e histórias de representar um estado de coisas de forma global e intuitiva é um complemento imprescindível da análise conceitual. Visto dessa forma, o mito aparece como uma segunda via de acesso à realidade, que certamente, quanto ao conteúdo, não pode ser independente do logos, mas oferece, em comparação com ele, um plus que não pode ser substituído por nada.

Não existe em Platão uma conversação entre iguais. Na única vez em que faz que se reúnam homens do mesmo formato intelectual, no Timeu, ele evita o diálogo: Timeu realiza perante Sócrates, Crítias e Hermógenes um monólogo de várias horas. Mas o enigma se resolve sem problemas se tomamos a crítica da escrita como medida: um colóquio entre dialéticos do mesmo nível intelectual teria de ascender rapidamente àquele âmbito da teoria dos princípios que o filósofo reserva intencionalmente para o auxílio oral. Dessa maneira, Timeu é o único diálogo sem um condutor da conversa. No Fédon, Sócrates diz que é preciso fazer abstração de sua pessoa e prestar atenção apenas na verdade (91 c). Abstrair-se do individual é, portanto, uma tarefa do “aprendiz”. As figuras apresentadas são, sem exceção, almas “coloridas” (Fedro 277 c 2), isto é, não-equilibradas, não ainda suficientemente purificadas do ponto de vista filosófico. Se o dialético busca o logos apropriado a cada uma delas, isso significa que ele não se move na esfera que é sua meta: a esfera do conhecimento puramente conceitual (cf. República 511 b-c).

Concluímos que, num olhar retrospectivo sobre a teoria moderna do diálogo platônico, que atribui ao diálogo escrito a tarefa que Platão reserva à atividade filosófica oral, podemos dizer: essa teoria não apenas é não-platônica no sentido de que não pode se apoiar em nenhum texto de Platão, como também é antiplatônica no sentido de que infringe o espírito e a letra da crítica da escrita e intencionalmente se faz de surda às contínuas e claras referências de Platão à sua doutrina oral dos princípios.

Por fim, cabe lembrar que o esoterismo não tem nada a ver com a observância do segredo que se apóia na coação. Quem o infringe infringe seu juramento e se expõe às sanções da seita a que pertencia até então. Mas o esoterismo é um ditame da razão, não o resultado da coação por um grupo. Quem infringe a retenção não se expõe a nenhum tipo de sanção, nem prejudica a comunidade, mas o objeto em questão: o pensamento sobre os princípios, tão rico em pressupostos, não pode desenvolver seu efeito positivo se é erroneamente recebido por falta de preparação adequada. O saber filosófico não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo, e deveria, por isso, ser transmitido apropriadamente, com a circunspecção necessária, não mecanicamente. Em suma: o esoterismo tem relação com o objeto, a observância do segredo com o poder. Por conseguinte, os diálogos devem ser lidos como fragmentos da filosofia de Platão que apontam para além de si mesmos.

* * *

Há inúmeras ordens de leitura dos diálogos de Platão, desde as cronológicas até as antigas tetralogias. Talvez uma das mais tradicionais seja a de Albino (c. 150 d.C.) -- Introdução aos Diálogos de Platão -- onde se recomenda a seguinte ordem inicial: Alcibíades, Fédon, República, Timeu.

26 de junho de 2011

Os fundamentos da música


O objetivo do curso em vídeo Understanding the Fundamentals of Music, do Dr. Robert Greenberg, é fazer com que o ouvinte, sobretudo o ouvinte de música clássica, adquira ferramentas intelectuais que aprofundem sua experiência auditiva. Talvez a principal característica do curso seja desobrigar o aluno a conhecer notação musical, o que é visto pelo Dr. Greenberg como uma vantagem, uma vez que estimula o aluno a usar os ouvidos em vez dos olhos para entender os conceitos fundamentais da música.

É exatamente por isso que este resumo jamais poderia substituir as aulas, uma vez que o Dr. Greenberg faz uso intensivo de seu piano e de gravações de obras clássicas dos grandes compositores para ensinar os conceitos mais importantes. Se você gosta de música clássica e gostaria de aprofundar seus conhecimentos sem tornar-se músico, recomendo vivamente este curso. Vale a pena. É claro que há muitíssimo mais por aprender, e treinar piano, violino ou outro instrumento ajudaria certamente, mas esta é uma decisão que você pode tomar depois de aprender um pouco de teoria. Talvez este conhecimento prévio possa auxiliá-lo em sua decisão. Não se esqueça de anotar o que aprender durante as aulas, ou pelo menos acompanhá-las com a apostila.

Timbre (som)

O Dr. Greenberg define música como “som no tempo” ou “tempo ordenado pelo som”. É uma definição simples, mas, no seu entender, mais correta do que as definições de dicionários, que tendem a ser incompletas, quando não simplesmente erradas.

O aspecto mais simples da música é o timbre. O timbre nada mais é do que o som que ouvimos dos instrumentos. Há cinco classes de instrumentos, ordenados segundo a maneira como produzem e sustentam seus sons:

a)      Cordas (strings). São tocadas com o arco (violino, viola, violoncelo, contrabaixo; correspondem às cinco oitavas da voz humana – SATB / soprano, alto, tenor, baixo) ou tangidas/beliscadas (ex: harpa, violão).

b)      Madeiras ou sopros (woodwind). São tocadas com sopro direto (ex: piccolo, flauta), sopro em palhetas simples (ex: clarinete, saxofone) ou sopro em palhetas duplas (ex: oboé, corne inglês, fagote).

c)      Metais (brass). São tocadas com sopro direto (ex: trombone, trompete, tuba, trompa francesa).

d)      Percussão (percussion). São tocados quando um objeto é batido, arrastado ou amassado contra outro (ex: tímbano, címbalo, pandeiro, xilofone).

e)      Teclados (keyboards). Podem ser tocados como as cordas tangidas (ex: cravo), como um instrumento de percussão (ex: piano) ou como uma madeira (ex: órgão).

Muitos instrumentos são transpositores, ou seja, suas notas são anotadas na partitura de maneira que soem diferentes quando tocadas, em função dos diferentes tamanhos (ex: saxofone alto e saxofone tenor) e mesmo sistema de dedilhado (ex: oboé/não transpositor e corne inglês/transpositor). Este fenômeno é relativamente comum em madeiras e metais.

Em uma apresentação musical, os instrumentos podem ser agrupados de três formas:

  • Solo. Apenas um instrumento toca.
  • Câmara. Dois ou mais instrumentos tocam, com apenas um músico por parte (ex: quarteto de cordas, que é composto por dois violinos, uma viola e um violoncelo).
  • Orquestra. Muitos instrumentos tocam, com dois ou mais músicos por parte (ex: vários violinos, várias violas etc.).

A dinâmica (dynamics) refere-se à intensidade sonora, coloquialmente conhecida como “volume” da música. A dinâmica pode ser fixa, como nas indicações forte, piano, mezzo-forte etc., ou gradual, como nas indicações de crescendo ou diminuendo.

Ritmo (tempo)

O Dr. Greenberg chama de batida (beat) ou pulsação (pulse) da música à menor divisão temporal possível dentro da qual somos capazes de mover confortavelmente nossos corpos. A batida afeta o corpo humano de maneira metabólica, fazendo com que ele “dance”, nem que seja estalando os dedos, batendo o punho ou qualquer reação semelhante que marque a batida.

A velocidade com que se dá a batida em uma música é chamada de andamento (tempo): presto, allegro, lento, largo etc. Modernamente, utiliza-se o metrônomo para indicar a freqüência exata de cada andamento.

A métrica (meter) é a medida musical para o número de batidas que se agrupam. Há quatro métricas principais: binário, ternário, composta e aditiva. A métrica se detecta auditivamente, acompanhando as batidas acentuadas (accents) que ocorrem regularmente, mas que nem sempre são as mais altas ou as primeiras dentro do grupo/compasso. A métrica binária refere-se a duas ou quatro batidas agrupadas, enquanto a ternária refere-se a três batidas agrupadas (sarabanda, minueto, valsa, mazurka, polonesa etc.). A música amétrica é aquela na qual não se detecta nenhum compasso (p.ex: canto gregoriano).

As marcas de tempo (time signature) é a marcação nas partituras que indicam a métrica. Por exemplo, 4/4 significa métrica binária (numerador), 3/4 métrica ternária (numerador).  O denominador indica o tipo de nota musical que marca uma batida.

Síncope (syncopation) é o nome que se dá a batida acentuada que ocorre quando não a esperamos uma batida acentuada. Ela é usada para criar ambigüidade, interesse e tensão, ou mesmo para marcar a mudança da métrica em uma determinada passagem da música.

A métrica composta é qualquer métrica que apresenta uma subdivisão tripla dentro de cada batida. Se a batida primária estiver em métrica binária, então a métrica composta será binária. Caso contrário, será métrica composta ternária.

A métrica aditiva é aquela que soma métricas binárias e ternárias (p.ex., a abertura do 2º movimento da 6ª sinfonia de Tchaikovsky em si menor, op.74) está em métrica 5, ou seja, ternária mais binária (3 + 2). Assim como a assimetria métrica (ausência de métrica fixa em uma música ou movimento, como no Ritual da Primavera, de Stravinsky), a métrica aditiva ganhou espaço apenas no século XX.

Altura (freqüência)

Em termos musicais, ruído é todo som no qual o ouvido humano é incapaz de identificar uma freqüência fundamental (altura). A altura é, portanto, o som caracterizado por uma freqüência fundamental e por um timbre. Quando um lá é tocado em um piano, a freqüência fundamental é de 440 Hz; no entanto, a altura não é apenas o som desta freqüência, mas a somatória dela com os sobretons dela, que inevitavelmente são produzidas conjuntamente. Esta somatória dá a característica típica do timbre. A propósito, esta altura, chamada de “lá de concerto”, é a altura na qual os instrumentos são afinados em uma orquestra.

É importante não confundir altura com nota. A nota, além da freqüência fundamental e do timbre, apresenta também uma duração. Portanto, não se diz “me dê uma nota ré maior no piano”, a não ser que a altura tenha sido devidamente anotada com uma duração.

A grande maioria das obras de música clássica ocidental apresenta três coleções de alturas (pitch collections): maior, menor e cromática. A palavra escala (scale) não é apropriada porque implica em uma ordem de alturas, o que não ocorre em uma simples coleção.

O intervalo (interval) característico das coleções é a oitava (octave). Pitágoras compreendeu que duas alturas tocadas simultaneamente com uma oitava de diferença, ou seja, em uma relação 2:1 em suas freqüências fundamentais, não se parecem com sons distintos, mas combinam-se como se fossem um mesmo som em uma mesma altura. São, portanto, sons consonantes. A palavra oitava surgiu quando, no Ocidente, o sistema de alturas possuía sete alturas. A oitava era, portanto, a oitava altura a partir de uma altura cuja freqüência era o dobro (ou a metade).

A coleção cromática divide uma oitava em 12 alturas. A distância entre alturas adjacentes é chamada de semitom. No entanto, a música ocidental caracteriza-se por coleções de alturas com apenas 7 alturas, o que inclui as coleções maior e menor. Uma coleção de sete alturas é chamada de diatônica. O intervalo entre alturas adjacentes em uma coleção diatônica consiste de quatro tons (1 tom = 2 semitons) e dois semitons. Por exemplo, a coleção dó maior consiste nas teclas brancas do piano, de dó a dó (cinco tons inteiros e dois semitons). Em uma coleção diatônica, a primeira altura é chamada de altura tônica (tonic pitch).

As sete possíveis coleções diatônicas produzem sete modos. O modo jônio (ionian mode) é produzido no piano pelas teclas brancas de dó a dó: tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom. Este modo também é chamado de modo maior. O modo eólio (aeolian mode) é produzido no piano pelas teclas brancas de lá a lá: tom, semitom, tom, tom, semitom, tom, tom. Este modo também é chamado de modo menor. Os modos jônio e eólio (ou maior e menor) são os mais utilizados na música ocidental. Apenas para constar, os outros cinco modos são: dórico, frígio, lídio, lócrio e mixolídio.

O terceiro grau de um modo determina se ele é brilhante ou soturno. O terceiro grau do modo jônio (maior) está quatro semitons acima da tônica, enquanto no eólio (menor) está três semitons acima da tônica. Os quatro semitons conferem brilhantismo ao modo maior, enquanto os três semitons conferem certa escuridão ao modo menor.

A série de sobretons estudada por Pitágoras a partir de um monocórdio permitiu-lhe chegar a algumas conclusões interessantes. Alguns intervalos, chamados de “justos” (perfect), são particularmente empolgantes e essenciais: a oitava, a quinta e a quarta.
A quinta é o segundo intervalo mais importante depois da oitava, e é por isso chamada de altura dominante (dominant pitch). Na escala dó maior, por exemplo, a quinta justa é o sol. O acorde (chord) produzido nesta dominante cria uma tensão.

A quarta é o terceiro intervalo mais importante depois da oitava e da quinta, e é por isso chamada de altura subdominante (subdominante pitch). Nas cadências (fins de frases, seções ou movimentos), o acorde subdominante precede o dominante, que em seguida é finalizado ou “resolvido” pelo acorde tônico. É a progressão IV-V-I.

Na Renascença, descobriu-se que se empilhando quintas uma sobre as outras, na 13ª altura, chegava-se novamente a altura original. Na realidade, alcança-se 1/8 de tom mais grave do que a 13ª altura. Assim, esforços para resolver esta situação resultaram no que hoje chamamos de afinação de temperamento igual (equal temperament), na qual a oitava é dividida em 12 semitons exatamente iguais.

Assim, esta afinação permite que tenhamos 12 coleções em modo maior e 12 coleções em modo maior, contanto que se mantenha o esquema T-T-S | T-T-T-S (T=tom; S = semitom) para o modo maior e T–S–T | T–S–T–T para o modo menor.

Tonalidade é a tendência que uma determinada altura ou harmonia tem para ser o centro gravitacional de uma determinada seção ou movimento musical. A palavra tom (key) refere-se precisamente à tonalidade específica que será a altura tônica da música, bem como indica a coleção que se dará a partir desta altura.

O tom da música é percebido de três formas:

  • Implicação melódica: quando a melodia claramente se resolve ou repousa sobre a tônica.
  • Resolução harmônica: o som simultâneo de três ou mais alturas, chamado de acordo harmônico, segue as alturas mais importantes da coleção diatônica; assim, a resolução de acordes de tensão pelos acordes de repouso também indica onde está o tom da música.
  • Afirmação: quando o tom fica evidente pela repetição ou sustentação por um longo período; chama-se tom pedal (pedal tone) ou apenas pedal.

O círculo de quintas (circle of fifths) apresenta as 12 alturas da coleção cromática em forma circular. Ele mostra os tons maiores e menores distantes uma quinta entre si nas cunhas adjacentes, bem como apresenta a armadura (key signature) de cada tom, com seus sustenidos e bemóis, reproduzido nas partituras para indicar em qual tom está a seção ou movimento. O círculo também é útil para indicar proximidade ou distância entre os tons. Por exemplo, o tom dó maior e o tom lá menor possuem a mesma armadura, ou seja, sem sustenidos ou bemóis: é o que chamamos de tons relativos, pois compartilham as mesmas alturas, mas tônicas distintas. Por outro lado, os tons paralelos são assim chamados por compartilharem a mesma tônica, mas com alturas distintas (ex: dó menor e dó maior).

O trítono (tritone) é o intervalo mais dissonante e mais instável do sistema tonal e, portanto, precisa ser resolvido (ex: fá e si). É importante notar que a nomenclatura dos intervalos é composta pela distância da segunda altura em relação à primeira, não se esquecendo que a primeira já conta como “um”. Por exemplo, o intervalo entre dó e ré é uma segunda maior, ou seja, um tom de diferença entre elas. O intervalo entre dó e ré b (ré bemol) é chamado de segunda menor. Os intervalos compostos por quatro semitons são as terceiras maiores (ex: dó-mi), enquanto os intervalos compostos por três semitons são as terceiras menores (ex: dó-mi b). Os intervalos compostos por cinco semitons são as quartas perfeitas (ou justas), enquanto os intervalos compostos por sete semitons são as quintas perfeitas (ou justas). Quanto às quartas e quintas, não dizemos que elas possuem “maiores” ou “menores”, mas “aumentadas” ou “diminuídas”, pois tais modificadores nos lembram que os sons assim modificados não soam como os intervalos originais (p.ex., uma segunda maior e uma segunda menor soam como segundas), mas como outros intervalos maiores e menores (p.ex, uma quarta diminuída soa como uma terceira maior; uma quinta aumentada soa como uma sexta menor). É tudo uma questão de percepção auditiva. Por fim, uma quinta diminuída e uma quarta aumentada (ambas contêm seis semitons de intervalo) soam como um trítono. Os intervalos compostos por oito semitons são as sextas menores, enquanto os intervalos compostos por nove semitons são as sextas maiores. Os intervalos compostos por dez semitons são as sétimas menores, enquanto os intervalos compostos por onze semitons são as sétimas maiores.

Estes intervalos são complementares, no sentido de que alguns deles, quando combinados, produzem uma oitava:

  • Dois trítonos produzem uma oitava. Naturalmente, som resultante é dissonante.
  • Uma quarta perfeita e uma quinta perfeita produzem uma oitava. Consonante.
  • Uma terceira menor e uma sexta maior produzem uma oitava. Consonante.
  • Uma segunda menor e uma sétima maior produzem uma oitava. Dissonante.
Os intervalos percebidos sucessivamente são chamados de intervalos melódicos (raramente os percebemos consonantes ou dissonantes), enquanto os intervalos percebidos simultaneamente são os intervalos harmônicos.

Melodia (sons sucessivos)

A melodia é o som que percebemos em sucessão temporal. A principal idéia melódica de uma seção ou movimento é chamada de tema (theme), embora a palavra tema também se refira ao ritmo ou harmonia característicos de um movimento.

Há quatro tipos principais de melodias:

(a)    Melodia verbal: as palavras cantadas são a causa principal da melodia, ou seja, são elas que determinam as mudanças de altura (p.ex., canto gregoriano; Eurídice, de Jacopo Peri).

(b)   Melodia vocal: as palavras e a música desempenham papéis igualmente importantes, mas a música tenta expressar sentidos que se encontram para além da música (p.ex., as árias (solos dramáticos independentes) e recitativos (eventos pertinentes, como diálogos) das óperas do século XVII; Giuseppe Verdi, Rigoletto (1851), ato 3, “La donna è mobile).

(c)    Melodia instrumental vocalmente concebida: apresenta o fenômeno do lirismo, ou seja, quando a música de certa forma imita o falar humano (p.ex., Johann Sebastian Bach, Suíte Orquestral nº 3 em ré maior, BWV 1068 (1731), 2º movimento; Wolfgang Amadeus Mozart, Sonata para Piano em lá maior, K. 331 (1781–1783), 3º movimento; Frédéric Chopin, Impromptu nº 4 em dó s menor, op. 66 (1835); Piotr Ilyich Tchaikovsky, Concerto para Violino em ré maior, op. 35 (1878), 1º movimento, 1º tema).

(d)   Melodia instrumental: os motivos (motives), que são breves sucessões de notas, compõem o tema melódico por repetição e transformação (p.ex., Ludwig van Beethoven, Sinfonia nº 5 em dó menor, op. 67 (1808), 1º movimento, 1º tema).

(e)    Melodia de acompanhamento: quando um instrumento dá auxílio melódico à melodia principal, como os contrabaixos, ou quando uma linha melódica secundária gira em torno da primária (p.ex., Piotr Ilyich Tchaikovsky, Concerto para Violino em ré maior, op. 35, 1º movimento, linha de contrabaixo).

(f)     Contramelodia: quando uma melodia secundária assume momentaneamente a frente das melodias temáticas principais (p.ex., Piotr Ilyich Tchaikovsky, Concerto para Violino em ré maior, op. 35, 1º movimento, melodia temática e contramelodia).

(g)    Melodia periódica: quando uma seção musical apresenta com clareza começo, meio e fim (p.ex., os movimentos da era clássica, como Wolfgang Amadeus Mozart, Quarteto para Piano em sol menor, K. 478 (1785), 1º movimento, ou Wolfgang Amadeus Mozart, Sinfonia em dó maior, K. 551 (Júpiter, 1788), 1º movimento, abertura, nas quais se percebe claramente que as frases melódicas antecedentes terminam em acordes dominantes e as frases conseqüentes terminam na tônica).

(h)    Melodia contínua: quando não há um meio e um fim bem determinados (p.ex., Richard Wagner, Götterdämmerung (1874), “A Jornada de Siegfried pelo Reno”).

Em melodia, a textura (texture) é o número de melodias presentes em uma seção ou movimento. Há quatro tipos principais:

(a)    Monofonia: uma única linha melódica (p.ex., canto gregoriano; Wipo, Victimae paschali (c. 1040)).

(b)   Polifonia (ou contraponto): duas ou mais linhas melódicas, todas de igual importância, podendo ser imitativa (as linhas se imitam, como em Johann Sebastian Bach, Invenção em Duas Partes nº 8 in fá maior, BWV 779 (c. 1723) e não imitativa (duas ou mais melodias são ouvidas simultaneamente, como ocorre no jazz).

(c)    Homofonia: uma linha melódica principal e as demais como melodias de acompanhamento (p.ex., a linha de contrabaixo em Wolfgang Amadeus Mozart, Variações em Ah, vous dirai-je, maman, K. 265, tema; a harmonização de acorde em Ludwig van Beethoven, Sonata para Piano nº 8 in dó menor, op. 13 (Pathétique, 1799), abertura; a contramelodia em Ludwig van Beethoven, Sinfonia nº 9 in ré menor, op. 125 (1824), 4º movimento, tema do Ode à Alegria).

(d)   Heterofonia: diferentes partes unem-se para produzir uma única melodia, como na música indonésia, ou uma melodia é acompanhada de uma versão ornamentada de si mesma, como da música vocal oriental; há pouquíssimos casos de heterofonia na música ocidental.

Harmonia (sons simultâneos)

A tríade maior (major triad) é o principal componente do sistema harmônico ocidental. Ele é composto de duas terceiras, resultando assim em três alturas. Há quatro tipos de tríades: maior, menor, diminuída e aumentada. Por exemplo, no tom dó maior, a tríade maior é dó-mi (terceira maior) e mi-sol (terceira menor); no tom dó menor, a tríade menor é dó-mi b (terceira menor) e mi b-sol (terceira maior). Observe que as tríades maiores e menores são invertidas entre si, que o intervalo entre suas tônicas e suas terceiras alturas é uma quinta, e que todas são consonantes.

As tríades diminuídas são, por sua vez, constituídas de duas terceiras menores, como em dó-mi b e mi b-sol b. O intervalo total corresponde a uma quinta diminuída (um trítono, portanto) e seu som é dissonante.

As tríades aumentadas são constituídas de duas terceiras maiores, como em dó-mi e mi-sol s. O intervalo total corresponde a uma quinta aumentada e seu som é dissonante.

As tríades também são classificadas de acordo com a maneira como ocorrem. Por exemplo, na coleção maior, há as seguintes tríades:

(a)    Tríade tônica é a tríade maior formada sobre a altura tônica de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo I). Por exemplo: dó-mi-sol.

(b)   Tríade supertônica é a tríade menor formada sobre o segundo grau de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo II). Por exemplo: ré-fá-lá.

(c)    Tríade mediante é a tríade menor formada sobre o terceiro grau, ou seja, a meio caminho entre as alturas tônica e dominante, de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo III). Por exemplo: mi-sol-si.

(d)   Tríade subdominante é a tríade maior formada sobre o quarto grau de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo IV). Por exemplo: fá-lá-dó.

(e)    Tríade dominante é a tríade maior formada sobre o quinto grau de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo V). Por exemplo: sol-si-ré.

(f)     Tríade submediante é a tríade menor formada sobre o sexto grau de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo VI). Por exemplo: lá-dó-mi.

(g)    Tríade líder é a tríade diminuída formada sobre o sétimo grau de uma coleção maior (simbolizada com o algarismo VII). Por exemplo: si-ré-fá. Ela é importante porque a tensão criada por ela (afinal, é um trítono) tende a ser resolvida pela tríade tônica, cujo intervalo é de apenas um semitom. O uso melódico e harmônico combinado da tríade líder é extensamente empregado na música clássica ocidental.

As tríades de primeira inversão são aquelas na qual o terceiro grau do acorde está na linha de baixo. Por exemplo, a tríade mi-sol-dó. As tríades de segunda inversão, por sua vez, são aquelas na qual o quinto grau do acorde está na linha de baixo. Por exemplo, a tríade sol-dó-mi. As inversões são úteis para vozes, não para música, e dão apoio à linha de soprano.

A progressão harmônica (harmonic progression) é o movimento de um acorde para o próximo. A cadência (cadence) é a progressão harmônica mais conhecida, pois é ela quem termina uma frase, seção ou movimento. Há as cadências fechadas ou autênticas (é um “ponto final” claramente percebido), as abertas (é uma “vírgula”) dividem o tema em duas partes, as falsas (resolvem-se fora da tônica) e as do tipo amém (progressão de tríades IV para I).

Modulação (modulation) é o processo através do qual a música tonal muda seu tom durante o movimento, criando certa instabilidade e transitoriedade harmônica. Há inúmeras e complexas técnicas para se fazer isso, como o uso do círculo das quintas e do tom comum ou pivô (duas ou mais alturas são comuns às duas harmonias).

18 de janeiro de 2011

A educação de crianças pequenas


Os espíritos malignos interferem na mente das crianças...a fim de perturbá-las. A criança deve aprender a obedecer, sobretudo nos primeiros cinco anos de vida. Este é o período durante o qual o caráter da criança é formado. Desta forma, as boas caracterísitcas aprendidas durarão pelo resto da vida da criança. Neste período, os filhos devem aprender a ter absoluta obediência aos pais. Quando os pais dizem algo, a resposta tem de ser "Amém". Infelizmente, hoje em dia, os pais não sabem disso e acabam ensinando o contrário. E é assim que as crianças crescem...

Fonte: Orthodox Christian Education

21 de novembro de 2010

Ler demais faz mal para a vida espiritual


Quando estamos no início da vida espiritual, acontece com frequência que nos dediquemos demais aos estudos. Algumas pessoas tentam ler o máximo possível de livros. Cuidado, pois você pode estar cometendo um grave erro. O crescimento espiritual acontece quando adquirimos um conhecimento profundo de nós mesmos. Muitas vezes, ler e estudar acaba apenas postergando o trabalho que realmente deveríamos estar fazendo, que é conhecer as causas de nossas ações.

O Ancião Paísio recomenda o seguinte:

A pessoa que estiver no começo de sua vida espiritual não deve estudar demais. Na verdade, ela deve se vigiar e observar seus pensamentos.
Esta prática exige tempo para introspecção e uma mente que não esteja muito ocupada. É por isso que é tão importante começar uma vida regular de orações, que inclua a prática da Oração de Jesus. É verdade que devemos conhecer os detalhes de nossa fé e as doutrinas da Escritura. No entanto, no fim das contas, precisamos conhecer nossas fraquezas, preconceitos e hábitos, de maneira que possamos buscar conscientemente a ajuda necessária para mudarmos nossos comportamentos e adquirirmos as virtudes que Jesus nos ensinou.

19 de outubro de 2010

A arte da periagoge


Segundo John von Heyking, Gerhart Niemeyer e Eric Voegelin adotavam em suas aulas de filosofia política uma técnica para provocar em seus alunos a periagoge platônica, ou seja, o giro da alma em direção ao fundamento divino, afastando-a da indolência espiritual. Essa arte, que é a autêntica “educação liberal”, vem originalmente de Kierkegaard. A função não é apenas transmitir conceitos e descrições das sociedades e ideologias, os quais apelariam para uma porção pequena da alma do aluno, mas provocar uma verdadeira conversão existencial, algo mais amplo e profundo, que efetivamente desperte o aluno e faça-o voltar-se para a busca da verdade.

A arte da periagoge divide-se em três fases:

1) Fase estética. O professor procura despertar a conversão no aluno mediante a sátira e a ironia. Por exemplo, Voegelin, em Hitler e os Alemães, ironiza os expoentes da intelectualidade e da moralidade da sociedade alemã dos tempos nazistas tomando emprestadas algumas sátiras de Karl Kraus. A idéia não é intimidar os alunos ali presentes ou insultar gratuitamente os intelectuais mencionados, mas provocar uma mudança no senso estético dos alunos a fim de que enxerguem as pessoas pretensamente grandes como realmente são, ou seja, pequenas e desprezíveis.

2) Fase ética. O professor procura converter o aluno em duas perspectivas: (a) expressando indignação moral e (b) afirmando a ordem moral como sendo um elemento essencial para o entendimento científico da realidade política. Um dos exemplos utilizados por Voegelin é o do jornalista que critica um prisioneiro de Auschwitz por ter chamado um dos guardas de “assassino”, apesar de o guarda apenas o ter deixado aleijado. A indignação de Voegelin para com o jornalista é patente. Quer dizer que só devemos chamar alguém de “assassino”, mesmo após vê-lo matando alguém a frio, depois de o indivíduo ser julgado como tal em um tribunal? A mentalidade legalista do jornalista o impede de falar a verdade por receio de violar a letra da lei.

3) Fase religiosa. É a “conversão ao transcendente”. Se a fase anterior julgava moralmente as ações do indivíduo, nesta fase o indivíduo é julgado como um todo perante os padrões da ordem transcende. Isso significa que o professor deve apontar a perda de realidade, que invariavelmente encontra-se no desejo do indivíduo de ser o criador de sua própria existência e de seus próprios valores. Ao mesmo tempo, o professor tem de explicar ao aluno qual é o padrão empiricamente verdadeiro da ordem transcendente. A este respeito, em Hitler e os Alemães, Voegelin diz: “As experiências da razão e do espírito deixam claro que o homem experiencia-se como um ser que não existe de si mesmo. Ele existe em um mundo que lhe é dado de antemão. A existência deste mundo é um mistério, e o nome deste mistério, da causa do ser do mundo, do qual o homem é um componente, chama-se ‘Deus’. Portanto, a dependência da existência da causação divina da existência é, e sempre tem sido, a discussão básica da filosofia”. Trata-se de um chamado existencial profundo, e não apenas um chamado para sustentar opiniões e conceitos aprovados pela religião. É por isso que Voegelin criticou duramente o papel desempenhado pelas igrejas protestantes durante o período nazista: embora seus líderes se mantivessem fiéis aos dogmas e conceitos de suas igrejas, recusaram-se a prestar testemunho à verdade transcendente.

Por fim, Heyking explica que estas fases não são temporais, ou seja, elas ocorrem alternadamente e mesmo simultaneamente. Não devem, portanto, ser encaradas de maneira isolada.

1 de outubro de 2010

Educação secular


Os homens de bom-senso admitem que a maior de nossas vantagens é a educação; não somente esta nossa forma mais nobre de educação, que despreza a glória e os ornamentos retóricos e apega-se à salvação e à beleza dos objetos que são alvo de nossa contemplação, mas também a cultura exterior, a qual muitos cristãos consideram abominável, maliciosa e perigosa e que, segundo eles, nos afasta de Deus. Pois não devemos rejeitar os céus, a terra, o ar e todas essas coisas só porque algumas pessoas se apoderaram impropriamente delas e honram as obras de Deus ao invés de honrar o próprio Deus; mas devemos colher delas as vantagens que estiverem ao nosso alcance para benefício de nossas vidas e para nossa fruição, ao mesmo tempo que devemos evitar seus perigos; não devemos usar a criação, como os tolos o fazem, em levantes contra o Criador, mas, a partir das obras da natureza, devemos apreender o Criador, e, como ensina o santo Apóstolo, levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo. Repito que, assim como nem fogo, nem alimento, nem ferro, nem quaisquer elementos sejam proveitosos ou danosos exceto pela vontade de quem os faz uso, assim como formulamos remédios úteis a partir de elementos que se encontram até mesmo em répteis, assim também a literatura secular fornece-nos princípios para a investigação e a especulação, ao mesmo tempo em que rejeitamos sua idolatria, terror e destruição. Ora, até mesmo essas coisas auxiliam em nossa religião, pois percebemos o contraste entre o pior e o melhor e reforçamos nossa doutrina a partir da fraqueza da doutrina deles. Assim sendo, não devemos desacreditar a educação só porque algumas pessoas gostam de fazer isso, mas devemos, isso sim, considerar estas pessoas como sendo rudes, grosseiras e incultas, pois desejam que todos os homens sejam como elas, para que então possam se diluir em meio ao público e sua falta de cultura não seja detectada. Mas vinde agora, e após este breve esboço de nosso assunto e estas considerações, contemplemos a vida de Basílio.

Fonte: São Gregório, o Teólogo (+391), Discurso XLIII sobre a vida de São Basílio, o Grande, §11

8 de setembro de 2010

Leitura espiritual: mudança vs. prazer


Hoje em dia, as pessoas lêem tanto que acabam se transformando em gravadores, preenchendo suas fitas cassete com coisas supérfluas. Porém, segundo Abba Isaque, se a sabedoria não se fundar sobre a retidão prática, torna-se um depósito de desgraça. Observem que as pessoas que se interessam por esportes lêem jornais e revistas esportivas enquanto estão sentadas. Elas podem até se parecer com bois gordos, mas mesmo assim se deslumbram com os atletas...elas não aproveitam nada...o mesmo ocorre com as pessoas que lêem livros espirituais. Elas passam a noite inteira se concnetrando em livros espirituais, e ficam contentes com isso. Elas pegam um livro espiritual, sentam confortavelmente e começam a ler. "Oh, sim, eu me beneficiei com a leitura", dizem elas. Na verdade, elas deveriam dizer: "Eu gostei da leitura. Foi uma leitura muito prazerosa". Mas isto não é tirar proveito da leitura. Nós realmente aproveitamos a leitura quando entendemos o que lemos, quando nos auto-censuramos e auto-disciplinamos ao aplicar o que lemos: "O que isto significa? Onde me encontro em relação a esta verdade espiritual? O que devo fazer agora?"

9 de agosto de 2010

Inteligência e conhecimento


Somente as pessoas santas são, por causa de sua pureza, espiritualmente inteligentes. Esta era a inteligência natural do homem antes da Queda. O mero exercício intelectual não basta para que as pessoas purifiquem sua inteligência, pois, desde a Queda, a inteligência humana encontra-se corrompida por pensamentos malignos. O espírito materialista e verborrágico da sabedoria deste mundo permite que versemos sobre as mais diversas esferas de conhecimento, mas também acaba tornando nossos pensamentos cada vez mais toscos e grosseiros. A combinação da dialética bem-intencionada com os pensamentos toscos não chega nem perto da verdadeira sabedoria e da verdadeira contemplação, muito menos do conhecimento indiviso e unificado.

A expressão "conhecimento da verdade" significa, acima de tudo, a apreensão da verdade mediante a graça. Os outros tipos de conhecimento devem ser considerados como sendo meras imagens de intelecções ou demonstrações racionais de fatos.

Fonte: São Gregório do Sinai, Philokalia, On Commandments and Doctrines, Warnings and Promises; on Thoughts, Passions and Virtues, and also on Stillness and Prayer: One Hundred and Thirty-Seven Texts

1 de agosto de 2010

O demônio da distração



O autor defende a idéia de que uma das características mais marcantes da modernidade é a distração crônica. É como se o próprio objetivo de vida das pessoas fosse distrair-se incessantemente, pulando de programas de TV a músicas pop a internet a leituras superficiais a video games e novamente a programas de TV etc. Esse tipo de comportamento produz o vício da distração (distractedness), cujo efeito é dissipar as energias mentais, reduzindo abruptamente a capacidade de concentração do indivíduo.

Ocorre que a falta de concentração não implica apenas em incapacidade para concentrar-se em problemas teóricos ou práticos, sejam questões filosóficas ou problemas mais ligados à vida profissional e familiar, mas implica, acima de tudo, em uma certa insensibilidade perceptiva para as coisas que transcendem o mundo psicofísico que cerca o indivíduo. E essa insensibilidade porta conseqüências que vão muito além de  prejudicar a vida de "sucesso" profissional ou social. Na verdade, as conseqüências acompanham o indivíduo depois da morte. Este assunto é tão importante que Smith não deixa de expressar grande surpresa ao constatar que as autoridades eclesiásticas raramente ou nunca versam sobre ele.

Os leitores cristãos ortodoxos certamente já ouviram falar da expressão "dispersão do noûs". Há diversas passagens das Sagradas Escrituras que indiretamente lidam com esta questão. Por exemplo, em Mateus 12:30, Jesus Cristo afirma que quem comigo não ajunta, espalha. Embora tradicionalmente aquele que não ajunta é Satanás, quem comigo não ajunta pode ser o próprio homem, enquanto espalha pode ser as múltiplas potências da alma do homem. Em Mateus 7:13-14, Cristo também diz: Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. A porta estreita e o caminho apertado podem ser entendidos como sugestões à concentração.

Lembre-se de que a concentração mencionada não se refere apenas à concentração racional, filosófica, mas à concentração espiritual, ao recolhimento do noûs de volta ao coração místico, ao verdadeiro centro do homem. Este recolhimento é mencionado por Jesus Cristo: Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto (Mateus 6:6). Ademais, a literatura patrística deixa claro que o aposento não é apenas um lugar fisicamente isolado e afastado, embora tal conotação também esteja implícita, mas significa também o coração humano, o olho da alma, a consciência superior. É por isso que a vida espiritualmente sadia é inversamente proporcional ao grau de distração no qual se encontra o noûs humano. Quanto mais disperso o noûs, menos apegado estará à sua verdadeira identidade espiritual.

Desde a Queda, a raça humana apresenta um tipo de tendência pecaminosa que é muito mais sutil do que, por exemplo, os pecados ligados à concupiscência da carne. A natureza sensorial humana, aliada à imaginação, tagarela em voz alta dia e noite, sem parar, causando grande agitação e distúrbio à alma e ao espírito. É uma espécie de herança infernal, um verdadeiro "demônio da distração", ao qual, mais do que nunca, o homem moderno está sujeito.

23 de julho de 2010

Como pensar


Henry Hazlitt, em Thinking As a Science, escrito em 1913, quando o autor contava com apenas 18 anos de idade, procura ensinar ao leitor alguns princípios e dicas da arte do pensamento. Aflito com a popularização da leitura de passatempo – vê-se que as coisas não mudaram muito de lá para cá –, Hazlitt deseja que o leitor ocupe seu tempo com pensamentos produtivos. Pensar não é pensar na vida, lembrar-se de coisas do passado, fantasiar etc., mas pensar com propósito, com o objetivo de resolver um problema específico. Assim como um relojoeiro, para fazer um excelente relógio, precisa de excelentes instrumentos, o pensador, para "fazer" um excelente pensamento, precisa de “instrumentos” também excelentes. Tais instrumentos são os métodos para se pensar corretamente.

Os princípios do raciocínio: problema, classificação e método

Pensamento significa, portanto, raciocínio. E o raciocínio exige um propósito que seja muito bem definido, a fim de que possamos delimitar com a máxima exatidão possível qual é o problema a ser atacado. Lembre-se: um problema bem delineado é um problema parcialmente resolvido.

O próximo passo é a classificação. Todo e qualquer raciocínio exige que os elementos do problema sejam adequadamente classificados. Não se preocupe muito em encontrar uma classificação absolutamente exaustiva e essencial, mas cuide apenas para que a classificação seja correta e precisa. Por exemplo, o papel pode ser um material combustível, uma superfície plana, um hidrocarboneto, uma coisa de 24 cm de comprimento, uma coisa americana etc. O importante é que a classificação seja lógica e útil ao problema.

Em seguida, devemos encontrar um método adequado para a solução do problema. Vejamos brevemente alguns deles:

• Método dedutivo. É aplicável à maioria dos problemas, e consiste em chegar a uma conclusão sem a ajuda de observações e experiências. A idéia é raciocinar a partir de experiências pregressas ou de princípios já estabelecidos.

• Método comparativo. A idéia é atacar o problema fazendo uso das várias ciências. Por exemplo, o método da psicologia animal compara a ação dos animais com as ações humanas; o método histórico obtém conhecimento de alguma coisa a partir de seus registros históricos.

• Método da sugestão. A idéia é considerar as sugestões que lhe ocorrerem mediante observação, memória e/ou experiência e testá-las mentalmente a fim de verificar se fazem sentido.

• Método da oposição. Inverter o problema, perguntando pelo seu oposto. Isso auxilia a solução do problema por meio da mudança de perspectiva.

• Método da analogia. Procura-se notar as semelhanças entre as coisas, assumindo assim que possuem algumas qualidades em comum. Por exemplo, estudar o planeta Marte comparando-o com a Terra etc.

• Método da observação empírica. É o método mais útil, pois se aplica nos casos em que os experimentos são impossíveis de serem realizados. É o caso de problemas sociológicos, astronômicos etc.

• Método da observação experimental. É o método utilizado quando é possível criar e conduzir experimentos. O método empírico nos força a admitir certos resultados como “dados”, o que equivale, em verdade, a admitir chutes. O método experimental consiste precisamente em encontrar os chutes e excluí-los do experimento.

Os problemas freqüentemente admitem, e exigem, a aplicação de mais de um método. Você deve se esforçar para aplicar a maior quantidade possível de métodos para a solução de um problema, pois um método poderá produzir resultados distintos de outro método, o que permitirá que eles se fiscalizem e se corrijam mutuamente. Em suma: saiba o método que está utilizando, de maneira que possa utilizá-lo mais consistentemente, corretamente e profundamente. E não se esqueça: dificilmente o problema é único, isolado, singular. Normalmente, o problema embute em si inúmeros outros problemas, que deverão, por sua vez, ser resolvidos. Descobrir quais são esses problemas representa um esforço intelectual próprio. Além disso, você terá de saber também em qual ordem os problemas deverão ser resolvidos.

A solução de problemas depende, em última instância, da capacidade mental do indivíduo. A formação escolar, o ambiente em que é criado, as condições culturais locais, tudo isso são influências que poderão ou não despertar as qualidades mentais que já se encontram no indivíduo. O verdadeiro objetivo dos métodos é, portanto, despertar as associações e pensamentos que já se encontram de alguma forma na mente do indivíduo.

Os erros mais comuns

Quanto à classificação, os erros mais comuns são:

(1) Criar classes que não sejam mutuamente excludentes, ou seja, criar classes que não se sobreponham. Por exemplo, as classes dos métodos construtivos – comparação, observação e experimentação – não são mutuamente excludentes, ou seja, as classes se sobrepõem. Afinal, tanto comparação quanto experimentação envolvem observação, e assim por diante. Embora pareça “lógico” que as classes não se sobreponham, essa divisão perfeita é impraticável.

(2) Criar classes que não englobem todos os objetos ou fenômenos que devam ser classificados. Por exemplo, os socialistas dividem as pessoas em duas classes: capitalistas e trabalhadores; mas há uma infinidade de pessoas que não se enquadram em nenhuma dessas classes ou que se enquadram em ambas (agricultores, professores particulares etc.).

(3) Apegar-se demasiadamente à classificação. Se algum fato ou observação exigir que a classificação seja totalmente revista, não pense duas vezes em fazê-lo.

Muitas pessoas adotam a tática de substituir mentalmente um termo difícil por sua definição, a fim de não perder de vista a compreensão do texto ou de um problema como um todo. Mas atenção: essa prática, embora útil nas primeiras vezes, não deve ser levada adiante por muito tempo, uma vez que ela agirá precisamente da maneira contrária, desviando a atenção e retardando a compreensão e a apreensão do problema e da solução.

Quanto à analogia, não se esqueça de que ela serve apenas para estimular-lhe o processo de sugestão. Isso significa que ela não deve ser levada às últimas conseqüências, como se todos os seus aspectos e relações pudessem ser transplantados para o problema original. Toda analogia é falha, toda analogia é absurda. Use-a com muita cautela, sempre desconfiando dos resultados que ela lhe despertar.

No que tange a comparação das conclusões obtidas pelos diversos métodos, certifique-se de que essa comparação seja feita apenas e tão-somente após todos os métodos terem sido aplicados, por mais difícil que seja essa tarefa. Não se apresse.

Quanto às pesquisas e experiências, critique sempre os resultados apresentados. Não se esqueça de que as pesquisas são quase sempre imperfeitas, pois as premissas das quais partem freqüentemente não são sólidas. A diferença entre observação empírica e observação experimental é apenas de grau, e não de tipo.

Há momentos em que a solução de um determinado problema é defendida por correntes de pensamento opostas, e cada corrente possui um número parecido de adeptos e de argumentos razoáveis. Neste caso, a melhor atitude é procurar uma solução que esteja fora e acima dos dois lados, pois é muito provável que os dois (ou mais) lados estejam apreendendo apenas parte do problema, e que a solução deva abrangê-las todas.

Em suma, não deixe que alguma sugestão não seja devidamente testada, seja pela memória, pela observação e/ou pela experimentação e pela pesquisa. Sair rapidamente do estado de dúvida é uma tentação, pois a dúvida desperta uma certa tensão na pessoa, podendo tornar-se extremamente desconfortável e intolerável. Mas resista: você não deve se contentar com soluções superficiais, mas deve querer o conhecimento mais profundo e completo possível do problema e de sua solução.

Por fim, a arte de pensar deve ser complementada por um bom estudo de lógica. Hazlitt recomenda Elementary Lessons in Logic, de William Stanley Jevons.

Concentração

Praticamente todas as pessoas “sonham acordadas”, ou seja, todos nós passamos boa parte do tempo pensando e imaginando coisas cuja utilidade é pouca ou nenhuma. Mas o que devemos fazer para manter a mente concentrada em um determinado problema?

Dissemos acima que as sugestões “ocorrem”. A psicologia explica tais “ocorrências” mediante o princípio da associação, que se classificam em quatro tipos:

1. Associação por sucessão. Quando duas idéias ou objetos entram na mente em sucessão, a segunda surge imediatamente após a primeira.

2. Associação por contigüidade. Quando duas idéias ou objetos entram na mente conjuntamente, as duas sugerem-se mutuamente.

3. Associação por similaridade. Quando duas idéias ou objetos se parecem, uma sugere a outra.

4. Associação por contraste. Quando duas idéias ou objetos opostos sugerem-se mutuamente.

O importante aqui é notar que, sem as associações, o pensamento é impossível. Isso significa dizer que as associações não são fenômenos mentais indesejáveis, como poderíamos supor a princípio, mas, pelo contrário, são desejáveis e necessários. O objetivo do raciocínio não é eliminar as associações, mas apenas eliminar as associações que não têm relação com o problema em questão. É por isso que a noção popular de concentração está errada: concentração não é atenção focada, mas é direcionar o fluxo das associações a fim de que convirjam para o propósito ou problema em vista. Mesmo quando “sonhamos acordados” estamos atentos e focados. A diferença entre sonhar acordado e concentrar-se é que sonhar acordado é atenção dispersa, enquanto concentração é atenção sustentada. Lembre-se: o importante é manter as associações atreladas a um determinado fim, mas jamais interromper as associações.

Mas então por que sonhamos acordados? Por que temos tanta dificuldade em nos concentrar? Por um motivo muito simples: o problema no qual estamos tentando nos concentrar não é realmente importante para nós. Grande parte de nosso “sonhar acordado” se deve ao fato de que as idéias e imagens que pensamos durante esse processo são mais importantes do que o problema no qual tentamos nos concentrar. É por isso que a regra principal da concentração é que, antes de qualquer coisa, temos de ter certeza que o problema é realmente importante, que vale a pena nos dedicarmos a ele a ponto de eliminarmos as sugestões irrelevantes e mesmo as imagens e sons exteriores que possam nos distrair.

Mais algumas dicas interessantes. Dizem que escrever os pensamentos é útil para que nos concentremos no problema. Sim, é verdade. Escrever significa traduzirmos os pensamentos em símbolos tangíveis, o qual são mais concretos do que o pensamento em si. Além disso, o ato de escrever permite que vislumbremos a cadeia de pensamentos de maneira mais sucinta. Mas lembre-se: nem sempre escrever é vantajoso. O ato da escrita é necessariamente um ato lento, ou pelo menos mais lento do que o pensamento, e muitos pensamentos úteis poderão ficar pelo caminho enquanto você escreve – escrever implica em concentrar-se no ato físico da escrita, ou seja, implica em desconcentrar-se pelo menos um pouco do problema em si.

Em vez de escrever, que tal falar? Pouca gente pensa nisso, mas o fato é que falar é mais proveitoso para a concentração do que escrever. Falar tem todas as vantagens da escrita: se o pensamento se dispersar, notaremos imediatamente. Falar torna o pensamento menos vago do que apenas pensar em silêncio. Isso acontece porque, enquanto pensamos em silêncio, não utilizamos apenas palavras, mas imagens, idéias e associações que permanecem anônimas, desconexas do raciocínio central, e a maneira mais fácil de detectarmos tal desconexão é pela fala. Não é incomum que os raciocínios terminem em becos sem saída, e, se falarmos, fica fácil percebermos esses becos: simplesmente paramos de falar. No entanto, falar possui uma desvantagem: temos de encontrar um lugar relativamente distante, afastado, isolado, para que nos sintamos a vontade em falar sem sermos confundidos com pessoas malucas. Hazlitt recomenda: “Jamais deixe que alguém lhe veja falando sozinho. Se lhe pegarem falando sozinho, é provável que algum asno idiota o confunda com um”. Bem, há ocasiões, no entanto, que até mesmo o ato de falar pode se tornar uma distração, mesmo que infinitesimal. Isso acontece quando o pensamento ainda é tão informe, tão embrionário, que o melhor é pensar em silêncio até que ele amadureça a ponto de poder ser falado. Não há uma regra pronta que lhe diga quando deve falar e quando deve pensar em silêncio. É você que encontrará o ponto de equilibro, mas o importante é que se esforce em encontrar qual é esse ponto para você.

A dica para interromper o processo de “sonhar acordado” é simples: assim que detectá-lo, interrompa-o. Lembre-se: toda vez que for capaz de fazer isso, a próxima lhe será mais fácil, até que, por fim, sua mente será capaz de concentrar-se com pouco esforço e muita eficácia. Os pensamentos frívolos se tornarão cada vez mais intoleráveis para você.

A diferença entre um pensador sério e um amador não é a capacidade de pensar: ambos pensam. A diferença é que o amador abandona o pensamento tão logo se vê envolto em dificuldades e obstáculos. Não deixe que isso aconteça com você.

Preconceitos e incertezas

Uma das características marcantes do pensador sério é a ausência de preconceitos. A pessoa que detém preconceitos jamais os expõem publicamente, ou seja, a pessoa nunca defende sua opinião deixando claro as verdadeiras razões que se escondem por trás dela. Não é incomum que as pessoas não saibam que estão agindo motivadas por preconceitos.

Os preconceitos em geral são sustentados por motivos emocionais. Vejamos as causas mais comuns:

1. A pessoa deseja que determinada opinião esteja certa porque se beneficia pessoalmente disso.

2. A pessoa deseja que determinada opinião esteja certa porque ela já a defendeu no passado, e a acusação de inconsistência intelectual lhe seria intolerável caso confessasse que errou, ou a opinião já está tão enraizada em sua psique (“hábito mental”) que ela se vê praticamente incapaz de se livrar de tal opinião.

3. A pessoa deseja que determinada opinião esteja certa porque, se estivesse errada, ela se recusaria a re-acomodar suas demais opiniões para que se tornassem compatíveis com aquela. Este é o preconceito mais comum. Há dois tipos de opiniões que as pessoas temem se livrar: (a) opiniões emprestadas, sobretudo as que foram marteladas desde muito tempo ou de origem dogmática; (b) opiniões que se recusam a aceitar evidências, sobretudo as opiniões “científicas”.

4. A pessoa imita a opinião alheia. Assim como tememos nos vestir de maneira diferente das demais pessoas, muita gente teme sustentar opiniões diferentes da maioria. É o medo de estar “fora de moda”, de parecer “antiquado”, de pensar como um “velho”. Este é o tipo de preconceito mais difícil de se livrar, pois exige coragem moral. Às vezes, coragem moral implica em parecer ridículo ou em ser desprezado, mas quem tem interesse na verdade não se deixa deter por estas coisas menores.

Se um pensamento lhe sugerir que uma de suas opiniões possa ser inconsistente, não descarte de imediato essa opinião. Procure expandir e testar o novo pensamento em todas as suas nuances e implicações, e faça o mesmo com a opinião original. Com tempo e esforço, uma dos dois se revelará falso, ou os aspectos verdadeiros e falsos de cada um lhe serão mais evidentes. Lembre-se: seja sincero em todas as opiniões que emitir. A verdade é sempre superior ao preconceito, mesmo que o preconceito possa posteriormente mostrar-se correto. Admitir que o preconceito é um preconceito é meio caminho andado para se livrar dele. Mais vale ter razão do que parecer “consistente” ou nutrir “carinho” por suas opiniões.

No entanto, o ímpeto em se livrar de todos os preconceitos pode engendrar outro tipo de pecado intelectual: a perpétua incerteza. Nem sempre vale a pena insistir na dúvida. Às vezes, somos chamados a agir. E a ação implica necessariamente em ter opiniões. Lembre-se: somos mortais, e chega um determinado momento em que não vale mais a pena buscar por mais evidências, mais demonstrações, mais raciocínios. Cada hora empregada em um assunto implica em uma hora a menos empregada em outro assunto, tão ou mais importante quanto o primeiro. Não deixe que o medo do preconceito o paralise.

Se você realmente e sinceramente acredita que “isto é assim”, diga “isto é assim”. Não diga “acho que isto é assim” ou “parece-me que isto é assim” ou “creio que isto é assim”. Se você sinceramente eliminou os preconceitos e considerou todos os aspectos da questão, diga “isto é assim” e pronto. Se depois você perceber que estava errado, e daí? Assuma que errou, assuma que muitos antes de você também erraram, e siga em frente. A maioria das pessoas lhe apontará o dedo e o incriminará. E daí? Você está interessado no seu crescimento intelectual, e não em aplausos.

Quando termina a dúvida e começa a certeza? Isto é você quem decidirá. Cada problema e cada proposição têm o seu timing adequado. Você terá de encontrá-lo, mas lembre-se: não pense com preconceitos nem deixe paralisar-se pela dúvida perpétua. Aprenda a detectar o momento certo. Pratique. Erre e cresça.

Uma última dica: não se deixe levar pelos debates, pois em geral os debatedores tentam “ganhar o jogo”, e não ter razão. Raramente o debatedor, após o debate, leva em consideração os argumentos do adversário, sobretudo se o adversário “perdeu” o debate. As conversas francas são quase sempre mais proveitosas do que os debates.

Como ler

A leitura jamais deve servir de substituta ao raciocínio. Este é um dos erros mais comuns entre candidatos a intelectuais: eles acham que um intelectual se forma acumulando um histórico invejável de livros lidos. Falso. O que se formará aí é um literato, um erudito talvez, mas não um intelectual.

Schopenhauer ensinava que a leitura é o recurso que o intelectual deve lançar mão somente quando seus pensamentos estagnarem. O intelectual nunca lê por ler. Ele não faz da leitura, por mais elevada e sublime que seja, um passatempo.

O candidato a intelectual tem de entender que parte de seu dia deve ser dedicado exclusivamente ao pensamento. Sem livros. Sem anotações. Sem conversas. Esta prática é tão rara, tão inusitada, que as pessoas acham que um homem que esteja lendo um grande livro está se “educando”, enquanto um homem que esteja refletindo, por mais inteligente que seja, estará apenas pensando, e não se “educando”. As pessoas acham que “pensar” significa recordar e reorganizar o que se sabe; na verdade, o verdadeiro pensar significa adicionar conhecimento ao que se sabe. Se tudo o que você quer é ler para não ter de pensar, então é melhor começar a fumar. O cigarro lhe será menos prejudicial à saúde intelectual do que os livros.

Isso não quer dizer que não devamos ler. Pelo contrário, devemos ler, e muito. O que Hazlitt recomenda é que não apenas leiamos, mas que nos esforcemos em tentar pensar sobre o assunto por nós mesmos. É claro que as leituras irão pouco a pouco guiar nosso pensamento, mas isso não quer dizer que estamos dispensados de pensar.

Mas como devemos ler? Hazlitt delineia cinco etapas:

1. Pense antes de começar a ler. Eis as palavras de Schopenhauer a respeito: “Digamos que um homem descubra algumas verdades após se dedicar à reflexão; e digamos que, mais tarde, aconteça de ele topar com um livro que teria lhe poupado todo o esforço reflexivo que empreendeu. Porém, mesmo assim, é mil vezes melhor que ele adquira o conhecimento pensando por si próprio. Pois é assim, quando o conhecimento é adquirido desta forma, como um organismo vivo engendrado no interior de seu sistema mental, que o conhecimento se mostrará completamente integrado e conectado com aquilo que já conhece, que será plenamente entendido com tudo aquilo que o subsume e que dele se conclui, que portará as cores, formas e características de seu próprio raciocínio, que virá no tempo certo, exatamente quando precisar dele; que ele se impregnará em sua mente e dele jamais se esquecerá”.

2. Selecione os livros e os autores que sejam sumidades no assunto, que cubram o assunto da maneira mais ampla e abrangente possível. É a melhor maneira de se começar a investigar um assunto, pois você tomará contato com os principais fatos e linhas de pensamento acerca dele. Evite confusões embrenhando-se inicialmente em leituras menores e parciais ou com livros excessivamente introdutórios. Assim como é difícil aprender a nadar exercitando um tipo de nado por dia, também será difícil aprender sobre determinado assunto se você se dedicar inicialmente às suas particularidades.

3. Resista à tentação de se deixar levar pelas opiniões expressas no livro. Antes de aceitar prontamente as idéias do autor, procure e examine as evidências. Faça uma leitura maximamente crítica, página por página, parágrafo por parágrafo, frase por frase. A diferença entre a leitura crítica e a leitura normal é que na leitura crítica você se esforça para encontrar objeções, enquanto na leitura normal você aguarda até que as objeções lhe ocorram. Uma das peculiaridades da mente humana é que ela aceita facilmente as afirmações que estejam desacompanhadas de evidências que as sustentem; se não houver evidências explícitas contra elas, a mente se entregará com facilidade. Muitas pessoas dizem da boca para fora que seguem esta recomendação, mas na prática não o fazem. Estão se enganando: se acham que é perda de tempo tentar entender uma idéia, é mais perda de tempo ainda lê-la sem entendê-la. E lembre-se: sempre que estiver confuso ou sempre que julgar necessário, largue o livro – feche-o se quiser – e deixe o raciocínio seguir seu caminho. Afinal, o objetivo não é “ler o livro”, mas usá-lo em prol da sua concentração em um determinado assunto.

4. Tome nota dos problemas que não foram adequadamente abordados ou resolvidos pelo autor. São sobre estes problemas que você terá de pensar.

5. Leia os próximos livros de maneira hop, skip and jump, ou seja, leia somente aquilo que neles seja importante, exclusivo, singular. A lei do retorno decrescente aplica-se à leitura também: quanto mais você lê sobre um assunto, cada vez menos os livros lhe dirão algo sobre ele. Procure descobrir o momento em que ler os livros integralmente será pura perda de tempo. Não é seu dever lê-los todos de cabo a rabo. Não caia na tentação tola de ler um livro só para dizer aos outros que o leu. Não tenha vergonha de dizer que o leu parcialmente ou que deu apenas uma olhada. Se o seu objetivo é impressionar os amigos e ganhar fama de intelectual, leia-os de capa a contracapa. Se o seu objetivo é adquirir conhecimento genuíno, leia-os parcialmente, concentrando-se no que neles houver de importante. Use o índice, leia alguns parágrafos aqui e ali, e tente descobrir o que é realmente necessário ser lido e o que pode ser desprezado.

Dicas finais

Não espere que a leitura deste livro (ou deste resumo) seja o bastante para fazê-lo começar a raciocinar. Nenhum hábito surgirá em você até que de fato você comece a praticá-lo. Dedique inicialmente 30 minutos do seu dia para o pensamento. Isso exigirá que você deixe de fazer o que costumeiramente faria nestes 30 minutos. Fique atento, esforce-se, procure registrar o que pensou de várias maneiras diferentes, assim como uma cidade se conhece por várias fotografias diferentes.